Guarujá, a mais popular

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto…”
Por certo Olavo Bilac não pensava em rádio quando escreveu o seu poema. Mas, sua inspiração é válida quando se fala da rádio Guarujá, por exemplo. A começar pelas peculiaridades que cercam essa teimosa sessentona que continua tentando sobreviver entre o desejo de continuar fiel a sua linha tradicional de
programação e as necessárias concessões que precisa fazer para defender o pão de cada dia.

Isso é tão forte na Rádio Guarujá, que com os seus míseros cinco quilowatts de potência em onda média, na freqüência de 1420 kHertz, continua sendo ouvida em lugares inimagináveis. Como no Canadá.

Milagre? Mistério? Mistificação? Nada disso. Existem no mundo, desde que o rádio é rádio três classes de usuários: os radioamadores, os DX e os ouvintes como nós, que sintonizamos a emissora que está mais próxima e que tem melhor sinal e alguma coisa de interessante na programação.

Os radioamadores, como você sabe, fazem sua própria programação de acordo com as normas legais e vivem falando num código que só eles mesmos entendem. São muito úteis, prestativos e desprendidos. Tem problema de comunicação, apagão, terremoto, avião que caiu na mata ou barco que está em dificuldade no mar e lá estão eles com os seus pequenos transmissores falando PYTC, que eles falam PY Tango Canadá, ou “estou inteiramente QRV” e assim por diante.

Ah! Sim, e tem os DX (leia em inglês: “di éxceres”). Pois os DX, dão ainda mais interessantes. Não têm transmissor, mas são tarados por rádio. Sim, tarados em todos os sentidos. São capazes de chegar ao orgasmo quando, depois de três dias, tentando identificar uma estação conseguem um resultado como o que você ouviu ainda há pouco na gravação que apresentamos.

Quando no meio daquela chiadeira danada destacou-se a voz do Miguel dizendo “Alô, alô, platéia
esportiva muito boa noite. A partir deste momento a rádio Guarujá de Florianópolis, a mais popular…” O canadense saltou da cadeira, deu um berro de alegria e escreveu – de acordo com as normas internacionais – o relatório que enviaria para a Associação Mundial dos DXs e para a Rádio Guarujá. Pois este é o
fenômeno rádio, pelo qual nos apaixonamos, pelo qual babamos e do qual retiramos muita coisa de nossa alegria de viver.

Mas, voltemos ao tema desta série que retoma da história das 20 primeiras emissoras instaladas em Santa Catarina e que tiveram sua história contada por Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira.

Antes, porém, um breve esclarecimento que no livro aparece em forma de rodapé: Neste prédio
(Confeitaria Chiquinho) já funcionava  há algum tempo uma estação de ondas curtas doada à época do Estado Novo ao Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP de cada Estado. Estas emissoras não tinham prefixo e sua área de abrangência correspondia a um raio de aproximadamente 50 Km. Foi, a rigor, a primeira emissora radiodifusora da Capital, cuja programação baseava-se em noticiário acerca dos atos oficiais do governo. À tarde era irradiado o Jornal (em onda curta) na freqüência de 40 metros com telegramas e comentários também sobre a guerra mundial. Os locutores eram Tito Carvalho, Gustavo Neves Filho, Ney Carvalho e, algumas vezes, Mimoso Ruiz. A parte recreativa era composta de música que iniciava às 19:30 horas, seguindo-se da Hora do Brasil às 20 horas. A emissora operava também com alto-falante, tendo prestado relevantes serviços durante os exercícios de “black-out”  realizados naquele tempo na Capital.
Mais tarde a emissora foi vendida ao Diretor e Assistente Gustavo Neves e a Tito Carvalho, com aprovação do Interventor Nereu Ramos e Feris Boabaid, pela importância de 10 mil cruzeiros. O equipamento era um aparelho de radioamador, sem uso e que, graças à adaptação do técnico Ottomar Boëhm podia permanecer no ar várias horas.

Agora, segue-se mais um capítulo da História do Rádio de Santa Catarina, tendo como personagem principal a Rádio Guarujá.

Florianópolis despertou  para a novidade radiofônica a partir de 1942. O pioneiro, desta vez, foi o catarinense Ivo Serrão Vieira, nascido em São Francisco do Sul e que se criou no Rio Grande do Sul e de lá transferiu-se para Florianópolis onde montou um serviço de alto-falantes com o nome de Empresa de Propaganda Guarujá Ltda. O estúdio e sede da empresa foram instalados no primeiro andar da Confeitaria Chiquinho, na esquina das ruas Felipe Schmidt, com Trajano.
Fizeram parte da empreitada e foram os primeiro radialistas Epaminondas dos Santos, Edgar Bonassis da Silva, Hélio Kersten Silva, Mozart Régis (Pituca), João Machado da Rosa, Flávio Ferrari e Walter Lange
Júnior.

