JB 118 anos: vanguarda ontem, hoje e amanhã

Há mais de 30 anos, quando a informática dava seus primeiros passos, houve uma exposição nos Estados Unidos sobre novos processos de edição dos jornais. O JB publicava, então, um caderno interno sobre comunicação e jornalismo. Por Mauro Santayana*

Em matéria bem-humorada, Alberto Dines, diretor do jornal, arriscava situação divertida, mas preocupante: a de que, um dia, o publisher de um grande jornal e seu diretor-executivo, ao descerem pelo elevador pela madrugada, se dariam conta de que não haviam desligado o redator-chefe.

Partindo do geral para o particular, o futuro do Jornal do Brasil depende do futuro do jornalismo, impresso ou não. Desde a criação da linguagem escrita, tem havido o jogo dialético entre os suportes do texto e a sociedade. Foi assim quando o pergaminho, mais caro, cedeu lugar ao papiro, promovendo a revolução cultural grega; quando o papiro foi substituído, na Europa, pelo papel, no século 11, dando origem às universidades e facilitando o trabalho dos copistas; quando a tipologia e o sistema de impressão de Gutenberg empurraram o Renascimento.

A partir das grandes tiragens facilitadas pela invenção da linotipo e das impressoras rotativas, no século 19, os maiores jornais passaram a construir a sociedade moderna – para o bem e para o mal. Sem o Völkischer Beobachter, jornal de Hitler, o partido nazista não teria triunfado. Os nazistas, chegando ao poder, suprimiram a liberdade de imprensa. Hoje, no entanto, cada pessoa que dispuser de um computador, e de acesso à internet, pode contestar o poder estabelecido e, dependendo de seu talento, influir poderosamente na sociedade.

Isso não significa o fim do jornalismo impresso. Quando surgiu o rádio, muitos profetizaram o fim do papel como meio de comunicação: essa instantaneidade da informação já ganhava a corrida contra as edições de jornais impressos, que eram duas ou três durante a jornada. A televisão parecia ter fechado ainda mais o cerco: além da velocidade da informação, trazia também a imagem. Os jornais impressos têm resistido, e uma das razões é a força da palavra escrita. O ato de ler – que se vale de símbolos abstratos – exige a intermediação da inteligência, na veloz decifração do texto; da memória, na relação entre o novo e o conhecido, e do imediato juízo crítico. A leitura exige a participação do leitor, na reconstituição mental dos fatos e na reflexão das idéias. Enquanto lê, o leitor pensa muito mais do que enquanto ouve e vê.

Há um fenômeno novo na comunicação de massas no Brasil: o surgimento de jornais populares, de preço reduzido, que alcançam grandes tiragens. Isso mostra que a resistência do papel contra os meios eletromagnéticos continua firme. O tato – no manuseio das páginas de um jornal, como nas de um livro – confere mais autenticidade à informação. O jornal e o livro são meios materiais, concretos, que permanecem contra a fugacidade do som e das imagens sucessivas na televisão, e podem ser marcados, destacados, guardados e consultados a qualquer momento.

O Jornal do Brasil dispõe de vantagens que lhe permitem permanecer como o grande veículo que tem sido. Em primeiro lugar, na convergência de meios, de que já se utiliza. Foi dos primeiros a ter sua própria emissora de rádio e o primeiro a colocar seu conteúdo na internet, como veículos auxiliares. Esses novos meios são adjetivos, e o jornal impresso, substantivo. Substantivo no conteúdo e na materialidade do texto. Ele se multiplica nos meios, enquanto permanece o mesmo.

O futuro do Jornal do Brasil será sempre uma construção do presente, alicerçada em seu passado. O jornal tem o melhor título da imprensa brasileira, porque o associa ao país e ao povo. A simples escolha do nome tornou-se um compromisso. É o jornal do Brasil. Ao longo de seus 118 anos, ele tem acolhido em suas páginas algumas das mais expressivas personalidades da intelligentsia brasileira. Assim foram Rodolfo Dantas, que o fundou, Ruy Barbosa, que assumiu sua direção em 1893, Alceu Amoroso Lima e Barbosa Lima Sobrinho, Otto Lara Resende e Carlos Drummond de Andrade, para lembrar somente alguns dos grandes mortos.

O JB sempre esteve na vanguarda. Na abertura de seu espaço para a literatura moderna, na realização das grandes reportagens, na contratação de correspondentes internacionais. Seu futuro, será, como foi o seu passado, o de “pensar” a realidade, analisá-la, interpretá-la e apontar as perspectivas históricas. É um jornal de hoje para o amanhã.

*Colunista do JB

Fonte: Jornal do Brasil

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