JAYME COPSTEIN E AS MADRUGADAS DO RÁDIO NO SUL DO PAÍS

De 1985 a 2004, o rio-grandino Jayme Copstein, de fala mansa e envolvente, mudou as madrugadas radiofônicas do Sul do país, aliando um raciocínio rápido no bate-papo com os ouvintes, sem nunca adentrar o nebuloso terreno do sensacionalismo e mantendo sempre uma postura elegante ao microfone da Rádio Gaúcha. O projeto inicial levado a cabo por ele diferia bastante da proposta que o consagraria como apresentador. Por Luiz Artur Ferraretto

Ao assumir a gerência-executiva da emissora da Rede Brasil Sul, Flávio Alcaraz Gomes propõe que Copstein, então editor-chefe do Jornal do Comércio, recupere, da meia-noite às 3h, as principais entrevistas do dia levadas ao ar durante a programação, amarrando com comentários os vários trechos editados. Guindado à nova função, Jayme sugere que, ao contrário, abra-se espaço para que o ouvinte analise, por telefone, as entrevistas. Com esta perspectiva, o Gaúcha na Madrugada estréia em 4 de fevereiro de 1985, mas, naquela edição, rapidamente, esgotam-se os trechos gravados e Copstein, até por inexperiência ao microfone, leva a transmissão, precariamente, até o final. O relato dele ao Projeto Vozes do Rádio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul revela-se significativo a respeito de um padrão que começa a ser identificado em relação à audiência:
– No outro dia, eu entrei na rádio, achando que não tinha nem mais programa. (…) Aí, eu entrei no ar para fazer molecagem, porque eu achava que eles iam me mandar embora. Comecei a brincar com todo mundo. Aí, telefona um sujeito e me pergunta: “Como é que se conhece a fêmea do quero-quero?”. “Olha, só perguntando ao namorado dela, porque é o único interessado nisto.” Deu uma polêmica em torno da fêmea do quero-quero! Todo mundo dando palpite. Aí, eu acabei não fazendo mais entrevista com ninguém e os ouvintes falando, falando… Eu sei que esse foi o resultado: a partir daí sempre os ouvintes ligaram para opinar. Sobre coisas particulares de cada um ou sobre a vida do país. E foi aí que o programa tomou corpo.


Despedida de Jayme Copstein do Brasil na Madrugada (4 de setembro de 2004).
Ao centro, Copstein, sentado entre suas netas. Em pé nas suas laterais,
Rafael Colling e Sara Bodowsky.

[ Áudio ]

De fato, nas edições iniciais do Gaúcha na Madrugada, Jayme Copstein identifica, a exemplo de espaços mais populares da programação radiofônica, a solidão dos grandes centros urbanos. No entanto, dentro do formato misto talk and news adotado pela emissora em meados da década de 80, o programa não foge ao conteúdo jornalístico e ao tipo de público – basicamente adulto, com no mínimo ensino médio e pertencente às classes A e B –, embora, a rigor, aproxime-se muito do chamado all talk em vigor nos Estados Unidos. A todo momento, o apresentador e seus entrevistados interagem com os ouvintes, que expressam, em suas participações, dúvidas e opiniões e, por vezes, relatam acontecimentos cotidianos. Para regular o que é irradiado, Copstein inspira-se em A Hora do Pato, um antigo programa de calouros da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Aproveita, assim, um efeito sonoro reproduzindo o grasnar de um pato, que acaba se transformando em personagem do Gaúcha na Madrugada:
– O Pato é um elemento – digamos que o elemento de rádio tem que ser sonoro, bem humorado – para tirar as pessoas do ar quando elas se tornam inconvenientes. Ou porque dizem palavrão, ou porque fazem ofensa de natureza pessoal, ou então porque falam em futebol, e futebol é uma coisa que se esgota à meia-noite. A emissora às 20h entra a falar em futebol e não termina antes da meia-noite. Então eu sempre achei isso excessivo. (…) E aí o Pato. E o Pato eu achei muito engraçado, porque ele não diz nada. O Pato é só aquele oiuioeuriuro. (…) E o Pato começou a tirar as pessoas do ar. Até que um dia eu precisava meter o pau, mas descer a lenha no governo mesmo, era o governo Pedro Simon, e aí eu precisava, digamos, ter um outro eu que se responsabilizasse por aquilo. Aí o Pato disse isso, o Pato disse aquilo.


Anúncio do Gaúcha na Madrugada (fevereiro 1985).

