Homens de fé

Otávio mantém um bom movimento em sua barbearia por vários motivos; simpatia, local aconchegante, perito com tesouras, máquinas e navalha, além de uma clientela qualificada, onde os bate-papos até podem se repetir e ainda assim começam e terminam de modo diferente.

Dificilmente os amigos concordam, mas raramente brigam; nem lembram quando fora a última discussão acalorada. O barbeiro sem querer acabou dando a pauta do dia.

Era uma manhã de quinta-feira e o Felisberto, dono do bar ali perto, reclamou que vários clientes têm demorado em pagar suas contas, seus fiados. O Juvenal perguntou ao barbeiro se em seu salão tem havido pedidos de fiado, Otávio, meio sem jeito, respondeu:

– Sim. Na verdade são poucos – Juvenal perguntou como alguém pode ter a cara de pau de não pagar o barbeiro e Otávio contou o que não gostaria de falar:

– Lembram do taxista, aquele senhor grisalho e de bigode? – A turma respondeu que sim – então, ele voltou depois de uns 6 meses e perguntou se eu lembrava dele. Disse que, não; então ele me refrescou a memória e lembrei. Ele pediu desculpas pelo atraso. Cortou o cabelo e disse que iria pagar o café no bar do Felisberto e já voltaria para pagar os dois cortes, mas sumiu de novo.

Felisberto, homem durão, do tipo que não deixa que outros levem vantagem em cima dele, criticou o barbeiro. Ele disse:

– Que trouxa que tu é hein, Otávio. Duas vezes. Tem que ficar esperto. Tem um aí, um servente de pedreiro que me pediu um cachorro-quente e uma Coca-Cola há dois dias. Se não pagar até amanhã eu vou atrás dele, e vou mesmo. Pra tolo eu não sirvo.

O barbeiro perguntou ao Felisberto:

– É o Ronaldo, um rapaz de barba?

– Esse mesmo – respondeu o durão do Felisberto e perguntou – Vai dizer que tu fez fiado pra ele também?

– Sim, fiz. Ele esteve aqui na sexta-feira passada, logo cedo. Disse que precisava cortar o cabelo e aparar a barba. Falou que iria até o banco, não lembro se na Caixa ou Banco do Brasil, aqui na Rua Leoberto Leal sacar seu dinheiro e na volta já me pagaria. Eu cortei o cabelo dele e aparei a barba. Isso foi por volta das 9:30h e estava muito quente. Perguntei se ele iria pegar o ônibus aqui na frente da barbearia e ele me falou que não tinha nem para o ônibus, que iria a pé. Então fiquei com pena e dei o dinheiro da passagem do ônibus. Ele agradeceu e disse que já voltaria para me pagar. Até agora, nada; faz 6 dias.

– Já era, Otávio. Nunca mais. Como é que tu consegue cair na conversa desses caras? Tem que ficar esperto. Poxa, além do taxista que te enrolou duas vezes o Ronaldo cortou o cabelo, aparou a barba e ainda ganhou o dinheiro do ônibus; ah, só tu mesmo. Eu vou dar uma dura nesse servente ainda hoje. Sei onde ele tá trabalhando, é aqui perto, vou lá ao meio-dia.

Sexta-feira pela manhã a turma estava em peso na barbearia. Seu Victor, Alberto, Antunes Carriel: que estava de férias da rádio, Juvenal, o dr. Araújo; até que chega o Felisberto. Todos já sabiam que o barbeiro havia sido passado para trás duas vezes pelo taxista e pelo servente de pedreiro, que além de cabelo e barba havia levado até o dinheiro do ônibus. A novidade seria o Felisberto; se ele não teria sido grosseiro ou até violento com o velhaco que ficou de visitar no dia anterior, como havia falado. Felisberto era conhecido como homem de sangue quente; na verdade ele mais dizia isso do que se notava na prática

O radialista, Antunes Carriel, disse em tom de locutor:

– Eis os homens de fé!

O barbeiro, curioso, perguntou ao Felisberto:

– Então, rapaz, falou com ele? Brigaram ou ele te pagou ontem à noite mesmo?

Felisberto pegou um pente do barbeiro, ajeitou os cabelos e disse:

– Eu fui lá na casa onde ele tá trabalhando. Chamei ele e disse que esperava o acerto de contas até à noite. Não é que lá pelas 20h ele foi ao bar mesmo. Me chamou no balcão e conversamos. Então ele pediu mais dois cachorros-quentes, duas cervejas, uma Coca-Cola e um maço de cigarro. E me garantiu que vai lá no bar hoje à noite pagar tudo. Que cara gente boa!

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