Interatividade sem fronteiras marca convergência da rádio com a internet

Durante muitos anos, o âncora Mário Motta abriu o Notícia na Manhã, da CBN-Diário, de Florianópolis, convidando os ouvintes para entrarem na sala de bate-papo do site da rádio. Motta criou até o neologismo “ouvinternautas”, para destacar a participação deles em diferentes momentos do programa.

“Quando percebi, já no início dos anos 2000, que os ouvintes também já estavam se conectando e descobrindo a importância desse instrumento para interferir na programação, nas entrevistas, nas reportagens, opinando, questionando e nos dando o rumo de suas alegrias, tristezas, angústias e necessidades informativas, decidi que uma daquelas ‘salas‘ passaria a ser nosso ponto de encontro”, relembra Motta.

O âncora, que também apresenta o Jornal do Almoço e assina coluna diária no Hora de Santa Catarina, acredita que a abertura do canal online mexeu para sempre com a relação rádio e ouvintes. Motta diz que teve a sensação de que não haveria mais volta. Ou seja, não seria mais possível fazer o Notícia na Manhã sem a participação dos seus “ouvinternautas”. “Eles não mais se conformariam de apenas receber a informação sem questioná-la, sem contribuir com sua opinião ou sem criticá-la como cidadão consumidor da notícia”, diz.

A iniciativa chegou a ser tema de trabalho científico dos professores de jornalismo Eduardo Meditsch (UFSC) e Ângelo Ribeiro (IELUSC), apresentado em 2006 na Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). O chat deixou de existir em dezembro de 2015, quando o site da emissora passou por uma grande renovação. Mas os “ouvinternautas” continuaram acompanhando e interagindo com o âncora, em mensagens via WhatsApp e, mais recentemente, via comentários durante transmissão em vídeo no Facebook, como mostra a foto acima.

Mário Motta conta que a transição da sala de bate-papo para o WhatsApp foi difícil. Havia um apego de muitos ouvintes pelo espaço, que tinha até nome – Sala Valmir Albino Martins, homenagem a um dos mais antigos “ouvinternautas”, já falecido. “Mas no fim das contas, a evolução para o WhatsApp foi assimilada até com certa agilidade e a possibilidade de encaminhar fotos, vídeos ou áudios nos ajudou bastante a incrementar a participação dos novos ouvintes”, conta. “A participação deles é muito mais ativa e forte”.

A relação de Mário Motta com seus “ouvinternautas” é um dos exemplos de como a internet ajuda o rádio, também em Santa Catarina, a ser multiplataforma, ir além de suas fronteiras e abrir novas possibilidades para criação de vínculos com os ouvintes. É esta relação com a internet o tema da quarta reportagem especial da série A força do rádio, do Portal Making Of, em parceria com o ACAERT (Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão).

Caminho sem volta

Rádio e internet é uma relação sem volta. As duas mídias têm características em comum e isso facilita ainda mais a integração, mais do que em relação à TV e jornal. Tanto uma quanto a outra tem a instantaneidade como força. Além disso, a linguagem rápida e coloquial também aproxima as duas mídias, o que só se fortaleceu com o advento das redes sociais. Ou ainda, a população de ferramentas como o próprio WhatsApp. Pesquisa Conectaí, do IBOPE Inteligência, feita online com 2 mil brasileiros, mostrou que o aplicativo de mensagens é o mais usado, com 91%, liderando um ranking que tem o Facebook em segundo lugar com 86%.

Nas rádios Amanda FM e Jovem Pan News Difusora AM, ambas de Rio do Sul, a relação com a internet segue no mesmo caminho, sendo importante não somente pela possibilidade de transmissão via streaming. “A internet é nossa aliada” diz Humberto Ohf de Andrade, diretor-executivo das duas emissoras. “Percebo que o rádio junto com a internet é uma mídia ainda mais forte”. Prova disso, é que, segundo Andrade, as duas emissoras se posicionam como podendo ser “consumidas” em quatro plataformas: rádio, Facebook, site e aplicativo. “Para nós, não importa qual plataforma sejamos consumidos, o que interessa é sermos consumidos, sem esquecer que para isso, temos que manter o principal diferencial do rádio: o conteúdo local”, afirma.