Em termos de jornalismo e prestação de serviços, o Gaúcha na Madrugada passa pelo que Copstein chama de “uma fase de esclarecimento público”. Antes mesmo da Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990, instituindo o Código de Defesa do Consumidor, o programa já aborda o tema, levando para o estúdio advogados que respondem, no ar, a perguntas dos ouvintes formuladas por telefone ou carta. Com as dúvidas em termos de legislação abrangendo diversas áreas, forma-se uma espécie de equipe de colaboradores. Conforme suas especialidades dentro do Direito – do consumidor, imobiliário, previdenciário, trabalhista… –, revezam-se ao microfone profissionais como César Dias Neto, José Henrique de Freitas Valle, Flor Edison da Silva Filho, Pedro Ruas e Raul Portanova. O Gaúcha na Madrugada atrai, deste modo, uma audiência particular em um horário pouco explorado até então pelas emissoras do estado:
– (…) hoje [início do século 21] eu tenho (…) médicos fazendo plantão nos hospitais, enfermeiros, auxiliares de enfermeiros, advogados fazendo petições, juízes lavrando sentenças, quer dizer, há todo um universo de pessoas que estão acordadas a essa hora e que, portanto, ouvem o programa. (…) Eu acho que a faixa de ouvintes se concentra entre 30 e 50 anos.
O programa ganha abrangência nacional em 1995, transformando-se no Brasil na Madrugada, quando se forma a Rede Gaúcha Sat. Na mesma época, a sua qualidade é reconhecida no exterior. Jayme Copstein obtém a medalha de prata na categoria Melhor História de Interesse Humano no The New York Radio Festivals, com o trabalho Memórias de um Menino de Rua, narrando a trajetória do economista Carlos Nelson dos Reis, um ex-menor abandonado.
Depois de quase duas décadas trocando o dia pela noite, Jayme Copstein deixou a apresentação do Brasil na Madrugada, transformando-se em comentarista da Rádio Gaúcha. Apesar da qualidade de seus substitutos – de início, os jornalistas Rafael Colling, mais tarde substituído por Marcelo Matusiak, e Sara Bodowsky – a voz calma, mesmo na indignação, deixou saudades nos insones.


{moscomment}

20 respostas
  1. ORMEI PIRES SILVA JUNIOR says:

    Sara Bodowsky é sem dúvida insubstituível…com seu jornalismo claro e objetivo, fino e
    expressivo.
    Com sua voz belíssima e encantadora Sara sabe prender muito bem a atenção do ouvinte unindo seu brilho interior aliado à sua competência profissional.
    BONITA,INTELIGENTE,FINA E COMPETENTE, Sara Bodowsky mostra-nos uma nova maneira de
    (en)cantar o jornalismo.
    sucesso !

  2. jair says:

    Jayme

    Quanta saudade das noites insones te ouvindo… do pato, dos caminhoneiros que ligavam….

    Maravilhoso tempo.

    Tudo de bom prá ti!!!!

    Jair

  3. Alexandre Gomens Soares says:

    gostaria que me informassem detalhaes da trilha sonora do programa, muito agradável.

    Aguardo

  4. Paulo Henrique says:

    Tb quero saber onde encontro a trilha sonora do programa!!! Por favor, alguem teria?

  5. benedito carlos gonzaga says:

    Quantas saudades . Era muito bom ouvir o Gaucha na Madrugada com a genealidade de Jaime .Tempo bom…..muito bom .
    Saúde Jaime Kopstein

    Benedito

  6. Alexandre Braga Chicon says:

    Olá Jayme!!!Sempre lhe Ouvia na Rádio quando meu Pai ligava, e dizia que era o melhor programa do mundo e éra. uma opnião!!! porque vc não volta para o gaúcha na madrugada as sextas feiras, tenho saudades da trilha sonora do programa e o Pato… Pensa nessa idéia com carinho, vc é importante nas nossas vidas.Bjo no coração!
    Alexandre Chicon!!!

  7. Alexandre Braga Chicon says:

    Eu Cresci ouvindo o senhor na gaúcha, Hoje sinto falta!!! Nada contra o programa atual, mas não é a mesma coisa, aquela voz mansa da madrugada,aquela canção da Bohemia regída por Henry Mancini, e a opinião do pato(Que eu entendia tudo), pensa nessa idéia as sextas feiras, não precisa ser todas mas a cada 15dias,ficarei feliz se for feita a vontade de seus fãs, pela sua volta…

  8. marcio valerio de lima says:

    Jaime , que saudade do Brasil na madrugada!!! Quantas noites passei trabalhando na sua
    companhia e dos ouvintes que participavam. Saudades de ouvir o pato, a musica que era
    o tema do programa, a Noemia, entre outros, sem deixar de falar no quanto aprendi com
    voce qua é um verdadeiro sábio… Ah, quero dizer tambem, que até hoje, ao cumprimentar
    as pessoas, eu respondo igual a voce. Quando me perguntam como vai? Respondo assim :
    “melhor agora na sua companhia, lembra? Jayme, volta ao programa, seria uma imensa
    felicidade para todos os seus fãs. Grande abraço amigo…

  9. joao says:

    olha…na epoca eu tinha apenas quinze anos e podia ouvir e adora o programa.. valeu seu jaime..

