Grupo Phoenix, o Grande Pássaro

Após a dissolução da “Flor do Sereno”, Aldo e eu (Márcio) sentimos necessidade de explorar nosso lado roqueiro; com Landinho, Edinho e Neno, formamos o “Phoenix”, de curta, mas marcante existência.

A Phoenix1978Ensaiávamos no porão da casa dos pais de Neno, onde este morava, com um repertório que ia desde Beatles, Stones, Slade, Alice Cooper, Eagles a Mercedes Sosa, com Landinho e Aldo nas guitarras, Edinho na bateria, Neno no baixo e eu no teclado. Na foto, a Banda Phoenix apresentando-se no Teatro Álvaro de Carvalho – TAC, em 1978 com o show  “Paz, Amor & Guitarras.

Nossa primeira apresentação foi no Clube do “seu” Honorino, nos Ingleses, um salão de madeira.

O maior “barato” foi o início da apresentação, quando os frequentadores começaram a dançar e formou-se uma nuvem de poeira, que ascendia lentamente do chão como um efeito de gelo seco, provocando um acesso de risos nos músicos; como o repertório ainda era pequeno, fazíamos o baile em duas partes, repetindo as mesmas músicas no segundo bloco.

De repente, o som da bateria sumiu; quando olhamos para trás, Edinho estava tendo uma crise de epilepsia, apavorando a todos, menos Neno, que já conhecia o problema. Este pegou uma das baquetas e, parando com o baixo, manteve o ritmo, enquanto Edinho se recuperava e voltava à bateria.

Outro momento esquisito foi quando fechamos um baile na Colônia Santana, para onde nos dirigimos na velha “Kombi” do Neno, num sábado de sol após muita chuva. O carro enguiçou na estrada e tivemos que empurrar, sujando nossas calças de barro vermelho. Lá chegando, tivemos que emprestar calças de enfermeiros e doentes para subir ao palco, até que uma bela briga entre frequentadores acabou o baile mais cedo.

Mas o pior ainda estava por vir.

Nosso empresário era um cunhado do Neno, que ao ver que não teríamos grana para pagar a última parcela do equipamento, fechou um contrato na Residência Oficial do Governador do Estado (na época, Antonio Carlos Konder Reis) para uma reunião de executivos. Ora! Era realmente uma loucura, um bando de roqueiros abrilhantar um jantar vip!

O empresário comprou cinco batas coloridas, amarramos nossos longos cabelos, transformamos todos os rock em canções ou baladas e enfrentamos as feras.

Naquela noite, chegamos à residência da Agronômica ressabiados e fomos recebidos pela primeira dama (irmã do governador), que nos indicou o local para a montagem do equipamento (sob uma escadaria).

Após duas ou três músicas, esta pediu para jantarmos (na copa, naturalmente) enquanto um dos convidados, pianista clássico, faria um pequeno recital. Graças a Deus, ele já tocava a mais de meia hora quando recebemos o aviso de que o cheque já estava pronto e que não precisaríamos regressar ao palco.

Foi, ao mesmo tempo, uma decepção pela dispensa e uma grande alegria por nos livrarmos de tal fardo, principalmente porque a grana da prestação já estava na mão.

Nosso epílogo deu-se no show “Paz, Amor, Sorrisos e Guitarras”, no Teatro Álvaro de Carvalho superlotado, idealizado e realizado por Ricardinho Machado e Cacau Menezes.

O espetáculo constava da apresentação do Grupo Engenho, Tuca, Folk e Phoenix no início, depois Cacau faria um número de DJ, com dois pick ups no fundo do palco, enquanto um corpo de danças coreografava.

Como naquela época alguns ônibus tinham seu terminal ao lado do TAC e as vinte e três horas era a saída do último ônibus, em vista do horário avançado, Cacau pediu que tocássemos duas músicas, passássemos a bola para ele e voltaríamos em seguida para encerrar o show (com o teatro vazio, é claro!)

