Irene de Souza Boemer: a Difusora e as disputas políticas

Gloria Alejandra Guarnizo Luna
Marlene de Fáveri
 
As décadas de 1940 e 1950 são conhecidas historicamente como a Era de Ouro do Rádio no Brasil e trazem grande transformação às manifestações artísticas nacionais, pois propiciam a (re) criação de novos espaços de sociabilidades, quando o programa de auditório e de calouros, a criação de fãs clubes das grandes estrelas e astros revelaram e divulgaram nomes até então descohe3cidos. A relação dos artistas com o rádio fez com que surgisse um elemento importante para a indústria cultural no Brasil, com a fonografia e os discos que se popularizaram. As radionovelas eram ouvidas e revelavam atores e atrizes, bem co0mo inseriam uma população que não tinha posses ao contexto dos aconte4cimentos nacionais.

Lembramos que, na época, Carmem Miranda, Francisco Alves, Ângela Maria, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Marlene e Emilinha, dentre outros, tornaram-se ícones nacionais. O historiador Eric Hobsbawm nos lembra que “uma das grandes contribuições do rádio foi o de falar simultaneamente para inúmeras pessoas, criando, assim, sua própria esfera pública e contribuindo, pela primeira vez na história, que pessoas desconhecidas – ou não – que se encontravam, sabiam o que cada um tinha ouvido anteriormente.

É bom lembrar que nessa época, em Santa Catarina, vivia-se uma acirrada disputa política entre duas famílias em torno de duas agremiações partidárias: o PSD – Partido Social Democrático, capitaneado pela família Ramos, e a UDN – União Democrática Nacional, esta pelos Konder Bornhausen. Nos seus anos iniciais, a Rádio Difusora esteve no centro das atenções políticas, num primeiro momento, auxiliando as forças armadas do governo durante a Segunda Guerra. Depois a ideologia que defendia os interesses das elites econômicas que surgiam em volta do comércio, tendo como adversário político Abdon Fóes, proprietário do jornal do Povo e que utilizava desse jornal para defender o Partido Social Democrático. Assim, nos anos 1940, a imprensa local vai ocupar muitas páginas com discursos políticos, notícias de guerra (até 1945), propaganda e pouco se dizia da verdadeira situação que Itajaí vivia.

O ano de 1945 marcou o fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo de Vargas: o que sugeria uma nova reestruturação política no Brasil. Assim ressurgem os partidos políticos, extintos pelo Estado Novo, aparecendo a União Democrática Nacional como partido ligada a ex-integrantes do Partido Republicano; e o Partido Social Democrático, formado pelos simpatizantes do regime de Getúlio Vargas (Partido Liberal). Desses partidos, a UDN parte para a afiliação de elementos da alta burguesia, enquanto que o PSD parte para uma linha mais populista, buscando, na massa populacional, o apoio político para chegar ao poder. Nessa luta pelo poder, “o rádio é um poderoso instrumento político que tanto pode servir à mudanças como à manutenção de um Estado, das relações sociais, da própria liberdade individual e-ou coletiva”, ou instrumento ideológico de controle que “mobiliza, induz, liberta ou escraviza”.

Em Itajaí, esse poderoso instrumento leva a Rádio Difusora a relançar o semanário Itajaí, sendo que ambos possuem um vínculo explícito de apoio à bancada udenista, como lemos, em 1947: “depois de uma interrupção de 10 anos ressurgiu pela terceira vez à publicidade o semanário Itajaí sob a direção de Dagoberto Nogueira e gerência de Raul Heusi da Silva. O novo órgão, como tudo indica, se propõe a defender o programa político da UDN, partido que contava entre nós, de um órgão de publicidade para propaganda de seus homens e de seu programa de ação”.
 
A posição política da Rádio Difusora foi alvo de críticas pelo jornal do Povo, do jornalista Abdon Fóes, declaradamente simpatizante do Partido Social Democrático, que a acusava de simpatia pela UDN, através de seu diretor Dagoberto Nogueira.

Autoras do livro Irene de Souza Boemer – Dama do Rádio, Cronista da Cidade. Itajaí: Editora Mariadocais, 2008.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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