Ilmar Carvalho volta à ilha

O sonhador que alçou vôo destas plagas catarinas e se transformou num dos maiores ícones contemporâneas entre os críticos musicais brasileiros, e que vive no Rio de Janeiro, volta agora via Internet e se declara também radialista bi-insular com cidadania das ilhas de São Francisco e de Santa Catarina.

Ilmar CarvalhoIlmar foi um dos que fez “chover” em Florianópolis na década de 1950 com sua palavra abrilhante, seu gesto amigo, sua simpatia invulgar. Mais do que isso, era um ousado e criativo inovador. Por isso, foi fácil conviver com outro arrojado personagem que sonhava com o desenvolvimento do turismo em Florianópolis e chegou a criar, implantar e dirigir a primeira empresa de avião do estado: a TAC – Transportes Aéreos Catarinenses.

Falando para os Caros Ouvintes, platéia, com certeza saudosa de sua verve e inteligência, Ilmar relembra a trajetória percorrida naqueles tempos:

Em 1954, já morando pela segunda vez em São Francisco, eis que surgem na Babitonga, Luiz Fiúza Lima e Ciro Marques Nunes, me convidando a desenvolver no norte do estado as excelentes idéias do primeiro que dirigia a TAC. Incluía-se nesse pacote, a cobertura da Miss Santa Catarina. Fiúza falou, na ocasião, que logo me levaria para a capital como relações públicas e correspondente da TAC. Fiquei feliz e encantado! Caboclo nascido em Joinvile, próximo ao manguezal do rio Cachoeira, acontecer na capital?!

Dito e feito. Meses após, lá estava eu com a família, mala e cuia, cachorro e papagaio, assessorando o “homem”, desenvolvendo suas idéias e metendo nelas minha colher enferrujada. Como já te falei, em São Chico, tive um programa esportivo na Rádio montada pelo Chiquito Mascarenhas, que também foi para a ilha dirigir, em 55, 56, a então nascente e vigorosa RDM. Em 56 eis que surge você com sua voz de edredom, vindo dos pampas, e encantando ouvintes de Santa Catarina, do Brasil e do exterior. Daí começou nossa amizade e o aperto de mão, praticamente diário, nos corredores da RDM que eu atravessava para entregar ao Ciro minha crônica, igualmente diária, no “Retalhos da Vida”, de que você deve se lembrar.

Tal experiência no rádio, me deu uma visão completa do significado e da importância da radiofonia, notadamente num país continental como o nosso.

Meu caro Antunes Severo, se eu for falar e escrever sobre essa época tão feliz da minha vida, a minha “Radio Days”, vou entupir você. Então, acho melhor dizer como diria o Dr. Jackson: “vamos por partes”. E não esqueça de passar no Bar do Olinto e tomar “uma” com guaco ou erva-cidreira…

Escusado acentuar que a RDM, a Guarujá, a Anita e, mais tarde a Verdade, para mim tiveram um impacto até hoje, bem superior à “descoberta” da televisão em SC, sem desdoiro algum para a importância de tal veículo. Mas estamos falando do rádio!

Neste anúncio de ¼ de página o texto diz: “Em Florianópolis é assim. A ponte Hercílio Luz e os aviões da TAC-Cruzeiro, por exemplo, vêm a Florianópolis todos os dias (coisa que outros não fazem) nos melhores horários. Se você for curioso: a ponte tem 821 metros; liga a Ilha ao continente. A Tac-Cruzeiro liga a Ilha ao Brasil. Continue preferindo a Tac-Cruzeiro”.

O cidadão Luiz Fiúza Lima antevia já naquela época que o grande potencial do litoral catarinense residia na indústria do turismo. José Hamilton Martinelli, editor do livro “Propague – 25 anos de históiria da propaganda de Santa Catarina”, lançado em 1988, revive um pouco da história.

No capítulo “Nas asas do progresso”, Martinelli relata a importância da participação de Ilmar Carvalho no projeto, destacando: quando o jornalista Ilmar Carvalho deixou a Rádio Difusora de São Francisco para assumir a house agency da TAC, realizou uma pesquisa sobre anúncios nos jornais. “A Padaria Moritz oferecia pães frescos e a Modelar anunciava liquidação. Tudo muito rudimentar e sem ilustração” critica Ilmar.

Foi nesse ponto que começa a se revelar o espírito inovador de Ilmar. Contratou então dois nomes em evidência relata Martinelli: os artistas plásticos Hiedy de Assis Corrêa, ou simplesmente Hassis, e Domingos Fossari.

Os anúncios da TAC, além de slogans, textos mais criativos chamando a atenção para as belezas da ilha, incluíam atraentes ilustrações. O esforço promocional era apoiado por fortes campanhas de rádio, principal veículo de comunicação da época no Estado. Comerciais de rádio em espanhol divulgavam a empresa na Argentina, no Chile e no Peru. Martinelli ainda lembra “a TAC contratou até um locutor castelhano”. De fato, era o peruano Carlos Del Rio, também cantor.

