Gustavo Mota deixa a Rádio Guaíba

Foto Vozes do Rádio. Famecos

Principal repórter político do rádio do Rio Grande do Sul ao longo de três décadas, o jornalista Gustavo Mota está deixando neste março de 2010 a Rádio Guaíba, emissora onde trabalhava há 31 anos. Lá, Gustavo era um dos poucos que estava desde os tempos de Breno Caldas, o empresário que assolado por dívidas vendou um dos maiores conglomerados de comunicação do Sul do país, em 1986, para Renato Ribeiro, até então ligado à produção agrícola. A saída de Gustavo deixa ainda mais dúvidas sobre o futuro da Guaíba, atualmente controlada pelo Grupo Record, que, há meses, optou, sem muito sucesso, por uma programação entre o jornalismo e o popular em uma rádio conhecida até então por uma forma tão própria de atuação, o Estilo Guaíba, presente por anos na música, no noticiário e na cobertura esportiva. De fato, com sede em São Paulo e ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, a Record, de sucesso crescente em televisão, não disse a que veio em rádio no Rio Grande do Sul.

A saída de Gustavo é mais uma perda, aparentemente não compreendida no troca-troca constante de dirigentes da emissora ao longo destes últimos anos. Soma-se à perda de Flávio Alcaraz Gomes e, ao mais recente, péssimo aproveitamento dado a Fernando Veronezi, histórico programador musical da Guaíba FM que sequer foi ouvido a respeito da alteração na linha musical da emissora.

Para quem conhece e para quem não conhece o trabalho de Gustavo Mota, o que dizer, então, deste repórter que, seja na Assembleia Legislativa ou no Palácio Piratini, seus ambientes mais habituais, transitava com igual desenvoltura? O que dizer do repórter que não apenas ia atrás da notícia, mas – pela confiança de secretários de governo, deputados, vereadores, dirigentes partidários… – recebia, com muita freqüência, o fato em primeira mão? Conheci o Gustavo quando eu, como foca, um dos tantos estudantes que vão ingressando na profissão, tentava aprender alguma coisa sobre reportagem.

Era um momento de indecisão nas empresas sob controle da família Caldas Júnior. A estação de TV passava por uma espécie de arrendamento para terceiros. A em ondas médias, por decisão judicial, estava sob controle dos funcionários após meses de salários atrasados. Gustavo dividia-se entre a rádio e a TV. No canal 2, saí com ele para que me passasse as manhas da reportagem. Naquela tarde lá de 1986, aprendi uma lição das que aula nenhuma de universidade tinha chegado perto de ensinar. Entrevistei não sei quem sob o olhar do Gustavo e do velho Chico, figura simpaticíssima e cinegrafista dos que tinham iniciado com a primeira estação de TV do Rio Grande do Sul, a Piratini. Respirei aliviado após a série de perguntas, feitas com o cuidado de não gaguejar. O Gustavo, meio rindo, me disse:

– Tá muito bom…

E frente a um meio sorriso meu, tascou:

–  … mas, na próxima, presta mais atenção nas respostas do que nas perguntas. Ah, e fica tranqüilo, daqui a uns dois, três anos, fazendo isto todo dia, vais te dar conta que, enfim, começaste a entender de verdade o que o entrevistado está dizendo.

Dois, três anos depois, já na Rádio Gaúcha, me dei conta um dia da verdade inabalável desta lição. Há anos, repito a história a cada semestre para meus alunos quando o assunto é reportagem e entrevista. Nos tempos da Gaúcha, vez ou outra, eu acabava escalado para a Assembleia Legislativa e era fogo competir com o Gustavo.

Lembrei de tudo isto ao ler a mensagem postada por ele em seu blog:

“Hoje ao redigir de próprio punho minha demissão, encerrei uma historia de 31 anos na Rádio e TV Guaíba. Dói na alma. E como… E a gente chora muito. Foi o que fiz  subindo a ladeira para chegar na Assembleia e ao lembrar que comecei aqui quando o meu filho mais velho tinha acabado de nascer e estou encerrando a história bonita, que acho que construí na casa, com o nascimento da minha netinha, que está com três meses de idade. O tempo não pára. Encerro um ciclo e começo outro. Tenho muito ainda a contribuir no jornalismo gaúcho. Hoje tenho mais experiência e, modéstia à parte, reconhecimento profissional e público para continuar a fazer o que eu gosto com muito mais qualidade: o jornalismo que fez da ‘velha Guaíba’ a melhor rádio deste estado e do país. O jornalismo que aprendi a fazer aqui e que, tenho certeza, há espaço pra ele no Rio Grande. É em busca deste sonho que eu vou. Do jornalismo de informação e formador de opinião. Do jornalismo que respeita a história, a vontade, o gosto e as coisas do povo gaúcho. O jornalismo  do respeito a  diferença, aberto a todas as cores e ideologias. O jornalismo do debate e da polêmica para a construção de uma sociedade melhor. Pra quem fica, já estou com saudades e desejo sorte e muita luta. Tenham certeza que foram 31 anos de muito profissionalismo e acima de tudo muita paixão, dedicação e entrega… NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO. CRIAR É PRECISO. TORNAR A VIDA GRANDE É PRECISO. Qualquer dia destes nos encontramos no meu BLOG gustavomota.com.br e em outras ondas de rádio…”

Pois é, limito-me a observar, então, que só quem não entende mesmo de rádio, não compreende o papel histórico da Rádio Guaíba e seu potencial para disputar a liderança no segmento de jornalismo é que não sentirá, lá pelos 720 kHz do dial, falta do Gustavo e daquela paradinha, característica sua antes de dar o próprio nome nas assinaturas de suas reportagens. E aí, vai ter de migrar para os 640 kHz da Band AM, nova casa do jornalista desde o dia seguinte à sua demissão.

2 respostas
  1. hugo says:

    Sobrou o mendelski, puxando o saco dos bispos com aquela musiquinha ridicula ao fundo… tá brabo

  2. robison batista says:

    Independente do que acontessa sempre serei GUAIBA a radio grande do sul, não ouço o Pedruca denardim e o Marco pereirinha que paressem ter uma mandioca atravessada na guala!!!!!! dale guaiba

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