Desta experiência, o executivo destaca que a linguagem do ar e das demais plataformas devem ser coerentes e constantemente atualizadas. E que os sites da Amanda FM e da Jovem Pan News Difusora AM acabam se tornando mais uma ferramenta de busca de entrevistas veiculadas nos rádios ou uma fonte de informação comercial. “Ainda não encontramos um modelo de negócio para gerar receitas a partir das plataformas digitais“, diz. “Estamos muito atentos quanto a isso, mas ainda sem respostas”.

Da mesma forma que o âncora da CBN Diário, Humberto Ohf de Andrade também aposta em canais digitais como as redes sociais como meio de aproximação das emissoras com os ouvintes. “As redes sociais aproximam mais a rádio do seu público-alvo e fortalecem o nosso conteúdo jornalístico”, diz. Sobre isso, Andrade conta que as emissoras usam o WhatsApp como principal canal de interatividade. “Recebemos por dia mais de 1000 mensagens via WhatsApp”.

Segundo ele, é impossível atender a todos, ainda mais quando somados aos contatos de ouvintes que enviam mensagens por e-mail e pela fanpages e aplicativo. “Temos programas específicos para atender as mensagens, inclusive as enviadas em áudios, mas sempre checando antes de colocar no ar”, explica.

Flexibilidade para adaptação aos ouvintes
Maior interesse da comunidade pelo rádio. Para Neliege Pagnussat de Souza, gerente administrativo e comercial da Rádio Videira, de Videira, é este o principal ganho com o uso dos canais da internet. “As pessoas se sentem parte do que está acontecendo e podem contar com o rádio como seu aliado, quer seja na busca de informações, quer seja para entretenimento”, avalia.

No caso da Rádio Videira, há uma divisão quanto ao uso das plataformas digitais. O site e o Facebook são usados para divulgação de promoções, notícias, além do streaming. Já o WhatsApp, junto com o tradicional telefone, são os canais para pedidos musicais. “Os canais digitais favorecem muito nossa emissora quando realizamos promoções em que ouvinte participa curtindo e compartilhando nossa marca”, diz Neliege. “Por outro lado, o streaming ajuda o sinal da rádio a chegar a diversos lugares, sem o limite de alcance da antena, o que possibilita a divulgação dos fatos ou eventos com rapidez, trazendo ao ouvinte a chance de também se comunicar ao vivo”.

Quanto à tendência do rádio se tornar um veículo cada vez mais multiplataforma, a executiva da Rádio Videira lembra o cenário de mudanças pelo qual passam todos os meios de comunicação. “Todas as formas de comunicação estão mudando e com o rádio não é diferente”, diz. “Ele ainda é o veículo principal, mas sem estar disponível em outras plataformas de ser acessado pode cair no esquecimento até porque a forma de ouvir o rádio está diferente”.

Juciele Marta Baldissarelli, jornalista especialista em rádio e professora na Universidade Alto Vale do Rio do Peixe (Uniarp) concorda com a análise de Neliege. Para ela, emissoras que continuam afastadas e resistentes à internet perdem prestígio e colocam em risco a força da marca. “Analiso a internet como um excelente canal que auxilia e fortalece o trabalho que é desenvolvido pelas rádios”, afirma.

Na avaliação de Juciele, o dinamismo do rádio e da internet dinamismo encanta e satisfaz os ouvintes e leitores. As pessoas querem saber no agora o que está acontecendo, não há mais tempo e paciência para aguardar o noticiário que tem hora marcada para entrar no ar. “Vejo isso como flexibilização e os meios de comunicação precisam se adaptar aos seus consumidores e não o contrário”, atesta. “Nesse sentido, tanto o rádio quanto a internet possuem melhores condições para se adaptarem e já existem bons exemplos disso em Santa Catarina”, conclui.

Este é o quarto texto da série A Força do Rádio. Nos próximos serão abordados temas como “Os desafios do profissional do rádio”, além do “Dossiê da Migração” com todas as informações sobre este momento especial para o meio.

(Making Of 28/08/2017)

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