Inocência Perdida

Era o ano de 1963 e eu tinha apenas três anos. Crianças brincavam nas ruas; mães e casais de namorados conversavam nos portões; paraquedistas de brinquedo e quebra-cabeças de papel caíam do céu; e pessoas trocavam cumprimentos e sorrisos corteses.

Havia um clima de paz e leveza no ar! Meu avô materno, Júlio, era fiscal de bonde. Seu ofício era acompanhar o trabalho dos motorneiros e cobradores, que desfilavam tranquilamente com cédulas cuidadosamente dobradas e dispostas entre os dedos.

Ele era uma figura extremamente doce: rosto fino, voz calma, bigode bem aparado e belos óculos de lentes redondas e hastes de madrepérola, que herdei e ainda guardo comigo.

Morávamos perto de sua casa, num bairro simples. Dava para ir até lá a pé, sem cansaço. Mas, era mais divertido quando ele vinha nos buscar, pois íamos caminhando por ruas que ainda eram de terra, ladeadas por casas térreas e simples, como a nossa, mas, transbordantes de amor. A conversa era sempre animada e coroada com um pirulito de groselha ou um picolé. Tudo era precioso e aguardado, sempre, com ansiedade e alegria… Menos os dois infartos seguidos que, nesse mesmo ano, o levaram, aos cinquenta e poucos anos.

Como pode um coração tão grande parar de bater? Será por não caber dentro do peito? Seu último aceno foi da janela do hospital. Ainda era o mesmo gesto carinhoso e confiante! Depois, na inocência de criança, acreditei quando me disseram que ele estava dormindo, mesmo com tanta gente chorando e falando ao seu lado.

O tempo passou e a criança extrovertida e franca, que eu era, deu lugar a um adolescente tímido, inseguro e desengonçado. As pessoas não paravam mais na rua para conversar, mas para vender, ludibriar, ameaçar ou roubar. Algumas delas falavam de diferenças de cor e classe social, e que o dinheiro comprava tudo. O “Programa Amaral Neto” mostrava um país próspero e feliz. No entanto, Marighela e Lamarca discordavam “bombasticamente” disso.

No mundo, com reflexos aqui, uns acusavam os outros de cometerem genocídios nucleares ou “comer criancinhas”. Uma confusão só! Para piorar, pessoas batiam em minha porta para anunciar o fim do mundo, me condenando ao inferno sem me conhecerem.
Que alternativas terríveis: virar cinza radioativa capitalista; churrasco, bem passado, no inferno; ou “baby-beef”, na frigideira de um comunista! Meu Deus!

Foram precisos muitos anos de reflexão e um amor sincero, correspondido, para que eu reencontrasse a paz e o sentido da vida.
Ah, o amor… Sempre ele! Amor de pais, amor de avós, amor de almas gêmeas, amor de pessoas que, em vez de tirar proveito da inocência das crianças, cuidam, com carinho e esmero, para que elas cresçam, vivam e sejam capazes de transformar esse mundo traiçoeiro, caótico e cheio de vícios e ódios no paraíso que almejamos e que já habitamos, quando tínhamos a alma limpa e livre da infância.

Com um amor assim, nunca arriscaremos perder essa inocência! Com um amor assim, quem sabe descubramos que mesmo a nossa, em verdade, nunca esteve perdida: só estava brincando, inocentemente, de “esconde-esconde”!

Adilson Luiz Gonçalves
Membro da Academia Santista de Letras
Mestre em Educação
Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor
Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento)
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