Gordinha no ônibus

– Com licença.
Ele se encolhe o mais que pode e ela se espalha no banco. O amplo quadril direito abafa o seu quadrilzinho esquerdo. É impossível encostar-se ainda mais no canto, não há o menor espaço sobrando, não adianta querer escapar daquilo, só se pular da janela e pegar outro ônibus, coisa que, no entanto, ele não está disposto a fazer, haja o que houver.
Por Flavio José Cardozo

– É fogo! – ela diz, abanando o peito com as duas mãos e olhando o seu espremido vizinho com uma expressão meio cansada, o natural cansaço das pessoas gordas em dia de muito calor. Mas é evidente naquele rosto uma disposição simpática, que é também tão comum nos gordos. É um rosto que lembra o da excelente Marianne Sagebrecht no filme Estação Doçura.
– Vou acabar me derretendo – ela brinca.
Ele pensava que já estivesse no máximo soterramento, mas não: sente o corpo dela comprimindo ainda mais o seu, agora que o ônibus se pôs em movimento. É uma intimidade que não permite nenhum outro tipo de pensamento senão sobre desconforto e falta de ar, um preço extra a que sempre está  sujeito todo usuário de ônibus. Nas curvas e lombadas que estão por vir, não há  dúvida de que quem mais depressa vai se derreter é ele.
– Posso me derreter, mas que o dia está lindo, está, não é mesmo? – ela fala, depois de uma rápida sondagem pela paisagem.
– Muito lindo.
– Num dia assim bonito, com essa quentura, dá até vontade da gente sair voando por aí, não dá?
Ele vira o rosto para o lado da rua, não exatamente para conferir a beleza da tarde, mas para disfarçar o riso. Com todo o respeito que lhe merecem os gostos e os anseios das outras pessoas, não consegue deixar de achar engraçado ela dizer que queria sair voando. É um sentimento mais do que legítimo, quem num dia assim já não teve esse desejo?, mas é brabo imaginá-la planando no ar – será mesmo, pensa com distraída crueldade, que isso ia ser possível? Mas pondera sobre a imensidão do espaço, dentro da qual tudo fica leve, até os mais poderosos jumbos, volta-se para a mulher, que tem mesmo um rosto naturalmente jovial, tão parecido, sim, com o da atriz Marianne Sagebrecht, e diz que é verdade, é verdade, num dia desses a gente tem mesmo uma danada vontade de voar, a senhora tem toda razão. E imagina-a saindo, não pela janela, que francamente não dá, mas pela porta em direção das alturas. Tem certeza de que ia ficar olhando o vôo dela com dupla felicidade, uma felicidade de espírito, que era a de vê-la contente, e uma de corpo, que era a de se aliviar de seu peso.
Ela diz que vai à cidade receber dinheiro no banco e que depois vai comprar remédio, mas não fala em doença, parece não ser das que se clamam disso, só muito de passagem informa que o marido não pôde sair de casa. É ela quem faz todas as voltas, coisa de que até gosta muito, sempre é bom espairecer um pouco, mas num dia assim tão quente…
– Se a gente ainda voasse… – ele lembra, rindo.
– Pois é… Quem sabe noutra vida eu venho passarinho.
Curvas e lombadas, a larga anca opressora, mãos abanando para espantar o calor, o tempo passa mais depressa na prática da conversa. Quase no ponto final, ela comenta que uma coisa que nunca deixa de fazer é jogar na Sena. Toda semana faz uma aposta, é sagrado.
– Ainda quero ter um carro bem grande, eu sozinha lá atrás, sem incomodar ninguém. Eu sei que aqui no ônibus incomodo bastante.
– Deus ajude a senhora a ganhar na Sena – ele diz, quase debaixo dela numa derradeira guinada do ônibus, mas fica se perguntando se, ao dizer isso, não acabou de ser indelicado.
(Do livro Uns papéis que voam,  São Paulo, FTD, 2003)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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