Irene de Souza Boemer – 1

Gloria Alejandra Guarnizo Luna*
Marlene de Fáveri*

Irene de Souza Boemer foi uma das raras mulheres que esteve à frente de seu tempo, ou uma mulher que ousou e se destacou como radialista quando, na quase totalidade, os radialistas eram homens. Era o ano de 1947, e sua voz espraiou-se pelas ondas da Rádio Difusora Itajaí, alguns anos após sua instalação na cidade, primeiro nos alto-falantes, depois, alcançando longas distâncias, marcando um tempo de meio século. Neste livro, contamos um pouco sobre a trajetória de Irene, entrelaçada à história da cidade, do radiojornalismo e dos espaços de sociabilidades por onde atuou.

Desce quando conhecemos Irene pessoalmente, até o momento em eu escrevemos estas linhas, passaram-se vários anos. Nós a visitamos algumas vezes, num primeiro contato ainda no Bairro São Vicente, e depois na sua residência no Bairro Fazenda, e sempre nos atendeu gentilmente, com o seu sorriso costumeiro e alegria contagiante, disposta a falar e mostrar suas coisas e mil detalhes que guardava na memória. A curiosidade e o desejo de conhecer a vida e o trabalho de Irene, como radialista e como mulher levou-nos a colocar no papel um pouco da sensibilidade espraiada por Irene, de sua vida e da cidade, entremeadas e indissociáveis. Não tivemos tempo de escrever, nem tempo de ouvir mais dela mesma, sobre sua vida, mas prometemos que o faríamos, como tributo à sua memória.

Quando Mário Boemer abriu as portas da casa, em 2005, e já então sem Irene, mas com ela sempre presente em todos os cantos, foi como descortinar a história da personagem e entrar nos recônditos lugares da memória. Abriu-se um mundo que então nos era desconhecido: o mundo privado de Irene, onde nos deparamos com os “mil nadas”, como diria a historiadora Michele Perrot, (1) mas com mil significados para os milhares de pequenos papéis: como iríamos dar conta de escrever sobre tantos detalhes sem perder os modos de guardar e a delicadeza com que se misturavam em gavetas, caixas, prateleiras, móveis diversos? Caixas e mais caixas de tudo o que se pode imaginar que alguém curiosa, interessada em tudo e perspicaz como Irene, guardara durante sua vida, mais precisamente, durante seu tempo vivido como radialista até seus últimos dias.

Mário manteve a casa como era arrumada por Irene, com seus detalhes e objetos, e, numa relação de confiança conosco, foi abrindo portas, gavetas, estantes, guarda-roupas, tomava os objetos nas mãos, contava de onde viera cada um deles, lembrava o contexto e nos narrava, como só uma longa convivência compartilhada pode oferecer. Às vezes, parava com algo nas mãos, e viajava no passado – “este, Irene trouxe do México”, e ia descortinando como ela lhe havia contado da viagem, fazendo correr o filme do passado e abrindo os seus espaços, neles as mãos de Irene que escreviam, datilografavam, teciam, bordavam, costuravam, emendavam tecidos diversos. Autorizou-nos a manusear os seus recortes e manuscritos, fotografias, livros, documentos, uma infinidade de coisas guardadas, algumas tinham bem mais de 60 anos, no desejo de que as tantas coisas de Irene pudessem servir como fonte para a história: história de Irene, da cidade e do rádio. Por alguns momentos, fomos tomadas pelo sentimento de que estávamos violando seus pertences, porque todos os papéis e objetos que nossas mãos tocavam foram colocados  naquele lugar por Irene. Durante todo o tempo de estudo e pesquisa, era como se ela estivesse ao nosso lado. Agradecemos muito ao Mário pela oportunidade de ter contato com essas fontes valiosas, e também à Irene, que nos deu entrevistas preciosas, quando sua voz nos brindava com histórias… Continua.

*Autoras do livro Irene de Souza Boemer – Dama do Rádio, Cronista da Cidade. Itajaí: Editora Mariadocais, 2008.

(1) Os excluídos da História – operários, mulheres, prisioneiros. São Paulo: Paz e terra, 1991.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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