Járson Frank: ousadia, bom gosto e criatividade

“O Frank é um símbolo da filosofia da A.S. Propague: buscávamos pessoas criativas, sem necessidade de terem algum tipo de titulação”.

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A frase, dita por mim (Antunes Severo), está na página 57 do livro 50 anos de vanguarda – história da Propague, lançado em 2013 como parte da programação festiva da agência. O assunto veio à tona a propósito dos 67 anos que o Frank estaria comemorando nesta terça-feira, 26 de agosto. Começo por lembrar o espanto que a contratação do Frank provocou na equipe da agência.

– Como? Um jovem gaúcho recém chegado à Ilha depois de passar dois anos mochilando na Europa, e sem nenhuma experiência anterior em propaganda, foi contratado?

– Sim, assim mesmo. Respondi de imediato e responderia hoje da mesma forma.

A dúvida era procedente considerando-se a posição de liderança da agência e o alto grau de exigência cobrado pela direção da empresa. Enfim, a sorte estava lançada para mais um desafio. E o desafio veio em seguida, em dose dupla.

noname (1)1. O Sistema Financeiro Besc que reunia o banco e mais seis outras empresas financeiras de propriedade do Estado – maior cliente da agência – resolve  criar uma House Agency contratando nada menos do que eu próprio e mais três profissionais de primeira linha.

2. Logo nas semanas seguintes quando a Ceisa – um dos dois principais clientes da agência – informa que quer lançar um conjunto de prédios numa das principais regiões centrais da cidade e quer uma campanha de grande impacto.

Nesse entrevero, se deu a estreia do publicitário Járson Elberto Frank.

O acontecimento está assim narrado no livro dos 50 anos da Propague, com texto de Flávio Sturdze.

Ainda meio verde na propaganda, como ele mesmo reconhece, Frank sentiu um tremor nas pernas e um frio na barriga ao saber que seria tudo com ele. Encorajado por Peixoto (George Alberto Peixoto, Picolé – diretor de Criação), os dois bolaram numa única tarde uma campanha inteiramente fora dos padrões de então.

Batizaram o empreendimento de Condomínio Alexandra Bianca, a partir da história mirabolante de duas belas nobres europeias – a loiríssima princesa russa Alexandra e a condessa italiana Bianca, uma morena também de fechar o comércio – que viriam a Florianópolis especialmente para morar naqueles prédios que levavam seus nomes.

Frank viajou a Porto Alegre, onde contratou duas modelos com características físicas que se adaptavam às personagens que havia inventado. Da janela do avião que o levou à capital Gaúcha, descortinou uma cena que guarda até hoje na memória: (a cidade de) Tubarão encoberta apela água na maior enchente de sua história.

Misturando ficção e realidade, a agência emplacou notas nas colunas sociais anunciando a chegada das duas celebridades de sangue azul e preparou-lhes uma recepção no aeroporto, com jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas. Alexandra e Bianca desceram de um avião da Transbrasil vestindo chapéus, peles e joias, simulando a indumentária de milionárias europeias, deram entrevista como se fossem mesmo duas nobres chegando à Ilha, circularam num MP Lafer conversível pela cidade toda e participaram de um coquetel, à noite, na sede da Ceisa.

Com as fotos tiradas no aeroporto e durante o coquetel, Raul Araújo (produtor cinematográfico) preparou o table-top que apresentou o novo condomínio ao mercado.

A campanha foi assunto por um bom tempo, consolidou ainda mais o nome da A.S. Propague e inaugurou um novo jeito, ao mesmo tempo descontraído e sofisticado, de fazer propaganda em Florianópolis.

Depois desse banho de criatividade e arrojo inventivo, pensavam todos, nada mais poderia surpreender os fregueses da badalada construtora Ceisa. Estavam todos enganados. Como conta Flávio Sturdze.

Os trabalhos seguintes para a Ceisa, todos com a grife Peixoto-Frank também tiveram ganchos inusitados e sugestivos. Um quarteto de cordas se apresentou no Clube 12 de Agosto na inauguração do Edifício Mozart, e para o lançamento do edifício Algarve foi criada uma temática de inspiração portuguesa que tinha como apelo a recomendação: “Leva a sua Maria para o Algarve”.

Show de bola? Show de bola. Mas, tem mais. Mais Flávio narrando outra aventura vivida pelo nosso personagem Frank, Jársom Elberto Frank, ou simplesmente Frank Dulce como se auto-anunciava nas redes sociais.

Nada, contudo, se comparou à grandiosidade da campanha idealizada, em 1976, para o lançamento do portentoso Ceisa Center, um conjunto comercial com três blocos e uma galeria no térreo, na Avenida Osmar Cunha, no centro da cidade, a obra mais importante da construtora florianopolitana. A previsão de vendas era de um ano. A repercussão da campanha foi tão grande que as unidades se esgotaram em 75 dias e os anúncios foram tirados do ar.

Flávio Sturdze, termina seu comentário sobre o colega e amigo:

A passagem de Frank pela agência (ele saiu em 1979) é lembrada não só pelas campanhas criativas que produziu em parceria com Peixoto, mas também [pelo seu jeito pra lá de informal. Ia trabalhar usando uma camiseta colorida acima do umbigo e um jeans em que substituíra o botão da cintura por dois alfinetes de segurança, daqueles utilizados para prender fraldas em recém-nascidos. Também gostava de dar umas escapadas da agência por volta das três da tarde e arrastava junto o pessoal da criação, argumentando que eles “sentiam necessidade de buscar inspiração” na rua.

 

 

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