Grupo de idosos e o suco sem açúcar

Tendo vivido já “uns par de anos”, confesso que nunca vi uma cidade dar tanta atenção aos idosos, como Florianópolis, através de uma Gerência que cuida desse setor.

Conselho idoso FlorianópolisO mês dedicado aos idosos foi a prova cabal disso e tive a oportunidade de presenciar alguma coisa. Fui ao SESC da Prainha, ver a final do Concurso de música, com a participação de diversos grupos de idosos. Ginásio lotado, diversos grupos se apresentando. Chamou-me a atenção a equipe de trabalho logo de início distribuindo água mineral para todos os que chegavam, indistintamente.

Antes do final das apresentações fui surpreendido com outra atitude: todos participantes, inclusive a plateia, recebiam um kit-lanche, com salgadinhos, bolo e refresco, acondicionados numa caixinha de isopor.

Não faço nem idéia de quantos kits foram distribuídos porque, como já disse, o ginásio do Sesc estava lotado.

Recém chegado à Ilha, depois de quarenta anos de ausência, já fui convidado para participar do grupo do Horto Florestal, do Córrego Grande.

Fiquei pensando: será que já está na hora de participar de algum grupo de idosos? Ou já perdi muito tempo? Quando chega esse momento, pra decidir é só fazer uma breve rememoração, como fiz.

Você fica ciente que está na hora quando se lembra que:

“Fez curso de datilografia; adorava as provas cheirando a álcool, recém copiadas do mimeógrafo que usava papel estêncil; no dia do aniversário não ia pra escola, pra não levar ovo cru na cabeça; adorava ouvir o Trio Los Panchos e a Orquestra do Billy Vaughn; cantou músicas do Vicente Celestino; ouvia a Ave Maria com o Júlio Lousada,  na Rádio Nacional, e a novela O Direito de Nascer; já brincou de esconde-esconde, de estátua, pega-pega, cobra-cega, tá-frio-tá-quente, passa-anel, boca de forno, amarelinha, fabricava o próprio patinete com rolimã, brincava de casamento atrás da porta, tinha estilingue, soltava pipa, jogava pião, armava arapuca ou fazia forca pra pegar passarinho, tinha bola de capotão; teve calça curta com suspensório; o Ford Bigode era táxi; seu pai tinha um relógio de bolso Patek Phillip, três estrelas; colecionava figurinhas das balas Zequinha; ia assistir seriado na matinê (matinê que era à tarde); já assinou aqueles cadernos com inúmeras perguntas, onde a última era: de quem você mais gosta? Deixe uma mensagem; nadou pelado no rio; cantou As águas vão rolar, até ficar rouco; tomou Chrush com pinga; guardou bituca dentro do sapato; soltava traque atrás de cachorro em festa junina; deixava o sapato na porta pro Papai Noel colocar presente; não se lembra mais dos nomes dos companheiros da escola nem da primeira professora, mas se lembra da primeira vez que fumou um quebra-peito e da primeira namorada…”

E tem mais, muito mais. Mas não me lembro! E, por não me lembrar mais do que isso, é que chegou a hora de, em todas as quartas-feiras ir ao Horto Florestal bater um papo, fazer de conta que vê e que escuta e, ali pelas quatro e meia, saborear um lanchinho gratuito discutindo como vamos pagar o ônibus da próxima excursão e tomando cuidado pra não tremer e derrubar o suco sem açúcar! (Foto: Solenidade marca os 15 anos do Conselho do Idoso. PMF/SC)

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *