Histórias engraçadas vividas no rádio e na TV…

Deputado estadual queria tirar ex-presidente da televisão; Alô como se sente? Deu zebra no programete do Urudonal; Apresentador “derruba” Esperidião Amin… E Operador novato ajoelha e reza na hora da Ave-Maria.

CORRIA o ano de 1978, Ferreira Netto* havia inaugurado seu programa de entrevistas na TV Record. Também no canal 7 de São Paulo o ex-presidente Jânio Quadros apresentava um programa quinzenal intitulado Diálogo Nacional.O programa de Ferreira era apresentado à zero hora, feito no formato que mais tarde ficou conhecido como talk-show, recebendo como convidados políticos, empresários e celebridades.
Numa noite, abrindo o programa, um deputado estadual (não vamos declinar seu nome) deveria falar sobre a crise que envolvia o plantio de batata no Estado de São Paulo. Deveria. O deputado saudou os telespectadores e em seguida pediu licença para fazer uma pergunta ao apresentador: “Por que a TV Record abre espaço de uma hora em sua programação, quinzenalmente, para Jânio Quadros, um louco que renunciou à presidência e infelicitou o nosso país?”

Desconsertado e já imaginando que poderia ser cortado pela direção da Record, que estava apostando tudo no programa de Jânio Quadros, Ferreira Netto deu a seguinte resposta ao deputado: “O senhor sabe da importância do IBOPE numa emissora de televisão? Pois a direção da TV Record planeja sua programação de acordo com os dados daquele instituto de pesquisa. O ex-presidente Jânio Quadros dá muito IBOPE, ao contrário do senhor, aqui em nosso programa: seu tempo já se esgotou. Boa noite” (e chamou intervalo comercial). Nunca mais a produção de Ferreira Netto chamou o tal deputado.

INÍCIO dos anos 50 fazia sucesso na Rádio Guairacá ** de Curitiba um programete com participação de ouvinte por telefone, patrocinado por Urudonal, remédio para os rins. Era atração das 19h45, minutos antes do horário nobre do rádio, das 20h00 às 22h00 na época. O programete, naquela noite, precedia um programa no qual se apresentaria Carlos Galhardo, um dos grandes cartazes de então. O som da emissora já distraía o grande público que lotava o auditório.

Airton Goulart (sobrinho do ator Paulo Goulart) cursava o último ano de medicina e fazia da locução um bico para poder sobreviver. Nas poucas horas de folga, vivia um caso de amor com a enfermeira Santinha, do Hospital São Vicente. Ele era o apresentador de Tome Urudonal e Viva Contente, que, diariamente dava 50 cruzeiros de prêmio para o ouvinte que atendesse ao telefone. Como ele podia escolher o número a ser discado, ficava fácil fazer uma “armação” a fim de que o prêmio acumulasse.

No dia em que o prêmio estava acumulado em 500 reais, Airton liga para o São Vicente. Santinha (que já sabia da maracutaia) não estava e então ele deixou um recado com a recepcionista: “Diga pra Santinha que hoje à noite ela deve estar de prontidão para atender ao telefone desde as sete e meia da noite, não esqueça, hein… ela já sabe do que se trata.” O recado parece que não foi dado à sua amante.

Entra no ar o programete Tome Urudonal e Viva Contente. Airton Goulart disca para um número, nada, disca para outro número, nada – números os quais ele sabia de antemão que ninguém atenderia. Finalmente liga o número do Hospital São Vicente e uma voz feminina atende: “Alô…” e ele mais do que depressa responde: “Alô, como se sente? Rim doente?” A ouvinte, para ganhar o prêmio, teria que responder: “Tomo Urudonal e vivo contente”.