Ilmar cuidava de todo aquele esforço como uma ação integrada: propaganda, relações públicas e eventos, todos falavam a mesma língua. A imagem da empresa era o grande foco, por isso as campanhas institucionais e o patrocínio de eventos culturais e esportivos. Vitrines itinerantes levavam textos e exposições fotográficas para outras cidades, mostrando os pontos turísticos, o artesanato, as praias e a culinária açoriana. Inclusive a rede hoteleira foi mobilizada para que a estrutura da cidade correspondesse a expectativa provocada pela divulgação.

A repercussão desse trabalho, mesmo depois do desaparecimento da empresa, se refletiu fortemente na comunicação do social da época. O governador Irineu Bornhausen, como relata Martinelli, criou a primeira assessoria de imprensa no serviço público de Santa Catarina. O governador seguinte, Celso Ramos, eleito em 1960, montou o maior gabinete de relações públicas da história do governo, sob o comando de Fúlvio Vieira com jornalistas do porte de Salim Miguel, Ilmar Carvalho e vários outros militantes nos principais veículos de comunicação local.

Estou  recebendo o “Caros Ouvintes” e no Boletim 23, de 7 deste, sou “convocado” meter minha colher  enferrujada na excelente coluna de vocês. O trabalho de trazer viva a memória do rádio, empreendida pelos amigos contemporâneos da fase esplêndida por que a radiofonia passou no país e na ilha, eu venho acompanhando e cheguei daqui a falar com o Peteleco (Airton Oliveira), by phone, sobre um contato com os amigos, de quem tenho saudades, especialmente da Diário da Manhã, ao tempo em que redigia uma crônica diária lida pelo saudoso Ciro  Marques Nunes. O registro  chamava-se Retalhos da Vida, e seu início foi provavelmente em 56, ou a partir desse ano. A crônica era depois publicada no O Estado, às vezes com o nome de El Harabid. Retalhos da Vida teve como patrocinador uma fábrica de tecelagem do Rio  Grande do Sul, parece que  fazia cobertores, edredons e cuja razão social era Khalil  Sehbe. Curiosamente, o Raul Caldas  Filho, que à época  trabalhava comigo no Sesi, deixou de  registrar o programa em seu trabalho  Rádio  Days, capa de “Ô Catarina”, de junho de 1993 – número 3 – Ainda: a apresentação de Retalhos era diária, no horário das 13 horas, com bela cortina musical, creio que escolhida pelo Zininho. Sei que a cronicazinha era ouvida, comentada, pois as pessoas vinham falar comigo sobre os textos. Decerto o Antunes ou o Ricardo registraram o programa em suas pesquisas tornadas em livros, que não conheço mas gostaria de ler para escrever sobre os mesmos, na imprensa de SC, ou daqui  do Rio, onde escrevo no velho Jornal do Commercio.Trata-se de jornal sério sisudo, especializado em economia, que sobrou da  cadeia de Chateaubriand, e que tem apenas 176 anos de publicação ininterrupta!

Sou um entusiasta da radiofonia que no  país alcançou  elevados índices de desenvolvimento, em relação mesmo ao plano internacional. Sabe-se que o grande mestre e educador Fernando Tude de Souza, culto e brilhante homem de rádio, foi estudar a BBC de Londres, adaptando seu modelo à Rádio MEC, extraordinário veículo de radiodifusão cultural do país, criado pelo gênio de Roquete Pinto, que a doou ao governo federal. Enfrentei o microfone, com programa permanente, na Difusora de São Francisco, falando sobre esportes. Arno Enke, já falecido, foi o primeiro locutor dessa rádio, obtendo o  primeiro lugar em concurso onde fui o quinto colocado. Esses fatos  aconteceram ao final dos anos 4O. Chiquito Mascarenhas, criou essa rádio, e depois passou a diretor da Diário da Manhã. A ZYA-5, Difusora de Joinvile, mais antiga, me forneceu em volume o repertório de toda a música, popular, internacional,erudita, um pouco de jazz, da popular norte-americana, da sul americana, caribenha, e sertaneja de nosso país, e as indefectíveis duplas caipiras.Em meus ouvidos reverberaram, simultaneamente, ou mais adiante, as programações das rádios vizinhas e, com muita força, as da ilha, onde vivi de 1954 a 1964.

Na sua coluna do AN Capital, de 19/7/2002, o nosso pranteado  amigo comum Aldírio Simões, cita o trabalho de vocês no resgate da memória ilhoa e se refere aos seus livros de estudos da era do rádio. O “Variedades” do DC de 27/9/2003, traz matéria de capa sobre vosso trabalho. Estou me alongando demais. Cortem e enxuguem aí essa explosão de saudades, misturadas a informações de que vocês, a esta altura, provavelmente já tenham prospectado. Tenho mais memória pessoal sobre os demais programas, sobre o meio da radiofonia, personagens, bares freqüentados (o Felinto: entre a escada da Rádio e a sede do INCO), músicos, repertórios, cantores, Zininho, Nabor etc. etc… Diário da Manhã, Guarujá, Anita e a Verdade fazem a história da ilha. E eu tava lá! Grande abraço deste também radialista, bi-insular (pois morei em São Francisco e em Florianópolis). Ilmar Carvalho

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