Imagens e sons

Outro dia, num dos poucos momentos de calma desses tempos modernos, coloquei um CD no aparelho de som, desliguei a luz e fiquei sozinho com meus pensamentos. O CD era de Carly Simon, bonita de se ver e ouvir, a melhor intérprete de música romântica que eu conheço! As músicas foram se sucedendo até que tocou “Coming around again”. Sugestionado, comecei a pensar somente nas boas lembranças acumuladas ao longo de meus já cinquenta anos e no que, abaixo do amor de Deus, meus cinco sentidos haviam registrado como beleza inesquecível em meus arquivos pessoais.

Uma das primeiras imagens foi a da lenta e redimida agonia do último replicante de “Blade Runner”, magnificamente interpretado por Rutger Hauer, quando ele relatou tudo o que seus olhos haviam visto de maravilhoso em sua curtíssima vida. Eram imagens verdadeiras e não implantes de memória de outros. Vasculhei, então, as minhas e encontrei muita coisa:

“Adagio”, de Albinoni. “Abertura 1812”, de Tchaicovsky. As “Bachianas Brasileiras” e o “Trenzinho Caipira”, de Villa-Lobos. “Carmina Burana”, de Carl Orff, “Lohengrin”, de Wagner. O “Coro dos Escravos Hebreus”, do “Nabucco” de Verdi. “As Quatro Estações”, de Vivaldi. Eleazar, Karabtchevsky e Karajan, regendo. O duo de Chico e Bethânia, em “Sem fantasia”. Elis Regina. Vinícius e Tom. Elizeth Cardoso, interpretando “Saudade”. “Nada além”, na voz de Nélson Gonçalves. Djavan. “Domingo no Parque”, de Gil. “Faroeste Caboclo”, do Legião Urbana. Os solos de sax de Manito, na época de “Os Incríveis”. A flauta de Altamiro Carrilho. A viola de Almir Satter. “The Golden Boys”. “Boca Livre”, “Quarteto em Cy”. MPB 4. “Ponteio”, de Edu Lobo. Dolores Duran. Tayguara. Belchior. Raul Seixas. “Disparada”, de Vandré. As performances de Antônio Nóbrega. “Changes”, do Black Sabbath. Beatles. Rolling Stones. Bee Gees. Queen. Ella Fitzgerald. Swingle Singers. Louis Armstrong. Plácido Domingo. Simon & Garfuenkel. Mammas & Pappas. “California Girls”, dos Beach Boys. Eric Clapton. Cat Stevens. Rick Wackeman. A irreverência poética de Renaud. O “chansonnier” Aznavour. Michel Legrand. A exuberância apaixonada de Brel. Sergio Endrigo. Os balés Verioska e da Geórgia. As coreografias de Béjart. O vigor atlético de Deborah Colker. A exuberância do La La La Human Steps. “Família Trapo”. “Jovem Guarda”. “Romeu e Julieta”, com Hebe e Golias. Os festivais da Record. “O Fino da Bossa”. Mazzaropi, na corda bamba do circo, em “Sai da Frente!”. Paulo Autran. Paulo Goulart. Grande Otelo. Fernanda Montenegro. O “Chatô”, de Antonio Calloni, em “Um só coração”. Spencer Tracy. “Rastros de Ódio”, “Rio Bravo” e “Como era verde o meu vale”, de John Ford. O menino Osment, em “Inteligência Artificial”. “Scout” (Mary Badham), a filha de Atticus (Gregory Peck), em “O Sol nasceu para todos”. “O Jovem Frankenstein”, de Mel Brooks. O Quasímodo, de Charles Laughton, e a Esmeralda, de Maureen O’Hara, em “O Corcunda de Notre Dame”. A monumental briga entre John Wayne e Victor MacLagen, em “Depois do Vendaval”. “Os Sete Samurais”, de Kurosawa. O “Cyrano”, de Gérard Depardieu. O jardim impressionista e o inferno de navios, do filme “Amor além da Vida”. A cena das escadarias de Odessa, de “O Encouraçado Potenkin”, e a batalha sobre as águas congeladas, de “Alexander Nevsky”, ambos de Eisenstein. Peter Sellers, em “Um tiro no escuro”. John Belushi, em “O Clube dos Cafajestes”. O vôo rasante do caça-bombardeiro sobre o campo de concentração, balançando as asas para o menino, em “O Império do Sol”, de Spielberg. A pluma que vem, depois vai, de “Forrest Gump”. A casa de campo vazia, coberta de neve, de “Doutor Jivago”. Audrey Hepburn, em “Bonequinha de Luxo”. Rita Hayworth, em “Gilda”. Gene Kelly em qualquer filme. A gota de sangue tingindo de forma tênue, contra a luz, a bebida de Deckard (Harrison Ford), de novo em “Blade Runner”. A despedida de Gary Cooper e Ingrid Bergman, em “Por quem os Sinos dobram”. A Copa de 1970. O Penta. João Paulo II. Dom Paulo Evaristo e Zilda Arns. Irmã Dulce. As procissões de Lourdes. O discurso emocionado de Mário Covas, pouco antes de morrer, agradecendo os dons de Deus. Os anos de 1960. Minha cidade, nessa época. Minha professora de primeiro ano. As dunas do Nordeste. Os Campos do Sul. Minha irmã mais nova consolando uma prima no velório de seu pai. O antigo acervo musical de meu irmão mais velho. O canto suave e a ternura sem fim de minha mãe. A honra e honestidade de meu pai. O auxílio prestativo e gratuito de um pequeno engraxate – que a vida nunca destrua sua pureza! Uma tempestade, num dia de verão. A Lua Cheia, numa noite de outono. O Sol, num dia de primavera.

Lembranças são cartões postais da vida! Seu valor não está no que custaram – a maioria foi gratuita -, mas no que somaram aos registros da memória. Não está no que dizemos aos outros, mas no que guardamos em nós.

Agradeço a Deus por todas, pois sem Ele nada existiria!

Lembranças tristes? Claro que as tenho, mas todas foram lições e caminhos que conduziram ao que me faz mais feliz, e que mais me consola e motiva:

Todos os dias com minha mulher e meu filho!

Os sentidos e a memória são dons de Deus e as boas lembranças são flores que colhemos no caminho da vida.

Quais são as suas?

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Por Adilson Luiz

Palestrante, compositor e escritor, autor de Sobre Almas e Pilhas (2005) e Dest’Arte (2009). Articulista e cronista, escreve em vários meios de comunicação no país. É Mestre em Educação, Engenheiro Civil, Professor Universitário e Conferente de Carga e Descarga no Porto de Santos/SP. Mantém o site algbr.hpg.com.br
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