Irene de Souza Boemer – 2

Gloria Alejandra Guarnizo Luna*
Marlene de Fáveri*

Chegar à casa de Irene e Mário foi, para nós, surpreendente. A varanda da casa com cadeiras estofadas era um convite a apreciar o jardim com plantas, flores e frutas que revela, de alguma forma, o carinho e cuidado do casal. Uma jabuticabeira, constantemente podada por Mário, assim como frutas colocadas entre as plantas e bebedouros pendurados, atraía pássaros de vários tipos, cores e melodias que davam vidas e movimento à entrada da casa – este era um dos locais preferidos de Irene, e era na varanda que a maioria das vezes ela nos esperou.

É nessa varanda que vemos Irene rodeada de flores e presentes no dia de seu aniversário em 2001.

Na sala de Irene, sofás enfeitados com almofadas e panos bordados por ela, uma cômoda, tapetes, cortinas, e, no canto, numa mesinha com uma máquina de escrever – uma Hermes Baby, de fabricação nacional que, segundo Mátrio, foi o único instrumento de trabalho que Irene teve para preparar os seus programas. Ali, datilografando suas pautas sem nunca usar computador, pois Irene era do seu tempo, acostumada com suas coisas, como ela dizia, “tem o meu jeito”. Era sua vida, seu lugar de criação, e a imaginávamos ali, sentada, catando letras nas teclas; sim, tinha o seu jeito.

Nessa sala de visitas, havia quadros por toda a parte, um deles com Irene na Ilha Porchat. Naquela estante, poucos livros e uma infinidade de bibelôs, enfeites, porta-retratos, destacando-se a fotografia de Irene com a cachorrinha Nini. E, a cada gaveta que abríamos, saiam fotografias misturadas a documentos, cartões, recortes de papéis, envelopes, cartas, mais fotografias, tudo guardado fazia muito tempo, misturados a alguns guardados de urgência. Foram várias as tardes que passamos na casa de Irene, quando o Mário ia lembrando de outro “esconderijo, e vinha com outro pacote e dizendo – “achei mais este aqui” – a cada um que abríamos, surpresas, curiosidades.

O quarto de costura era um laboratório de coisas – a máquina de costura Singer fabricada há aproximadamente 90 anos, uma relíquia, ainda montada com linha na agulha, os muitos apetrechos montados em caixinhas de tudo, com muitos retalhos, roupas a coser e reformar, onde havia também duas estantes, caixas, livros, uma cristaleira apinhada de bibelôs, um guarda-roupa cheio de casacos e roupas. Sobre ele uma coleção de chapéus, e muitos papéis e livros em todos os lugares. Era como ver Irene ali, costurando e falando com o seu riso largo; ali encontramos muitos tesouros da memória, coisas do cotidiano familiar, do privado.

No quarto de Irene havia um belo que chamou nossa atenção, depois as coisas pessoais de Irene, as roupas nos cabides como ela havia deixado, os vestidos de festa, longos, outras tantas peças, e os óculos, colares, lenços, relógios, anéis, jóias, tudo colocado lado a lado, fazendo fileirinhas – era seu jeito de guardar -, peças de enxoval de casamento, no alto do guarda-roupa, ainda não usadas – como era comum guardar peças a vida inteira. Tudo muito simples, móveis antigos, e havia roupas penduradas em cabideiros improvisados noutro quarto, já que eram tantas as coisas, que não havia mais espaços.

Em cada lugar, caixas e mais caixas de papéis, um deslumbramento para duas historiadoras curiosas. E a cozinha, cuidadosamente decorada com enfeites, toalhinhas, bibelôs, quadros de panos e bordados com frases, as louças de muito tempo de uso, as toalhas, tudo com a arrumação de Irene e Mário, confortável e acolhedor.

*Autoras do livro Irene de Souza Boemer – Dama do Rádio, Cronista da Cidade. Itajaí: Editora Mariadocais, 2008.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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1 responder
  1. DONATO RAMOS says:

    Lembro-me, com muita saudade, de Hilda (onde andará?) e Irene, Mário, Balhu, Edson,Iran, Humberto, Olindor,Edna,Dalton,Silveira Júnior,Jali, Luciano… (Antunes, este o vejo sempre aqui em Florianópolis) minhas companheiras e companheiros de Rádio nos idos de 1957… Já citei todos eles em meus livros, quando falo especificamente do Rádio que vivi durante 33 anos.
    Lembro-me, agora, no retorno a Santa Catarina, daquela época: quantos do nosso grupo já se foram para o outro lado sem, ao menos, um aviso: Olha, Donato… Estou indo! Te espero lá, companheiro!
    Meninas: gostaria de ter esse livro que fala de Irene: Rua Revoar das Gaivotas, 187 – Campeche – Florianópolis 880603265.
    [email protected]

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