  10. Samuel Duarte says:

    Saudades mesmo, eu tambem tinha 15, 16 anos e adora ouvir a modulação tranquila do Jaime, era muito bom,a educação como conduzia seu programa,uma bela história foi sua passagem pelas madrugadas, realmente podia ter alguns programas especias com a condução desta pessoa que clareou tantas madrugadas escuras dos brasileiros!! Grande abraço…..

  11. FELIPE says:

    Aprendi a gostar de rádio ouvinto Jayme Copstein, que não permitia futebol, religião e obcenidades… caso acontecesse, o PATO aparecia com seu VAIEMBORA,VAIMEBORA!

    Fiz um video e coloquei no youtube com a musica de abertura do Brasil na MAdrugada e imagens do programa. é bacana, veja e mate a saudade!

    http://www.youtube.com/watch?v=o3TqBx5dkiU

    SE NÃO CONFIA NO LINK, ESCREVA ‘BRASIL NA MADRUGADA’ NO YOUTUBE e assista!

  12. vitelmo justino borges da cunha says:

    que saúdade do programa do sr jaime de ouvir o pato quando vim de vacaria em 87 logo descobri como pasar anoite tranquila como vigilante do inss gravatai por muitos anos não perdia uma noite se quer que programa valoriozo serio de respeito para todas as idades oque é bom tem que ser lembrado sempre obrigado sr jaime com avoz suave e grande talento v aleu a pena ouvir este mestre do radio gaúcho,por vitelmo jb da cunha

  13. marcelo says:

    passei todas as noites ouvindo seu programa.me marcou muito a noite que o jornalista boris casoi ligou para o programa e sem te conhecer disse que voce era um menino e que continuasse assim pois voce tinha muito talento.foi quando voce disse sua idade e o bores ficou todo sem jeito.outro fato marcante foi voce no programa do jo.ja procurei na internete mas nao achei o video se tiver me manda.um abraco e muita saude…..

  14. valmirio says:

    Meu caro Jayme Copstein,é com imensa satisfação vê-lo na minha página de pesquisa,estou com saudades deste programa apresentado pela radio gaúcha.Eu ouvi a radio desde a invasão dos EUA no Iraque pela primeira vez.Desde esta data eu ouvia depois da meia-noite ouvia o pato dando seu recado no começo do programa .Parabéns por esse jornalismo inteligente,dinâmico de muito prestígio.Abraço e muita saúde……

  15. jésus carvalho chaves says:

    Sou mais “um” daqueles que varavam a madrugada, ouvindo Jayme Copstein e seu implacável “Pato”. Hoje, dirijo uma pequena emissora, “Rádio Cidade Am Bambui-MG, e nas manhãs de domingo
    faço um programa: “Domingão do Jesão”, e gostaria de usar o áudio do Pato do Jayme, como “contra-ponto” e conversar com o
    Pato cuja linguagem somente eu entedia, como tão bem o Jayme
    soube fazer. Por telefone, um funcionário da Rádio Gaúcha me
    disse que não dispunham mais do áudio do Pato, por isso peço
    se é possível conseguir o e-mail ou um contato com o jayme ou
    onde posso conseguir este áudio. Em 670 Khz estaremos sempre
    às ordens dos companheiros. Um fraternal abraço do Jesão.

  16. Miguel Ângelo Dutra says:

    Gostaria de saber onde se encontra Jayme Copstein nunca mais ouvi falar dele. Gostaria também de saber a trilha sonora do programa do Jayme que era uma música linda e deixava o programa mais atraente. Abraços.

  17. Assis says:

    Era legal de ouvir o programa, o véio dava cada patada em alguns ouvintes que ligavam que dava até dó, era muito engraçado.

  18. Pedro Paulo says:

    Volta, Jayme!
    Pelo menos levem em conta a sugestão que alguém deixou ali em cima, tipo voltar ao menos uma ou duas vezes por semana. Seria muito interessante!

    Pra que quiser escutar a trilha, basta clicar no link que o
    Felipe deixou em um comentário anterior. O link é ”limpo”, do Youtube.

    Abraços e saudades do programa!

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *