Heróis e mitos

Porque abreviar aquilo que se diz querer tanto? Porque a vida não pode ser curtida com intensidade, sem se exaurir? Porque morrer de overdose e acabar com o amanhã, abreviando o próprio tempo, que já é tão pouco?
Todas essas questões podem remeter à obra ou vida de artistas e revolucionários, lembrando que todo artista é um pouco revolucionário e, como tal, pode ser veículo de conscientização ou instrumento de alienação.
Graças a esse poder, que alterna momentos de pedra e vidraça – ainda mais pela constante exposição pública, primeiro desejada, depois criticada, por excesso ou falta -, muitos artistas acabam se tornando ídolos, heróis de causas que às vezes nem sabem explicar, que acabam consumindo ou consumidos por sonhos inatingíveis, que quase sempre se transformam em pesadelos pessoais e coletivos.

Não quero heróis ou mitos que morram de overdose ou por “arrombarem portas” que poderiam ter sido abertas com um simples girar de maçaneta ou com o auxílio de uma chave.
Não quero, sobretudo, heróis, mitos ou mártires que morram jovens, desprezando aquilo que afirmam mais amar: a vida!
Não quero quem morra por uma causa, mas que viva e celebre a vida por ela!
Posso admirar suas obras e lamentar que poderiam ter sido maiores e melhores, mas não me conformo com esse abandono da vida, que nos priva de sua arte.

Sei que é uma forma de egoísmo querer ter quem a gente admira sempre “por perto”. Queremos mais um “hit”, mais um filme, mais um poema ou, simplesmente, saber que ele ainda está lá, como se ele fosse uma certeza de que não envelhecemos; de que enquanto eles estiverem vivos ainda seremos jovens.
O ideal é que fossemos nossos próprios heróis e mitos, sem perder a noção da realidade. Que tivéssemos sonhos e metas, pessoais e coletivos, sem ficarmos fascinados com isso, sem nos tornarmos versões modernas do mito de Narciso ou “paradigmas” da humanidade; que a cada sonho realizado ou meta alcançada, buscássemos outros; e que até as frustrações fossem fonte de inspiração para “dar a volta por cima”, “cair na real”, gritar um “dane-se!”, ou equivalentes menos nobres, e “partir para outra”, clamando, mesmo que em silêncio: “Eu sou mais eu!”.

Ídolos e mitos “infalíveis” e “insofismáveis” escravizam! Ídolos e mitos que fraquejam – “colossos de rodes”, “gigantes de pés-de-barro” -, também! Só que de uma forma talvez mais perversa, embora inconsciente.
Nos dois casos, seus seguidores podem seguir suas ordens ou as dadas em nome deles, mesmo sem que eles falem ou jamais tenham dito. Ordens que podem ser: matar ou morrer!
Não gosto muito de citações, mas a música “Cordilheiras” (http://www.youtube.com/watch?v=2kxyq3rAqqU), de Paulo César Pinheiro e Sueli Costa, pura antítese poético-musical, tem um frase que considero emblemática: “Eu quero ser da legião dos grandes mitos, transformando a juventude num exército de aflitos”.

Assim, quando as pessoas não sabem separar as coisas – ainda mais quando jovens -, mitos, heróis e mártires, de tolas ou nobres batalhas, podem destruir o amor-próprio e alienar a esperança: doutrinação que leva ao fanatismo, à apatia, à depressão, ao esquecimento de que a maior de todas as lutas é dar sentido e valor à própria vida.
A arte pode ser um meio de superar o marasmo ou a opressão: uma forma de superação, libertação e evolução! Jamais pode ser expressão que aprisiona, condena e mata!
Transformar um artista em mito, herói ou mártir por ingenuidade, desespero ou interesse econômico pode, quando ele também aceita essa condição, engendrar um processo mutuamente destrutivo, que pode levar a consequências imprevisíveis…

Pensando bem – considerando exemplos de todos os tempos -, elas até que são bem previsíveis.
Precisamos aprender a sonhar nossos próprios sonhos, em vez pegarmos carona no trem desgovernado de outros. Precisamos ser condutores de nossas vidas, responsáveis por nossas decisões e atos, e não meros passageiros das naus sem rumo ou caminhos de mão única de heróis, mitos e mártires, fabricados ou não.
Precisamos, por princípio, aprender a amar, não pela incerteza do amanhã, mas pela inesgotável necessidade e vontade de amar cada vez mais.
Amor sem desespero! Amor pela vida!

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Por Adilson Luiz

Palestrante, compositor e escritor, autor de Sobre Almas e Pilhas (2005) e Dest’Arte (2009). Articulista e cronista, escreve em vários meios de comunicação no país. É Mestre em Educação, Engenheiro Civil, Professor Universitário e Conferente de Carga e Descarga no Porto de Santos/SP. Mantém o site algbr.hpg.com.br
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