Mas a voz feminina, em vez disso, retrucou: “Estou conhecendo esta voz… não é do Airton?…” e Airton, todo incomodado, responde: “exatamente senhorita, Airton Goulart, da Rádio Guairacá…” Ele então refaz a pergunta, louco para que o prêmio saísse: “Alô, como se sente? Rim doente?” E a moça, que não era sua Santinha, diz, alto e bom som: “É você mesmo seu sem-vergonha, a Santinha tá p… da vida porque você não aparece aqui faz mais de 15 dias…”.

O público do auditório caiu na risada. O operador assustado cortou a ligação telefônica e o microfone de Airton Goulart, que havia perdido a chance de dividir com Santinha as quinhentas pratas acumuladas. Ouvintes reclamaram por telefone.  O diretor da Rádio Guairacá lhe aplicou uma suspensão de três dias e, no dia seguinte, Urudonal cancelou o patrocínio. Isso é coisa de um tempo do rádio meio amador, responsável por vários casos engraçados como esse.

Noite de estréia de um programa produzido pelo jornal Gazeta Mercantil ***, em 1983, e apresentado na TV Gazeta de São Paulo pelo jornalista Alexandre Machado. O então deputado federal Esperidião Amin foi envolvido em situação muito desagradável quando teve seu nome confundido com o de um ex-ditador da África.

Saia justa ao vivo e em cores. Depois de ler as fichas dos dois convidados da noite, o apresentador anunciou com ênfase: “À minha direita, André Franco Montoro, governador do Estado de São Paulo. E à minha esquerda, Esperidião Amin Dada, deputado federal por Santa Catarina…

A gafe causou uma sessão de risos no estúdio, obrigando a entrada de comerciais fora de hora. O simpático Esperidião Amin assimilou bem o mau jeito de ter seu nome ligado ao de Idi Amin Dada, o déspota general de Uganda, mas Alexandre Machado até hoje não se perdoa pela incrível falha.

Outra que ocorreu na Guairacá, também no início dos anos 50. Murilo Lupion de Quadros, sobrinho de Moisés Lupion, governador do Paraná (1947-1951) e líder do grupo empresarial que controlava a emissora, era uma pessoa muito exigente na gerência da rádio e, por isso mesmo, bastante temido pelos seus funcionários.

O operador de som, Afonso Riesemberg, recém-admitido para trabalhar na emissora, foi levado à sala do gerente Murilo, que lhe passou algumas orientações sobre o trabalho para o qual estava sendo contratado. Sua estréia seria exatamente num dos programas mais sérios, a Hora da Ave-Maria, com Lourival Portela Natel, todos os dias, pontualmente às 18h00.

Murilo recomendou a Afonso que tivesse muita atenção ao operar esse programa e que tudo que seu apresentador ordenasse ele fizesse imediatamente. No dia seguinte, ao cair da tarde, o novato operador estava tenso atuando num console RCA Victor importado. No ar, a música Ave-Maria, de Gounod. Portela Natel pede a abertura do microfone e faz sinal para que o BG (background) da música fosse mais baixo no tempo em que ele fazia o sinal da cruz e começava a rezar “Ave-Maria, cheia de graça…”

Afonso não entendeu a gesticulação de Natel e deixou o BG no mesmo volume. Portela Natel, desesperado com a altura do fundo musical, faz um veemente apelo com as mãos sinalizando para abaixar mais o BG. Afonso entendeu que deveria ajoelhar…   Imediatamente abaixou-se e de joelhos começou a rezar “Ave Maria cheia de graça, O Senhor é convosco. Bendita sois Vós entre as mulheres…” Enquanto isso, o sizudo Natel, ao ver a curiosa cena, teve que conter o riso. Felizmente, o chefe dos operadores estava na técnica e assumiu o controle da rádio.

* Joaquim Antônio Ferreira Netto – 1938-2002 – iniciou na TV Tupi, passou pela Excelsior (ambas extintas), TV Record, TVS (SBT), Rede Bandeirantes, TV Gazeta, TV Mulher (extinta), TV Manchete e CNT.

