Histórias do Rádio: Manduca Toureiro

A realização de programas de rádio em auditórios, geralmente cinemas, era moda nos ano cinqüenta do século XX.

A Rádio Nacional do Rio de Janeiro detinha o título de campeã desses programas (César de Alencar, Paulo Gracindo, Manoel Barcelos etc.), todos estimulados por uma platéia frenética, onde alguns mais exaltados eram classificados como “macacas de auditório”. Para atender essa demanda, a Nacional possuía um palco-auditório localizado nos altos do edifício onde funcionava a emissora.

Para evitar os “excessos” do público, havia uma proteção: um vidro separava  palco e espectadores. O requinte era tão grande, que o palco era assentado sobre molas especiais, protegidas por borracha, para evitar ruídos que pudessem perturbar as transmissões.

Em Blumenau, a Rádio Clube PRC-4 orgulhosamente mantinha um pequeno palco, com um piano, acoplado a um auditório com 80 poltronas.

Mas quando os programas tinham muito sucesso de público, eram feitos no Cine Busch, que comportava 800 pessoas na platéia e mais 400 no balcão.

No final dos anos 1950, por volta de 1958, ia ao ar nas sextas-feiras à noite o Big Show
C-4 e a principal atração era o cômico Manduca, uma espécie de Mazzaropi catarinense.

Manoel Alves Silveira, o Manduca, morava em Joinville e atuava na Rádio Difusora daquela cidade, onde apresentava programas sertanejos matinais.

Um dia por semana, nas sextas-feiras, vinha a Blumenau para apresentar-se no palco do Cine Busch.

Sua especialidade eram os “sketches” caipiras, que naqueles tempos faziam muito sucesso nos circos e parques de diversão (os parques tinham sempre um pequeno palco para essas apresentações).

A platéia do Cine Busch lotava tamanha era a empatia de Manduca com o público.

E como ajudantes no palco ele requisitava alguns funcionários da PRC-4. Alvacir, Chiquinho Nascimento, Nilton Simas iam para o palco “na marra”. Manduca dava a dica:

– Sai por aqui, me acena e diga alô. Depois deixa comigo…

Ou então:

– Entra capengando e diz que foi no futebol. Eu tenho a resposta.

A noite do toureiro

Naquela memorável noite, cinema lotado, programa no ar, a peça a ser apresentada era “Manduca Toureiro”.

O cômico havia trazido consigo uma cabeça de boi moldada em papelão, tipo papel-machê, com dois furos para permitir a visão, e dois grandes e reluzentes chifres. Esta “máscara” bovina era enfiada na cabeça daquele que iria representar o papel de touro.

Manduca escolheu Chiquinho Nascimento para ser o touro. Orientou que ele passasse por trás da tela, e que saísse pelo outro lado quando ele gritasse: “Hei touro!”. Então, deveria investir contra um pano vermelho que Manduca estaria balançando à sua frente.

Tudo combinado.

Chiquinho foi para os fundos do palco e começou a caminhar por trás da tela.

Silêncio total.

Manduca entra no palco e estende o pano vermelho. E então grita:

– Hei Touro!”

Aguarda um pouco e nada.

– “Hei Touro!”, de novo. Nada.

Nervoso, o cômico grita mais alto:

– “Entra touro!” Uma, duas, três vezes. “ENTRA touro”. E nada do touro entrar.

Alguém corre para trás da tela e se depara com o Chiquinho engatado nos fios que esticavam a tela. Os fios de amarração da tela haviam se enroscado nos chifres, imobilizando o touro.

Quando finalmente conseguiram soltá-lo, Manduca já havia inventado um monte de piadas para o público.

E quando, todo suado, apareceu o touro, Manduca improvisou de novo:

– Aí, hem? Estava com medo de me enfrentar! Pois agora você vai ver o que é bom.

O público ria, batia palmas, e não fazia idéia do drama vivido ali, bem em frente, nos bastidores do palco.

Histórias do rádio de antigamente!

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Por Carlos Braga Mueller

Radialista, jornalista e escritor. Iniciou fazendo locução e radiojornalismo na Rádio Clube de Blumenau. Também pioneiro na televisão, foi o primeiro apresentador de telejornalismo na TV Coligadas, atual RBS TV de Blumenau. Articulista, escreve sobre os meios de comunicação em SC no blog do Day e no site Caros Ouvintes.
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2 respostas
  1. Adalberto Day says:

    Braga Mueller
    Como sempre contando belas histórias do Rádio em Blumenau e região. Esssa Manduca Toreiro, eu naõ conhecia. Muito legal.
    Abraços Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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