Gol sem sorriso

Aquela sexta-feira prometia. Pela manhã, Antônio provara sua nova prótese, ou sua dentadura. Aos 55 anos um homem ainda é vaidoso. No almoço, preferiu ir a uma churrascaria. Primeiro para comemorar a boca nova. Segundo, queria testá-la. Picanha, alcatra, linguiça, galeto, cupim, até polenta frita. Cem por cento, nota 10. Podia até comer pedra.

À noite, no futebol de salão com amigos, Antônio era todo sorriso. A partida começa e o novo sorridente sente-se mais confiante. Dá risadas a toa, os amigos nem entendem o porquê de tanta empolgação. Já no segundo tempo, Antônio pega um passe perfeito de Márcio. Ele corre em direção ao gol e quando mete aquele baita chute na bola sente a boca esvaziar-se. Olha mais a frente e vê sua dentadura no chão. Os amigos gritam: chuta Antônio, chuta cara, vai, vai.Antônio vai tentar pegar a dentadura, mas a chuta sem querer quando chega perto.

Primeiro os amigos riem. Depois se comovem ao ver Antônio em desespero atrás dos dentes. O Márcio chegou perto demais e sem querer chutou a bola junto com a dentadura para dentro da trave. A turma gritou: goooooool.

Só Antônio não gritou. Juntou a dentadura, viu que não tinha quebrado e foi até o banheiro. Com a boca completa outra vez não quis voltar ao jogo aquela noite. Resolveu voltar à churrascaria. Lá era mais garantido.

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