Outros já haviam tentado a aventura dos alto-falantes, mas sem que o negócio evoluísse. Ivo Serrão Vieira teve mais sorte, pois seu primo Rogério Vieira era o prefeito da cidade. Desta forma ficou fácil conseguir a licença para instalar quatro alto-falantes na região central da capital. Dois estavam posicionados na
Praça XV de Novembro, outro na rua Felipe Schmidt e mais um na esquina da Trajano com a Conselheiro Mafra.

A maior fonte de renda da empresa girava em torno dos oferecimentos Musicais, “principalmente naquele horário de espera da entrada do comércio ou na saída do horário do comércio”, diz Walter Lange. Na programação avia espaço para a Hora Literária. No programa, Lourival Almeida, então funcionário do Banco Mercantil, declamava poesias, e o professor Osvaldo Mello comentava os versos. Os tangos e boleros entravam na programação da empresa via Alma Portenha.  Na parte de  esportes a empresa concentrava-se em divulgar informações dos clubes de remo Aldo Luz, Martinelli e Riachuelo. Não deixava também de dar atenção ao futebol, com  Avai, Figueirense, Tamandaré, Bocaiúva, Externato, Paula Ramos e Íris. A religiosidade não ficou esquecida, indo ao ar, sempre às seis da tarde, a Ave Maria.

A aceitação do público era, de modo geral muito boa, diz Lange. Todavia, alguns achavam que os alto-falantes incomodavam muito. Chegaram uma vez a apelidá-los de bocas de jacaré , devido ao fato de que as caixas que protegiam os alto-falantes lembravam a bocarra do animal. Teve até uma autoridade bastante
elevada que chegou a declarar mais ou menos assim:  ‘se fosse por mim essas bocas de jacaré não estariam gritando aí pelas esquinas’.

Serrão Vieira e seus companheiros sonhavam com a instalação de uma emissora de rádio. Os mentores do rádio em Florianópolis queriam mais. Exatamente criar uma emissora e requerer junto ao governo federal a sua oficialização. Foi assim que o cadete do exército, Walter Lange, em suas horas de folga, montou um
transmissor de 80 watts de potência. Começavam os tempos da Rádio Guarujá, inaugurada no dia 14 de maio de 1943, resultado da sociedade formada entre Ivo Serrão Vieira, Epaminondas Santos Júnior e Valter Lange Júnior. No início a emissora era sintonizada, além da região central, nas localidades da Agronômica, Saco dos Limões e Estreito, na freqüência de 1000 quilociclos.

O transmissor era uma válvula número 6L6, metálica, sem controle, de freqüência variável, caso provocasse alguma interferência em outras estações, como acontecia nas ondas curtas de uma rádio de Curitiba. Apesar do transmissor da Guarujá estar sintonizado para uma freqüência 1000 quilociclos da faixa comum de rádio, que é a faixa de ondas médias, tinha um harmônico que saia mais ou menos por volta de 50 metros. Mas  era um caso raro, pois a potência do transmissor não excedia de forma alguma a 20 watts; e a maioria dos
radioamadores utiliza uma potência muito maior do que esses 20 watts.

Sobre o motivo de se construir um transmissor quando se podia comprar um mais sofisticado, Walter Lange Júnior explica que “Em 1942  já acontecia a Segunda Guerra Mundial. A dificuldade de material era muito grande e nós optamos por essa válvula, que era uma valvulazinha bastante conhecida e muito utilizada pelos radioamadores; inclusive até muitos amplificadores de som, para amplificação comum de som, utilizavam essa válvula. Para evitar problemas de irradiação de rádio-freqüência se utilizava a válvula metálica; 6L6 metálica.

Podia aumentar um pouco a voltagem na placa dessas válvulas e fazia-se com que rendessem um pouco mais do que o normal. E ela aquecia tanto que a gente tinha necessidade de ligar um ventilador para refrigerá-la um pouco. Mas, era basicamente uma válvula 6L6 que gerava a energia e também servia já como
amplificador final, quer dizer, ela sozinha fazia tudo. Ela oscilava e amplificava a energia que era ligada numa antena e irradiava. O som para ser jogado sobre esta válvula, que é para modular a energia, era retirado do próprio amplificador. Era um transmissor dos mais simples que a gente podia fazer”, lembra Walter Lange.

Mesmo com o sucesso do novo transmissor, o serviço de alto-falantes, igualmente apelidado por alguns jornalistas de “as bocas de jacaré da maracujá”, continuou. Não por muito tempo. Por fim o serviço foi
suspenso, ficando apenas a ZYJ-7 Sociedade Rádio Guarujá. Alguns programas, porém permaneceram, como os Oferecimentos Musicais e a Ave Maria, irradiada sempre às seis horas da tarde.

