Incoerência ou conveniência?

Quem viveu os períodos de ditadura no Brasil, sabe como fica difícil a vida quando o cidadão é permanentemente vigiado e tem suas ações limitadas por ordem dos detentores do poder.

[ Por Jamur Júnior ]

imagesOs jornalistas sentiram de perto a pressão exercida para controlar o setor de comunicação. Na redação do telejornal da TV Iguaçu de Curitiba, onde trabalhei no período da ditadura militar, havia diariamente um homem do governo Federal lendo os roteiros dos programas e fazendo censura prévia. Ele decidia o que ia para o ar. Proibiam tocar determinada música de Roberto Carlos, tudo de Geraldo Vandré, o nome de Dom Helder Câmara não podia ser pronunciado.

Vez por outra um ou outro apresentador fugia do roteiro escrito e improvisava alguma coisa com critica aos atos  do governo, uma lembrança ou elogio tímido a um artista censurado ou revelando alguma ação antipática do governo.

O resultado desses improvisos era  uma visita ao quartel onde um major, se encarregava de passar um pito no profissional  que era mantido por algumas horas numa sala a meia luz com um banco de madeira onde ouvia o militar falar sobre o comportamento que deveria prevalecer de acordo com as normas ditadas pelas autoridades federais.

Certa ocasião um chefe da Censura reuniu jornalistas para fazer recomendações e declarou no final que podia prender um apresentador de televisão por “expressões faciais”.

Claramente se referia ao escriba que costumava fazer algumas caretas reprovando atos do governo ou fazendo sátira de alguma declaração ou determinação feita pelos comandantes.

Nessa época lideranças políticas e outros brasileiros corajosos trabalhavam no combate a esse estado de coisas que perturbava a vida dos brasileiros. Democracia e liberdade sempre foram objetivos perseguidos no Brasil. Com o surgimento do PT, liderado pelo metalúrgico Lula, surgiram vozes fortes nas praças públicas contra os ditadores.

Essas histórias grande número de brasileiros conhecem, uns por ter vivido as dificuldades da época, outros por ouvir dizer ou porque leram em algum livro. Políticos e lideranças sindicais que batalhavam contra os ditadores, hoje, para surpresa de todos nós, perderam o medo dos ditadores de qualquer parte do mundo. Vivem aos abraços e beijinhos com os ditadores de Cuba, perdoam dívidas de ditadores da África e fazem afagos a candidatos a ditador em outros países da América.

Recentemente o governo brasileiro, fez negócios com o ditador de Cuba, importando médicos a preço fixo. Na Bahia o governador recebe o ditador Raul Castro como se fosse o Nélson Mandela da América Latina. Os ditadores de hoje devem ser diferentes dos ditadores de ontem.

Provavelmente, mais “democratas”, bonzinhos, religiosos e amantes da liberdade total.

Será que mudaram os ditadores, ou mudaram de posição algumas lideranças politicas do Brasil? Sei, lá. Sei, sim que hoje é muito mais fácil fazer jornalismo, incluindo o jornalismo investigativo que esteve proibido durante a ditadura. A liberdade que o brasileiro tanto preza, inclui a liberdade de expressão que fortalece a democracia e amedronta candidatos a ditador.

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