Em 1982, mediou, na TVS, o primeiro debate político pós-revolução de 64, entre os candidatos ao governo do Estado de São Paulo, Franco Montoro e Reynaldo de Barros. Em 1990, candidatou-se ao Senado Federal e perdeu para Eduardo Suplicy.

Durante sua carreira, recebeu os seguintes prêmios: “Roquette-Pinto”, “Governador do Estado”, “Troféu Imprensa”, “APCA” (“Associação Paulista dos Críticos de Arte”), “Troféu Bandeirantes” e “Homem de Visão”.

** Guairacá, terceira emissora de rádio de Curitiba, canal 560 kilociclos (depois kilohertz), inicialmente ligada ao grupo de Moisés Lupion, depois, em 1968, foi transferida ao grupo de Paulo Pimentel (outro ex-governador do Paraná). Em 1972, mudou de nome para Rádio Iguaçu. E, em 1977, dia 27 de maio, o presidente da República Ernesto Geisel considerou perempta a concessão outorgada e determinou providências para a interrupção imediata de suas transmissões. De todas as emissoras cassadas pelo golpe  de 64, a Iguaçu talvez tenha sido a única rádio que não teve seu canal restabelecido.

*** O jornal Gazeta Mercantil, nos anos 80, mantinha um departamento de rádio e TV, o qual produziu um programete de economia que revelou Lilian Wite Fibe, o programa Crítica e Auto-Crítica com Roberto Muller, ambos na Rede Bandeirantes, e o citado programa de entrevistas, Gazeta Entrevista, na TV Gazeta, época em que a Editora Abril mantinha 2 horas de programação jornalística à noite naquela estação.
Retificando e reafirmando
No meu comentário anterior, Nós somos os trabalhadores do rádio…, postado em 7/11, no tópico referente a Ary Barroso, não citei que o autor de Aquarela do Brasil também foi apresentador de programas de calouros no rádio. Isso, porém, não modifica minha opinião de que existem outros nomes mais representativos para serem patronos do Dia do Radialista. Como, por exemplo, César Ladeira, considerado o primeiro grande locutor do Brasil.

CÉSAR LADEIRA – 1910-1969
César Ladeira, César Rocha Brito Lacerda, nasceu em Campinas, interior de São Paulo. Começou sua carreira artística em 1931 na Rádio Record de São Paulo. Durante a Revolução Constitucionalista de 32, por ler os comunicados do comando do movimento constitucionalista ao microfone da Record, ficou conhecido como “o locutor da Revolução”.
Depois, transferiu-se para o Rio de Janeiro, contratado pela Rádio Mayrink Veiga. A seguir, foi trabalhar na Rádio Nacional, onde ficou por muitos anos, na qual se destacou apresentando diariamente A Crônica da Cidade, de Genolino Amado (gravação postada aqui) e onde recebeu a denominação de “o locutor brasileiro de todos os tempos”, consolidando seu nome entre as maiores estrelas do rádio brasileiro. Foi ele quem batizou Francisco Alves de “Rei da Voz” e Carmen Miranda de “A Pequena Notável”.

HÉLIO RIBEIRO
Ainda sobre meu artigo acima citado: a mensagem Eu sou o Rádio, de autoria de Hélio Ribeiro, é peça utilizada em aulas de muitos cursos de comunicação do país. O publicitário Washington Olivetto assim descreveu a qualidade e versatilidade desse ilustrado e saudoso radialista: “Ele aperfeiçoou o que o Marconi inventou e se não houvesse nascido gente teria nascido rádio”. Hoje, aqui, a versão de “Reflections of my life”, com The Marmalades (gravação postada aqui), um dos melhores momentos do programa O Poder da Mensagem, em sua passagem pela Rádio Bandeirantes.

2 respostas
  1. Jair Brito says:

    Cometi um lapso no tópico referente à Airton Goulart: ele era tio do ator Paulo Goulart. A correção acima foi feita por Mara que é filha do saudoso radialista paranaense registrado com o sobrenome de Miessa.

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