Historiadora fala aos Caros Ouvintes

Lange e Severo conversaram na sede da antiga Confeitaria Chiquinho, onde começou a Rádio Guarujá em 1943. Revivem a história do Miramar e o que o seu desaparecimento representa para o empobrecimento da cultura da cidade.

Antunes – Pode-se conferir ao Trapiche Miramar o status de “veículo de comunicação”?

Lange – Eu concordo que não poderia ser mais adequado em razão das funções que agasalhou durante o período de sua existência.

Antunes – Mesmo depois de “morto”?

Lange – Morto? Apesar de demolido e “aterrado” ele continua cumprindo tal atividade, ou seja, de “veículo de comunicação” e também de reflexão. Nestes últimos trinta anos alguns projetos de “re-construção” foram pensados e requisitados, o que indica que ele se conserva no imaginário da cidade. Recentemente, um Memorial ao Miramar foi erguido na Praça Fernando Machado, o que indica que ele ainda não “descansou”. Parece pairar, como disse o jornalista Flávio José Cardozo numa matéria para a Revista A verdade de 1983, um certo “sentimento de culpa pela violência que um dia se perpetrou contra criatura tão inocente”. As razões para a demolição continuam indigestas para alguns grupos da população. Das muitas formas de reivindicações e críticas em relação à destruição do velho Trapiche que surgiram nestes anos, uma proposta foi pensada e conduzida com afinco em 1988, liderada pelo então presidente do IPUF, Francisco José Pereira, com o apoio do prefeito Edison Andrino e a valiosa contribuição de Aldírio Simões, Zininho e Nezinho Espíndola. O empreendimento “revivendo o Miramar”, criado pelo Decreto Municipal 131/88, previa a eleição por meio de concurso público de um projeto que buscasse “recuperar” uma das mais importantes arquiteturas da cidade, seguindo uma outra lógica, dentro de um contexto paisagístico atual, servindo para as necessidades sociais modernas. Na verdade esta questão foi polêmica, porque alguns defendiam a reprodução precisa do velho Trapiche. Mas mesmo que o fizessem, as experiências contidas no antigo espaço não seriam recuperadas. Miramar, só houve um. Mas as idéias e tentativas de “re-construção” que surgiram foram positivas, no sentido de incitar o debate sobre as transformações incutidas no espaço urbano, a participação da sociedade neste processo, como também sobre o que deve ou não ser considerado “patrimônio” para uma cidade.

Antunes – Quem eram os integrantes dessa comissão?

Lange – O projeto de 1988 tinha como integrantes da comissão julgadora: Francisco José Pereira, Isnard Azevedo, Aldo João Nunes, Saul Oliveira, Dimas Ricardo Rosa, José Gomes Neto, Theobaldo Costa Jamundá, Almir Passos, Hamilton Alves, Hamilton Ferrari, Gerson Bortoluzzi, Onésimo A. Espíndola, Dalmo Vieira Filho, Aldírio Simões, Cláudio Alvim Barbosa e Miriam dos Santos Melim. O projeto vencedor foi criado pela “Terra Arquitetura” e propunha a construção do “novo Miramar” com uma combinação de técnicas modernas, ou seja, com material e feições contemporâneas. A edificação avançaria 60 metros sobre o mar na orla do Aterro da Baía Sul. O projeto foi entregue para o prefeito Esperidião Amin Helou Filho, que assumiu em 1989, mas por razões desconhecidas para mim, ele não vingou.

Antunes – E quais eram os argumentos de quem defendia a manutenção do Miramar e de quem o considerava uma coisa do passado?

Lange – Bem, em 1974, alguns jornalistas tomaram posição de defesa do Miramar. Um deles foi Beto Stodieck que se manifestava explicitamente contra a destruição do velho Trapiche. Em sua coluna do Jornal O Estado de 22 de setembro de 1974 fez menção ao parecer do então Diretor do Patrimônio Histórico do Município, o Sr Wolney Millis que dizia: “não vejo história no Miramar”. Este foi um argumento recorrente daqueles que viam no Miramar um “monumento ao atraso”. Contudo, nestes trinta anos, muitas matérias relembrando os momentos aprazíveis que ele proporcionou para algumas gerações, como também levantando questionamentos sobre a “real” necessidade de demoli-lo naquele momento (1974), esporadicamente vieram à tona. Normalmente, elaboradas pelos inconformados freqüentadores ou por pessoas preocupadas com o arranque desenfreado da modernização que alterou a configuração espacial da cidade, que modificou a paisagem urbana com tamanha avidez que a população parece ainda não ter se refeito do susto. Coloco desta forma por considerar que o “famigerado” progresso, ou o desenvolvimento, o processo de crescimento da cidade, que seja, não precisa vir acompanhado de uma total descaracterização do ambiente urbano. Este processo não precisa, necessariamente, ser incompatível com a conservação de bens e edificações da cidade antiga. Sem esquecer que, o “progresso” não se instala por si só, ele é executado por “seres humanos”, então não é o processo de expansão o responsável pela “metamorfose” dos valores e do habitat humano, mas quem faz uso destes preceitos sem adaptá-los a realidade corrente de uma sociedade e sua espacialidade. E o que é primordial, sem consultar tal sociedade.

Antunes – Então, o que provocou o “abate” do Miramar?

Lange – O que há, ou pelo menos o que houve na década de 1970, quando da demolição do Miramar, como de tantas outras edificações na cidade de Florianópolis, foi a ansiedade, a aflição, a agonia de alcançar patamares de outras capitais brasileiras sem um devido ordenamento. As regras que pautavam o desenvolvimentismo criaram em Florianópolis um percurso destituído de uma reflexão profunda sobre as conseqüências de tais mudanças, principalmente para o cotidiano dos moradores da cidade, pois muitos se sentem lesados até hoje. A população sentiu diretamente em suas tradições e cultura as seqüelas de tais ações, pois a cidade torna-se extensão do ser humano (como seu lar) e ambos passam por um processo de construção mútua.

Antunes – Houve precipitação, desídia, irresponsabilidade?

Lange – Ao intervir de forma ríspida sobre este espaço, por certo se causa um desequilíbrio, já que se perdem referenciais identitários que ajudam na consolidação do sujeito. Para muitos, este rearranjo do ambiente urbano lhes retira o arrimo, a proteção, e com isto sentem-se desfalecendo, esmorecendo e transfigurando-se juntamente com a cidade, somente em ritmos bastante diferenciados.

Antunes – Faltou carinho, cuidado, delicadeza?

Lange – Para os idealizadores desta proposta de “re-construção” do Miramar em 1988, sua preservação poderia ter sido avaliada carinhosamente, pois sua conservação não abalaria a solução viária pretendida com a implantação do Aterro da Baía Sul. Mas os engenheiros responsáveis pela obra defendiam com convicção a necessidade de demolição do Miramar e do Forte Santa Bárbara. Como mostra a matéria do jornal O Estado de 19 de setembro de 1974:

Acervo: Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina.


Antunes
– Essa atitude do governo do Estado foi contundente.

Lange – A matéria acima discorre sobre os protestos dos florianopolitanos que desejavam ver “conservados aspectos saudosistas da cidade”.

Antunes – E esse “saudosismo” era algo indesejável já naquela época?

Lange – Eu entendo que ao se referir aos “aspectos saudosistas da cidade” o engenheiro o faz de forma pejorativa, como se não fossem dignos de apreciação, de zelo, de consideração. Sem entrar mais no mérito do “saudosismo”, que para mim é um atenuante, um eufemismo usado para se corromper as origens seculares da cidade, o Poder Público que não queria estagnar o almejado “progresso”, certamente poderia discipliná-lo, de tal forma que não se “desnaturalizasse” um passado do qual muitos dos seus habitantes se orgulhavam e se identificavam.

Antunes – O que não parece fácil.