Lange Júnior diz que: “Por falta de locutores, muitas e muitas vezes eu apresentei esse programa. Tocava aquela música “Ave Maria” até um determinado trecho, baixava, então entrava com a oração que era retirada de um livro, com uma porção de pequenas estórias, e todas elas relacionadas com a “Ave Maria”, com santos; sempre na hora da saída do comércio; o comércio fechava mais ou menos às seis horas”.

A programação fixa da Guarujá iniciava às 10 horas da manhã com o musical A Velha Viena, saindo do ar às 14 horas, pois o transmissor necessitava de um descanso de quatro a seis horas. No final da tarde, às seis
horas, reiniciava-se a programação com a hora da prece.

A publicidade local para a Rádio Guarujá era feita principalmente por Ney Serrão Vieira, irmão do fundador da emissora, que havia se transferido do Banco do Brasil de Porto Alegre para a ilha. Sua função era cuidar da parte comercial. Como todos eram colaboradores e o trabalho não era encarado com profissionalismo, os demais também “vendiam” seus programas, assim como participavam de outras produções que não as suas.

O amadorismo era a característica que melhor definia o rádio nessa fase. O veículo fascinava, empolgava multidões, mas ainda não era capaz de sustentar seus adeptos.

Na maioria dos depoimentos os pioneiros confessam que não se podia pensar em rádio como fonte de renda, pois o dinheiro era escasso e os cachês eram magros, quando os havia. O trabalho era mesmo por amor à arte e pela aventura mágica da comunicação, cujo poder nem em sonho se havia medido. E nem
tão imediatamente se poderia avaliar.

Ainda no início da década de 1940, a Rádio Guarujá procurou modernizar-se. Mudou-se dos altos da Confeitaria Chiquinho para a Praça XV de Novembro, um edifício de dois andares, onde hoje
funciona o  BESC Cobrança. No segundo andar instalou seu estúdio, junto a um pequeno auditório chamado de Presidente Roosevelt, inaugurado com a presença do interventor Nereu Ramos.

Começava uma nova fase da Rádio, com sintonia em 1420 Khz, onde a criatividade estava querendo se expressar, inspirada, sem dúvida, nas grandes emissoras do país. Desponta na ZYJ-7 Acy Cabral Teive como
locutor, narrador esportivo e mais tarde animador de auditório, dentre tantas funções que exerceu. As ondas radiofônicas se voltam também para o nome de Mozart Régis, o Pituca, uma figura pequenininha que de engraxate trilhou rumo ao estrelato como  contra-regra, apresentador, ator e humorista.

Nessa época, a Guarujá adquiriu um novo transmissor de 250 watts, de marca Bayton, comprado em São Paulo. Com ele tornaram-se possíveis as transmissões de futebol, os eventos religiosos irradiados da Catedral Metropolitana e quaisquer outras transmissões do Teatro Álvaro de Carvalho. Levava-se o amplificador para o local e efetuava-se a transmissão através da Companhia Telefônica Catarinense.

As dificuldades eram imensas, pois os equipamentos pesavam muito, já que sua construção era à base de válvulas, esclarece Lange Júnior. Além disso, as linhas telefônicas eram precárias, provocando ruídos e zumbidos na rede. Havia ainda o problema da dependência de energia elétrica, que variava muito, era bastante deficiente. Lange comenta que: “A rede deveria ter uns 200 watts, nós tínhamos muitas vezes 130, 140 watts, o equipamento para 220 e então era necessária a colocação de transformador. De vez em quando havia queda na rede e quando ela voltava, vinha com 220 watts. Lá ia embora o equipamento. Mesmo assim, fazíamos boas transmissões e o público recebia muito bem”.

Em 1946, a Rádio Guarujá passa para as mãos de Aderbal Ramos da Silva, então Governador do
Estado. A família Ramos, ligada ao Partido Social Democrático (PSD), vislumbra na emissora um cabo eleitoral até então não explorado e nem conhecido. Com os Ramos, a Guarujá muda de endereço. A ZYJ-7 instala-se em 1949 no prédio do Clube Martinelli, situado na rua João Pinto. Ali existia um auditório com 300 poltronas, além de estúdios para gravação, radioteatro e comerciais. 

Deflagrava-se o período de glamour da mais antiga estação de radiodifusão da capital, agora com ondas médias,  ondas curtas e frequência modulada.

Fontes consultadas:

1. MACHADO, Aldonei. Dissertação de Mestrado em História. Florianópolis, UFSC, 1999.
2. Depoimento de Walter Lange Junior em 1982.

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