Irritações

Poucas coisas incomodam tanto os jornalistas quanto procurar uma informação e não achar porque a fonte se esconde atrás de um site e fica ali, na moita, rezando para não ser encontrado. São cada vez mais comuns os casos de pessoas e instituições que têm uma página na internet, por exemplo, mas não disponibilizam o número do telefone. Ora, como desencavar um dado importante quando se conta apenas com o e-mail para contato? Parece uma estratégia deliberada do sujeito para não ser visto, para não prestar contas e porque, desconfio, não tem o que dizer, mostrar, justificar o que se investe nele, em bolsas ou salário.

Também é comum, especialmente no serviço público, o indivíduo abandonar o ambiente de trabalho antes do horário, sair para o almoço mais cedo, ou simplesmente enforcar a tarde de sexta-feira. Mas não é só nas repartições: lembrei-me daqueles pedreiros que não apareciam depois do meio-dia da sexta porque era preciso preparar os apetrechos de pesca para a jornada no mar, que tomaria todo o seu fim de semana. Na sexta-feira muitas fontes secam, literalmente.

Na lista das irritações aparecem, soberanas, as tropelias do trânsito, o mau-caratismo dos motoristas, em qualquer dia, horário e ponto da cidade. São os fura-filas, os apressados, os espertos (mas não inteligentes) que usam o desvio e forçam a entrada lá na frente, os que tiraram carteira por telefone e não dão sinal para que lado vão. Nesse ponto, nossas ruas são piores que as de capitais sul-americanas onde não há sinaleiras e todo mundo julga estar sempre na preferencial.

Não menos irritantes são aqueles sujeitos que pouco ou nada fazem, mas vivem se queixando do governo, do patrão, do sistema, da chuva, do sol, do nervo ciático, da morte da bezerra. Trabalho é sinônimo de dor de cabeça, compromisso é aporrinhação. E dá-lhe dor nas costas, consultas médicas e, vá lá, uma aposta no bicho para ver se algum dinheirinho afasta o tédio dos dias que custam a passar.

Não há como manter a calma quando portadores de QI de ameba insistem em testar a sua paciência, sobretudo no tráfego. É tolice querer que tudo funcione como deseja nossa cabeça, mas é duro começar o dia destratando a tudo e a todos. Seja numa segunda-feira de maus presságios, seja na sexta de alguma esbórnia planejada pela mente poluída.

Descobri que quem rala demais não tem tempo para o tédio, nem para a folia. Fica enferrujado pelo uso, não pelo desuso. E, no caso dos cronistas, acabam descontando no leitor, que nada tem a ver com isso…

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