Glênio Reis: o homem que trouxe a empolgação ao rádio

Poti Silveira Campos

Nos últimos meses, os dias têm sido tristes para o radialista Glênio Reis, 83 anos, um homem que costuma esquecer datas. “Nunca dei bola pra elas”, diz, ao ser questionado sobre o ano em que o GRShow, programa de auditório por ele comandado na então nascente TV Gaúcha, foi ao ar pela primeira vez. Glênio nem se importa com isso. Também esqueceu a data da própria estreia na Rádio Difusora, a PRF-9, mas é capaz de repetir, com exatidão, bordões e falas que proferiu ao longo da carreira de 53 anos. Ainda bem. Rádio e música são duas paixões de Glênio – e ele tem muito a contar sobre ambas.

“Aqui quem está falando é Glênio Reis, filho único de Carolina Camargo Tanger dos Reis, de Bagé, e de João dos Reis, de Cacimbinhas, morador do Bairro Menino Deus, que está chegando às 21 horas no rádio do seu carro, do seu apartamento, da sua mansão ou do seu modesto barraco”, detalha em alto e bom tom. Eis a abertura do programa Sem Fronteira, que o porto-alegrense Glênio – criado no Bom Fim – leva ao ar na Rádio Gaúcha desde 2009, das 21h à meia-noite de sábado. “A proposta é tocar música. O Sem Fronteira é um programa sem preconceito, mas onde a mediocridade não tem vez”, explica. E bota sem preconceito nisso: a seleção inclui de Orlando Silva a Celine Dion, passando por Chico Buarque, Elis Regina, Jimi Hendrix, Led Zeppelin ou Steppenwolf – Glênio foi pioneiro em tocar na mídia local bom número de nomes do rock. Nesses dias tristes, a voz se empolga ao reproduzir coisas do rádio e da música. Aliás, empolgação tem sido uma marca registrada desde o início.

Foi preciso empolgação, por exemplo, para convencer a PRF-9 que Glênio merecia o próprio programa de rádio. “Eu pedia e ele me dizia não. Eu perguntava porque e ele dizia por que não”, relata. Glênio esqueceu o nome do “ele”, um chefe que tinha na Difusora, onde fora contratado como produtor. “Produtor era o cara que escrevia o texto que outros iriam ler. Hoje, produtor tem outro status, mas eu não queria ser produtor”, diz. Insistiu, insistiu e conseguiu. E entrou no ar com uma empolgação até então estranha ao rádio gaúcho. “O pessoal era conservador, falava empolado”, relembra e imita um imaginário locutor falando com uma batata quente na boca: “Boa noite, senhores e senhoras ouvintes…” Não há nenhuma arrogância na brincadeira. Glênio é um sujeito humilde, que na própria casa senta na beira do sofá, quase com jeito de quem já vai embora.

Tudo ou nada

Então, em 1958, Glênio estreou na Rádio Difusora. Era tudo ou nada. O chefe que azucrinara lhe advertira: “Se não der certo, tu estás no olho da rua”. Glênio engoliu em seco, importou estilo e foi o primeiro a se denominar disc-jóquei no Rio Grande do Sul. “Não é a mesma coisa que DJ, que só põe música para tocar. Disc-jóquei é um orientador”, salienta. Além da expressão em inglês, o novato tirou a batata quente da boca para falar ao microfone e adotou a descontração dos programas de auditório. O programa se chamava Falando de Discos e ia ao ar de segunda a sexta-feira, das 9h30min às 11h30min. Glênio chegava a cantar ao apresentar as músicas, algo inusitado na época. O programa ganhava audiência, inclusive com fãs lotando o pequeno estúdio da Difusora. O apresentador se empolgava, botava o pessoal para cantar junto e – pronto – tinha o próprio coro.

Com o sucesso, o chefe “passou a dizer por aí que tinha a honra de haver descoberto Glênio Reis” que, por sua vez, ganhou outros programas na Difusora. Segundas, quartas e sextas, às 18h, Glênio se tornava o Sherlock do Disco, à procura de novidades do vinil. O personagem misterioso tinha como interlocutor – e locutor do programa – o eterno amigo do detetive criado por escritor Conan Doyle, o Doutor Watson. Elementar, meu caro Watson. E havia ainda o Você Faz o Sucesso, que atendia a pedidos da legião cada vez mais numerosa de ouvintes.

No Falando de Discos – dos três programas, o favorito do público e do próprio Glênio –, o radialista conquista trânsito também no meio artístico. O cacife lhe garante uma entrevista com o cantor e compositor Agostinho dos Santos (1932-1973), um astro em interpretações de canções como Felicidade e Manhã de Carnaval. Agostinho era uma atração da concorrente PRH-2, com o programa de sábado Vesperal Farroupilha, de Salimen Júnior. Ainda assim, Glênio consegue levar o músico ao estúdio da Difusora, no quarto andar do Edifício Comendador Azevedo, na Rua Uruguai, no Centro de Porto Alegre. Mais adiante, Glênio consegue algo considerado quase impossível: entrevista Orlando Silva (1915-1978), “o cantor das multidões”, estrela de primeira grandeza na música popular brasileira na primeira metade do século 20 e que tinha aversão a jornalistas.

Tocava de tudo

Na seleção musical de Glênio, tocava de tudo. O critério do disc-jóquei era o mesmo de hoje, com a qualidade em primeiro lugar. A concorrência com a Farroupilha não durou muito. Em 1959 – data que evidentemente não lembra –, Glênio é convidado a ingressar na emissora, como chefe da discoteca e programador musical. “Fiquei com o ego lavado. A Farroupilha era a Rádio Nacional do Sul”, compara, referindo-se à emissora fluminense referência na radiodifusão no país. A Nacional, prefixo PRE-8, além de ter sido a primeira emissora com alcance praticamente em todo território nacional, dispunha de invejável elenco de músicos, cantores e radioatores. No Estado, a Farroupilha tinha status semelhante.

