Irene de Souza Boemer 6: o surgimento da Rádio Difusora Itajaí

Gloria Alejandra Guarnizo Luna
Marlene de Fáveri

A Rádio Difusora Itajaí iniciou suas transmissões em 26 de outubro de 1942, ainda em caráter experimental, nas dependências do Cine Itajaí, através de um pequeno serviço de alto-falantes conectados aos aparelhos de som do cinema, um deles instalado em frente a esse cinema e o outro na praça Vidal Ramos, coração da cidade. Segundo seu idealizador, Adolfo de Oliveira Júnior, “a rádio surgiu como uma curiosidade.

Foi adaptado um pequeno aparelho que conectei a aparelhagem do cinema, onde se aproveitavam as músicas do filme e antes das sessões jogava a música no ar”. Nas suas memórias vemos que houve receptividade à novidade no ar: “O público aceitou bem, era uma fonte de informação, era exatamente durante a Segunda Guerra e a comunicação era restrita e supercontrolada”.

Irene Boemer tinha então 17 anos. Nas suas recordações, percebemos cenas que deixavam as pessoas curiosas, talvez até desconfiadas, naquele ano de 1942: “Quando eu ia ao cinema, no inicio da década de 1940 ficava na calçada olhando e admirando o pessoal trabalhando” – ela não imaginava que faria parte, mais tarde, do microfone dessa rádio! Isso pôde sugerir um comportamento semelhante por parte de outras pessoas da cidade, que se admiravam com o que a modernidade trazia. Até então era possível ouvir programas de outras estações e do exterior, através das ondas curtas. Uma estação na própria cidade era absoluta novidade.

No seu início os programas eram feitos de forma bastante artesanal e podemos imaginar a recepção dos programas – no ar, eram “anunciados recadinhos para casais apaixonados, serviços de utilidade pública e todas as músicas aproveitadas do filme em cartaz”. Era a novidade aparecendo em Itajaí para encanto e espanto dos citadinos, como disse Oliveira Júnior:

“Na época, a igreja era usada e era a pequena lá na praça (Igreja Imaculada Conceição), e durante o serviço de alto-falante, havia uma novena, a qual o padre interrompeu no meio e mandou desligar o alto-falante. Mas em função de a rádio ser do controle do governo e era a transmissão da Hora do Brasil, o padre levou a pior e teve que mudar o horário da novena”.

A instalação da Rádio Difusora Itajaí, a quarta estação do estado de Santa Catarina (a primeira foi a Rádio Clube de Blumenau, em 1934, depois a Rádio Difusora de Joinville em 1939, e a Rádio Difusora de Laguna, em 1940, rendeu discussões e debates na imprensa local através das posições dos partidos políticos que se faziam presentes nesse momento. Ela nasceu nesse contexto de tensões étnicas, ano em que o Brasil declarava guerra ao Eixo (Alemanha, Itália e Japão) deflagrada em 22 de agosto de 1942. E a Rádio Difussora aparece em outubro do mesmo ano: momento em que havia forte perseguição aos europeus e descendentes daqueles países. “Nós éramos controlados pelo Batalhão, servíamos de elo de ligação entre o público e o comandante do Batalhão, foi o que permitiu o registro da emissora na época”, recorda Oliveira Júnior, evidenciando que o momento era de intensa censura aos meios de comunicação, quando a policia política exercia forte pressão.

Sabemos que a imprensa é formada de opiniões, está a serviço de grupos que querem reforçar suas idéias e emitir seus conceitos como verdadeiros. A forma como eram veiculadas as notícias, naquele momento, apontava para um inimigo comum, o nazi-facista ou “quinta coluna”, visto como traidor da pátria, imaginário que contribuía para os ideários do chefe da Nação, Getulio Vargas. Os programas A Voz da América e o Repórter Esso eram obrigatórios nas programações das rádios brasileiras e tudo o que se referisse ao Eixo era proibido.

Autoras do livro Irene de Souza Boemer – Dama do Rádio, Cronista da Cidade. Itajaí: Editora Mariadocais, 2008.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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