Grandes astros do Sul (II)

Vicente Celestino estava sendo esperado em Tubarão, no vôo das 13h da Cruzeiro do Sul. Com atraso de apenas dez minutos, eis que o festejado tenor aparecia na porta do Douglas e abanava para o público presente no Aeroporto Leoberto Leal. Com ele, sua companheira, incentivadora, compositora, escritora, teatróloga, atriz e soprano Gilda de Abreu.
Por Agilmar Machado

Foi por volta de 1960, portanto cerca de oito anos antes de seu desaparecimento. O ídolo que mais permaneceu com o cartaz inabalável no mundo artístico brasileiro ali estava em pessoa. Após o almoço teria que cumprir uma entrevista na Rádio Tubá, onde atuávamos juntamente com o mano César e o inesquecível Ézio Lima.
A entrevista seria uma “preliminar” para o espetáculo a ser apresentado no palco do Cine Vitória a partir das 20h. Chegamos ao hoje extinto Restaurante Canta Napoli, na Galeria Medeiros, onde a equipe supramencionada partilhou do almoço, gentilmente oferecido pelo restaurante.

A entrevista com Vicente e Gilda foi aberta pelo César, com algumas intervenções minhas e do Ézio. Gilda esbanjava cultura. Era uma mulher excepcionalmente simpática, como seu marido, especialmente pela simplicidade de ambos.
No escritório da gerência juntou-se a nós o então Padre Osni Rosenbróck e seguimos num papo mais íntimo, até com muitas brincadeiras do Vicente. Duas horas antes do espetáculo Vicente sugeriu que fôssemos jantar, já que, metódico como era, não costumava cantar logo após as refeições.
Ocupamos a mesma mesa do Canta Napoli, então com um belo ornato dedicado a Gilda: um garboso buquê de flores multicoloridas.
A surpresa
João Abílio, boêmio incorrigível, tinha uma insinuante e romântica voz. Era uma espécie de Silvio Caldas provinciano: não costumava cumprir horários em seus eventuais contratos, preferindo fazer tudo da forma que melhor lhe desse na telha…
Recém havíamos pedido o almoço e o violão do João Abílio deixava sua embalagem. Com o pé direito sobre uma cadeira, como era seu costume.
– “Grande Vicente Celestino – disse ele – eu quero cantar para o senhor!”. Ato contínuo, dedilhando de maneira exímia o “pinho”, começou a entoar o mais notável sucesso de Vicente e Gilda: O Ébrio.
Jamais vi João Abílio cantando tão orgulhosamente! Sentia-se um menestrel real naquele momento! E quando ele terminou, Vicente levantou-se, abraçou-o e disse-lhe: – “Muito obrigado pela sua comovente homenagem, querido companheiro de caminhada!”. 
Autêntico como era, ele agradecia o convite de Vicente para que jantasse conosco e disse: “Se o meu grande Vicente permitir, vou apenas pedir uma caipirinha, com a licença de dona Gilda também”.
Vicente sorriu emocionado. Gilda limitou-se a exclamar: “Como se desperdiçam valores por esse nosso Brasil artístico…”
João Abílio, muito ligado a nossa roda, sempre girou a noite, nos botecos e também nos ambientes mais sofisticados durante toda a sua vida. Foi um boêmio de raça. Somente não conseguiu vencer o câncer, que o levaria poucos anos depois.
Talvez esteja em algum lugar animando sonora seresta para o bom amigo Ézio e para seu inseparável protetor, Haroldo Fernandes, batendo seu plangente violão e entoando de seu apreciado repertório a valsa “Três companheiros”, sua favorita…
 


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Por Agilmar Machado

Iniciou suas atividades profissionais no rádio em 1950, tornando-se jornalista em 1969. Atuou nas principais emissoras do Sul de SC como redator, produtor e apresentador de programas jornalísticos. Historiador, é co-autor História da Comunicação no Sul de SC. É membro fundador da Academia de Letras de Criciúma/SC.
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