O problema é que conquistamos a plateia, que foi a loucura com nosso desempenho, não querendo que deixássemos o palco, enquanto Cacau insistia, nos bastidores, para que cumpríssemos o combinado.

Enquanto ele, desesperado, fechava as cortinas, nos adiantamos para a pró-cene, arrastando o praticável da bateria para frente das cortinas, enquanto o público nos ovacionava, subindo nas poltronas e fazendo a maior zorra.

Só restava ao produtor desligar o cabo de força e, antes que isso acontecesse, terminamos com nossa versão de Satisfaction, quando eu afrouxava os parafusos do suporte do órgão e este ia lentamente ao chão, terminando por tocar deitado no palco.

Mas não terminou por aí.

Quando Cacau foi fazer seu número não contou com a fragilidade do palco; enquanto as bailarinas dançavam, as agulhas pulavam sobre os discos, atrapalhando a coreografia emputecendo o Cacau, que já não sabia mais o que fazer. Apesar da discussão, prontifiquei-me a segurar um dos pick ups, impedindo-o de pular, salvando seu show.

Na semana seguinte, Aldo e eu chegamos no ensaio e fomos comunicados por Neno e Landinho que este havia sido transferido para a próxima semana; desconfiados, aparecemos no dia seguinte, quando descobrimos que nós dois estávamos sendo traídos e substituídos por Zuvaldo e Carlos “Ringo” Andretti que entrara no lugar de Edinho na bateria. Se inspiraram na minha idéia do nome Phoenix (cujos logos de um pássaro já estavam estampados no equipamento) e mudaram o nome para “Grande Pássaro”, mesmo hoje alegando outras razões e/ou inspirações.

Como Aldo e eu éramos ecléticos e cheios de idéias, logo nos recuperamos e formamos o que viria ser o Capuchon/80, enquanto compreendíamos o que fizera nossos “amigos” trocarem de músicos: Ringo, que Neno conhecera em minha casa, durante os ensaios para um festival de São José,  e que tinha uma grana guardada, investiria numa viagem ao Rio de Janeiro para pretensas gravações e colocara como condição nossa troca pelo ex-colega de bandas Zuvaldo Ribeiro, grande compositor e cantor.

Zuvaldo hoje conta que, ao contrário, foi convidado por Landinho, e que Ringo foi incluído a convite seu. Também sobre o novo nome da banda, que foi idéia sua, enquanto Denis, que mais tarde seria o guitarrista, diz que tiveram a idéia numa reunião informal na pracinha do Quiosque.

Polêmicas a parte, foi uma grande sacanagem comigo e com Aldo, que Zuvaldo alega desconhecer e até acredito nele, que passou a liderar o grupo a partir de então.

Foram para o Rio, onde se apresentaram com grande sucesso no Circo Voador (o local mais badalado da época), além de um programa dominical da Globo  (“Cometa Loucura”), vindo a se incompatibilizar entre si, dissolvendo o grupo. Landinho e Lucia continuaram no Rio, Neno virou empresário da nova esposa Marjori, Ringo continuou sendo delegado de polícia até falecer, e Zuvaldo voltou-se mais para a religião, continuando a compor. Hoje, o Capuchon e suas vertentes ainda tocam, deles, “Menininha” e “Rock da Fumaça”, sendo que a primeira também faz parte do repertório de Fernando Bahia, da dupla Claudia Barbosa e Denise de Castro, e de tantos outros grupos locais.  Na foto de 2011, o Grande Pássaro com Dennis ao centro.

Recentemente, me comuniquei com o guitarrista Dennis por e-mail, e este me disse que, na volta de Neno do Rio, remontaram o Grande Pássaro e, como o Capuchon, o eternizaram como banda.

Ao que parece, Dennis está na liderança, por onde já passaram Marcelo Frias, Marjori, Edinho, Adriano Cardoso, Marquinhos Paulista, Marco Cardoso, e outros grandes músicos da Capital.

Vida longa ao Grande Pássaro!

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