Grande Caruso

Passeando pelo Ribeirão da Ilha, não pude conter minha saudade do Waldemar Joaquim da Silva Filho, registrado no cartório do nosso coração como Caruso. Que safadeza ele fez em nos deixar tão cedo! Era um dos ilhéus mais ilhéus e, seguramente, o maior defensor dos interesses de seu belo distrito residencial, afetivo e eleitoral, o velho Ribeirão. Todo mundo sabe disso, mas eu o sei de um ponto de vista privilegiado: como “vítima” daquele seu pitoresco bairrismo.
Por Flávio José Cardozo

Manoel Prazeres, Heraldo Dias, Waldemar Joaquim da Silva Filho, Joel Ventura, Antônio Henrique Bulcão Vianna, Dirce Bernardete Carvalho Diener, Rosaldo Ulysséa e João Alberto Silva.

Manoel Prazeres, Heraldo Dias, Waldemar Joaquim da Silva Filho, Joel Ventura, Antônio Henrique Bulcão Vianna, Dirce Bernardete Carvalho Diener, Rosaldo Ulysséa e João Alberto Silva.

O caso se deu por causa de uma versão para a tv que Silveira de Souza e Pinheiro Neto fizeram de um conto meu cuja ação se passa no arraial onde nasceu e sempre morou Caruso. Personagens: um casalzinho e o pai do noivo. Mal se casa, o rapaz sofre uma paralisia que o imobiliza da cintura para baixo. O velho procura todos os recursos para safar o filho de tão incômodo acidente.
Chama médico, padre, curandeira, bezendeira e nada. Faz promessas, reza como nunca rezou e nada. Pelas tantas, começa a inquietar-se com o aspecto moral da situação: a nora é bonita, o filho está naquela inércia, o mundo aí fora é um mar de tentações, há um nome de família a ser zelado. Por fim, vendo que o caso não tem mesmo remédio, decide: fica com a nora, cujas naturais necessidades ele reconhece, e mantém a questão entre quatro paredes. Mudam-se os três para o Continente, longe das más línguas.
O filmezinho fez um rebuliço. Rodado com a participação de vários moradores, ninguém estava informado da história toda, cada um só tinha idéia de alguns fragmentos. A constatação de que nela havia um pouco de malícia foi traumatizante: então era aquilo o tal Honra da casa, anunciado com tanto espalhafato como o primeiro especial da televisão catarinense e aguardado com tanta impaciência? Muitos se revoltaram diante do que viam – a humilhante invalidez de um ribeironense, o asqueroso ajuntamento de uma ribeironense com o pai do próprio marido. Que desaforo!
Caruso aderiu ao sentimento dos revoltados. Exercia a vereança pelo Ribeirão da Ilha há vinte anos e sempre foi porta-voz da sua gente. Reclamou junto à televisão e me deu um esculacho contudente. Aquilo era um achincalhe, uma molecagem, uma desfeita pública. Dei a ele o conto original para uma leitura calma e pedi que explicasse a todo mundo que o querido Ribeirão da Ilha era apenas um chão, como qualquer outro, para uma pequena sátira sobre a hipocrisia humana, sobre a importância que o bicho homem costuma dar às aparências. A historinha se passava lá como podia se passar na minha Santo Antônio de Lisboa ou na Conchinchina. Insinuei que os reclamantes corriam o risco de confirmar, na prática, o que a historinha queria ironizar.
Consegui ir limpando a barra, pois não há nada que uma conversa ponderada não resolva. Caruso foi amansando, fomos voltando às boas.
Acabamos deixando a velha amizade ainda mais estreita.
Quando Caruso morreu, um pouco da minha alegria, como a de muitos e muitos, foi-se embora com ele.
(Do livro Senhora do meu Desterro, Florianópolis, Lundardelli / Fundação Franklin Cascaes, 1991)


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1 responder
  1. Maria Fernanda Lehmkuhl da Silva says:

    Olá, sou filha do Caruso e agredeço pela homenagem.

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