Irene de Souza Boemer 4: fã de Carmem Miranda

Gloria Alejandra Guarnizo Luna
Marlene de Fáveri

E, a maior parte do acervo de Irene é composta por papéis, que, dentre tantos, os separamos com cuidado de não perder os registros e a forma de guardar de Irene, e tentamos organizar por temas e temporalidades, tarefa quase impossível, mas necessária para que não nos perdêssemos.

Uma parte dessa documentação é formada por pautas datilografadas, cortadas em tirinhas, que se misturavam em milhares de recortes de todo o acervo, isto porque Irene costumava datilografar e recortar as folhas com um texto para cada tirinha de papel. Assim os separava e lia no programa de rádio. Muitas vezes rabiscava uma ou outra curiosidade ou complemento, e assim foram guardados, num mar de tiras em tinta azul ou preta da fita que usava na sua máquina de escrever. Outra parte específica compõe-se de blocos de jornais nos quais ela escrevia sua coluna Suplemento Feminino, alguns inteiros, mas a maioria recortes da página, e às vezes escrevia “lembrança da coluna do jornal”. Aí aparecem páginas de outros jornais, e destacam-se reportagens sobre Carmen Miranda, de quem era fã.

Encontramos pilhas da revista Seleções, exemplares da enciclopédia Conhecer, muitas páginas destacas de tantas outras revistas, dezenas de encartes sobre os mais variados assuntos, almanaques, livros de provérbios, livrinhos de Leitura Diária, que lia sempre, e destacava pensamentos para os programas; centenas de recortes, encartes e livros sobre ervas medicinais, plantas que curam, medicina caseira, evidenciando sua preocupação em informar as ouvintes sobre cuidados com a saúde de forma mais natural. Lia a revista Vida e Saúde, que encontramos muitas, misturadas a recortes, folders, recortes sobre prevenção das mais variadas doenças.

Esses tesouros guardados nos oportunizaram a olhar a Irene radialista, jornalista, repórter, costureira, esposa, jardineira, elegante, anfitriã, modista, cabeleireira, e, sobretudo, a profissional dedicada. Todos esses documentos, nós os encontramos em sua residência, guardados em caixas, pacotes, envelopes, pastas, sacos plásticos, de todas as formas, volumes e cores. Às vezes com uma indicação do que continha , e, cada um/a que abríamos, parecia que as mãos de Irene estava ali, selecionando, guardando.

Artesã de seus recortes fazia colagens muitas vezes para não perder papéis minúsculos, fazia envelopes com a sua máquina de costura, e ainda bem que o fazia porque assim pudemos olhar e perceber os cuidados de preservar aquilo que para ela dava sentido à vida. Há muitos envelopes que provavelmente seriam completados com outros recortes, mas, entre tantos papéis, acabaram na caixa e nunca mais foram abertos, e iam se acumulando outros recortes e envelopes… Havia manuscritos, muitos e variados, que Irene copiava às pressas – uma receita de comida, um pensamento, uma notícia…

Através dessa vasta documentação, foi possível perceber uma variedade de assuntos que eram veiculados no seu programa de rádio e coluna de jornal, ambos intitulados Suplemento Feminino, com incontáveis imagens, receitas caseiras e dicas para o lar, temas sobre moda, cuidados com o corpo e saúde, costura, beleza, provérbios, religiosidade, entre outras informações, como o cuidado com animais, principalmente com cães, que Irene gostava muito.
Encontramos colagens de cadernos montados por ela, reutilizando folhas, formas de aproveitar melhor os materiais. Isso mostra como as mulheres, num determinado momento, criavam estratégias de economia dentro de seus lares, inventando maneiras de organizar o lar, atrelando-as à próprias necessidades diárias de controle e consumo, cujo sentido criativo dava praticidade à vida cotidiana no lar de Irene.

Autoras do livro Irene de Souza Boemer – Dama do Rádio, Cronista da Cidade. Itajaí: Editora Mariadocais, 2008.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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