Goar Mestre: “o rei da TV”

Fernando Morgado

A televisão na América Latina possui raízes muito particulares. Foi aqui onde o rádio exerceu maior peso na formação da linguagem, dos profissionais e das programações que foram para o vídeo. Na Europa e nos Estados Unidos, não se pode ignorar a contribuição, ainda que num grau inferior, da indústria cinematográfica.

No rádio, nasceram não apenas os primeiros ídolos como também os primeiros empresários da TV. Homens que apostaram fortunas num meio que demoraria a se massificar. Goar Mestre foi um desses pioneiros, num tempo em que seu país, Cuba, ainda respirava os ares da liberdade econômica. Ele era proprietário de diversas emissoras, lideradas pela CMQ.

Tornou-se referência no mercado com criações como o Rotativo, que até hoje é utilizado no mundo inteiro. Trata-se de um formato que permite ao anunciante ter a sua mensagem distribuída durante uma faixa maior do dia, entregando os impactos esperados e, ao mesmo tempo, equilibrando a programação comercial da emissora.

A CMQ entrou para a história também por ter lançado aquela que é considerada a radionovela de maior sucesso em todos os tempos: El Derecho de Nacer, de Félix Caignet.

Além do dial, Goar atuava em ramos tão diversos quanto alimentos, remédios, eletrodomésticos e salas de cinema. A partir dessa estrutura empresarial, pôs no ar a CMQ-TV, um dos primeiros canais da América Latina, mas logo viu todo seu império se esfacelar com a chegada de Fidel Castro. Não serviu de nada o fato de Goar ter sido um dos financiadores da Revolução.

Teve de reinventar-se como empresário e, nos anos 1960, instalou emissoras na Venezuela, Peru, Porto Rico e Argentina. Nessas empreitadas, foi sócio da CBS, numa relação de profunda confiança. Transformou a terra de Perón num dos polos mais vibrantes de televisão através da produtora PROARTEL e do Canal 13 de Buenos Aires. Lá, foi pioneiro na instalação de estações pelo interior do país e no sistema de TV por cabo. Em 1974, perdeu tudo novamente: com o golpe militar, sua rede argentina foi estatizada.

Recomeçou mais uma vez, criando uma nova produtora, a Teleinde, investindo em imóveis e, em 1989, apoiando os Macri na concorrência pelo canal 11 de Buenos Aires. No fim da vida, ajudou seu filho Roberto na administração das marcas Chicco e Pizza Hut na Argentina. Goar Mestre faleceu em 23/3/1994.

Essa história incrível, pouco conhecida no Brasil, mas fundamental para a televisão latina, é contada em El Rey de la TV: Goar Mestre y la história de la televisión. Escrito pelo jornalista argentino Pablo Sirvén, esse livro foi publicado em 1996 pelo Clarín: justamente o grupo que, até hoje, controla o Canal 13 que o biografado ajudou a criar e transformar num sucesso.

Goar Mestre foi um exemplo de persistência e paixão pela comunicação, além de ter protagonizado (e, algumas vezes, sido vítima) das profundas mudanças sofridas pela América Latina durante o século XX.

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Por Fernando Morgado

Fernando Morgado é palestrante, consultor, professor da FACHA e professor convidado de instituições como Universidad Autónoma Metropolitana do México, ESPM e PUC-Rio. Autor do livro biográfico "Silvio Santos: a trajetória do mito" (Matrix, 2017). Tem outros seis livros como autor, coautor e colaborador. Mestrando em Gestão da Economia Criativa, pós-graduado em Gestão Empresarial e Marketing e graduado em Design com Habilitação em Comunicação Visual e Ênfase em Marketing pela ESPM. Entre suas atividades comunitárias, é articulista voluntário no site do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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