Na nova casa, o Falando de Discos passa a ser transmitido às 14h. Glênio, no entanto, entrava no ar no final da manhã, a partir de 11h30min, com o programa Rádio Sequência, com entrevistas e música. Nos finais da tarde de domingo, direto da discoteca da PRH-2, é a vez do Rádio Baile Mesbla, um modelo de programa de sucesso na época em que as eletrolas estavam chegando aos lares gaúchos: o ouvinte ligava ou enviava carta – Internet, vale salientar, sequer existia –, pedia a música e dançava em casa, em reuniões com amigos e vizinhos.

Em dezembro de 1959 – outra data esquecida –, a TV Piratini se torna a primeira emissora de televisão no Estado, e Glênio, apresentador de Disque é Jóquei. O trocadilho era levado realmente a sério: Glênio ia ao ar vestido com roupa de jóquei – a caráter para uma prova de turfe – e surgia na tela montado de costas em um pangaré que era puro osso. Quem o assistisse, não teria como esquecer. Em 1965, é contratado pelo Rádio Gaúcha. Na TV Gaúcha, antes de a emissora se filiar à Rede Globo, apresenta o GR Show – quatro horas de programa nas tardes de sábado. O rádio estava num momento de baixa, com as tradicionais previsões de fim de um meio de comunicação quando ocorre a popularização de outro – no caso a TV. Glênio, então consagrado entre os jovens, se manteve na vitrine com a implantação da televisão. Afinado com o iê-iê-iê que estava na crista da onda – para utilizar uma expressão da época –, o comunicador garantiu ao GR Show a presença de um naipe de sopro ao lado de guitarras, baixo e bateria. O programa ficou no ar até 1967. Glênio, nem é preciso dizer, esqueceu a data. “Foram dois ou três anos”, afirma.

Uma data triste

Durante os anos 1970, Glênio assumiu o programa Um Novo Mundo à Zero Hora, uma ronda noturna que tinha início à meia-noite. Nos anos 1980, no Programa da Pesada, só tocava discos “marca-diabo”, com músicas de mais de cinco minutos, que não tocavam em outras rádios. O Programa da Pesada, classificado por Glênio como “alegre e louco”, conquistou o público universitário. Além do rock internacional, os picapes da Pesada também reproduziam os acordes de bandas locais como o Liverpool Sound, mais tarde transformado em Bixo da Seda.

Na lista das datas esquecidas, há também uma noite no final de março de 1964 – nada a ver com o golpe militar – em que uma jovem de 18 anos, moradora do Bairro IAPI, na Capital gaúcha, fazia as malas. No dia seguinte, a moça embarcaria, na companhia do pai, em um ônibus para São Paulo. Era Elis Regina. Por volta da meia-noite, Elis terminou seus afazeres e apagou a luz. Glênio respirou aliviado quando as frestas da janela, marcadas pela claridade da lâmpada, sumiram na escuridão da parede. “Até que enfim essa menina foi dormir”, disse a uma turma de músicos que aguardava o momento.

A turma reunia compositores gaúchos que Elis havia gravado. Lá estavam Túlio Piva, Mutinho – baterista, sobrinho de Lupicínio Rodrigues e que mais tarde se tornaria parceiro de Toquinho – e Sérgio Napp, entre outros, capitaneados por Glênio – aliás, o único não músico do grupo. Apagada a luz, cada compositor cantou, sob a janela do quarto de Elis, a música que ela havia gravado. Quando terminaram, houve alguns minutos antes de a janela se abrir e nela surgir Elis, chorando “que era uma loucura”, descreve Glênio. A ele, que havia organizado a despedida, cabia a tarefa de proferir algumas palavras: “Acabei chorando junto”.

Há uma data, porém, que está fora da lista de datas esquecidas. É a que não lhe deixa esquecer a tristeza: dia 24 de outubro, dia do próprio aniversário. Foi nesse dia, no ano passado, que Glênio se despediu, pela última vez, da mulher que amou durante 53 anos. Os olhos ficam úmidos ao lembrar. Anésia Pereira dos Reis morreu na madrugada do dia 23 de outubro de 2010, um sábado, depois de quatro anos de luta contra o câncer de pulmão. Formada em Pedagogia, Anésia foi diretora do Colégio Estadual Luciana de Abreu durante 18 anos. Ela e Glênio tiveram duas filhas, também professoras, Ellen e Rosy, e uma neta, Carolina. As três se revezam para fazer companhia ao radialista, que hoje divide seu tempo levando entretenimento com boa música pelas ondas do rádio, nas noites de sábado, e com olhar distante na lembrança do amor da mulher que se foi.

(Perfil da Semana | Site Coletiva Net | 08/04/2011 | Foto: Poti Silveira Campos)

1 responder
  1. Agilmar Machado says:

    Oportuna a matéria de Poti, tendo como personagem principal o nosso querido amigo Glênio.
    Estou em Porto Alegre já há alguns dias e, anteontem, falei com o Glênio e com o seu inseparvável amigo José Alberto de Souza (o velho e admirado “Poeta das águas doces”.
    Tínhamos um encontro marcado para um jantar com música ao vivo no bairro Menino Deus, a poucoa metros do apartamento do José.
    Infelizmente Glênio não teve condições de estar presente, pois teve que cumprir uma recomendação médica de última hora de permanecer em repouso.
    José Alberto e eu lá estivemos e até planejavamos “fazer um assalto” ao Glînio lá em sua confortável casa em Santa Teresa, porém, quando nos apercebemos já era muito tarde e seria incoveniente a visita.
    Fica para outra vez, velho guerreiro!

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