Lange – Conscientização da realidade política, social e cultural em que estamos inseridos. Perceber como atos como este de demolição do Trapiche Miramar influenciou o cotidiano de uma sociedade, senão não estaríamos debatendo sobre este assunto trinta anos depois. Precisamos refletir sobre atitudes como esta, de inserções no tecido urbano que precisam ser elaboradas, pensadas e levadas para a comunidade fundamentar seu parecer, pois ela é a maior interessada. Mas a questão que gostaria de salientar nesta matéria é a participação de representantes de determinados grupos da população, em 1974, interessados no debate sobre o acirrado crescimento da cidade, bem como da conservação de edificações, bens considerados representativos para a sociedade. Alguns jornalistas se empenharam, apesar do cerceamento causado pelo regime militar, como Beto Stodieck, que dava lá diariamente suas alfinetadas, Mauro Amorim, que lutou para transformar o Miramar no primeiro Teatro de Arena do Estado de Santa Catarina, o Teatro Trapiche. O grupo do TECA (Teatro Estudantil Catarinense) representado pelo seu diretor e ator teatral Sérgio Lino que atuavam no Teatro Trapiche. Não posso deixar de falar do radialista Adolfo Zigelli, que no dia seguinte a demolição (25-10-1974) faz uma locução brilhante no Programa Vanguarda lamentando a perda daquele que chamou de “último símbolo da ilha”. O poeta Zininho registrou sua insatisfação escrevendo uma carta para o prefeito, que posteriormente virou samba. O cantor Ademir Rosa, que na época era ator do Grupo Teatral do Estreito e estudante da UFSC, as diretoras teatrais Carmen Fossari e Vera Collaço, o museólogo Gelci José Coelho, todos atores naquele momento e estudantes de história da UFSC que se manifestaram publicamente.

Antunes – Pode-se dizer, então que houve focos de manifestação organizada?

Lange – O sentimento de repulsa tomou a muitos, principalmente aqueles que freqüentaram o Miramar e que tinham parte de suas vidas cravejadas naquelas paredes. Não tenho idéia se, em razão do período ditatorial pelo qual passava o País, havia possibilidades de grandes manifestações. Mas as brechas que se apresentavam foram utilizadas, tanto que nos sobraram vestígios, rastros de tais sentimentos de desprezo e tentativas de modificar o quadro que se configurava.
Pois é meu caro Antunes, não sei se respondi aos seus questionamentos, mas de forma “enxuta”, como diz minha orientadora, em razão da construção de um memorial ao Miramar tão recentemente, considero que ele continua sendo um “veículo de comunicação”. E também que são os “humanos” que se “valem dos valores assassinos” para usufruto e benefício de alguns. Sobre “que nada é permanente, tudo se transforma”, acredito que mesmo um bem tombado como o Palácio Cruz e Sousa sofre modificações de nuances diariamente, porque ele está num dialogo permanente com o restante da cidade, digo, com suas edificações recentes, modernas e antigas, como também com seus moradores e  turistas. Este diálogo se reconfigura constantemente, então temos sempre algo novo, considerando que esta representação depende da visão e da perspectiva de leitura de cada sujeito. Ou seja, temos uma cidade nova a cada dia.

Temas relacionados (Audioteca)

>> Miramar. A morte do Miramar foi mais uma punhalada que em nome do progresso, a Prefeitura deu na cultura e na história de Florianópolis. Adolfo Zigelli registrou o assassinato nesta nota de encerramento do programa Vanguarda, na Rádio Diário da Manhã em 1974.

>> Miramar. Samba. Letra e música de Cláudio Alvim Barbosa (Zininho). Canta Paulinho Carioca. CD “Zininho – Jamais Algum Poeta Teve Tanto pra Cantar”. Produção e realização de Aldírio Simões. Apresentação de Antunes Severo. Gravado ao vivo pelo Estúdio 156, em 28 de novembro de 1994, no Teatro Álvaro de Carvalho, na Ilha de Santa Catarina.

>> Miramar. Entrevista. Antunes Severo conversa com a historiadora Marilange Nonnenmacher. Gravação realizada na Livraria Catarinense da rua Felipe Schmidt, prédio da antiga Confeitaria Chiquinho onde funcionou a Rádio Guarujá, primeira emissora de rádio AM de Florianópolis.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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