J&Cia retoma campanha por Landell de Moura

Como 2019 marcará o transcurso dos 120 anos da primeira transmissão da voz humana no mundo por ondas de rádio e do centenário da Rádio Clube de Pernambuco, J&Cia decidiu retomar sua campanha pelo reconhecimento do padre-cientista gaúcho Roberto Landell de Moura como verdadeiro inventor do rádio.

Apesar de algumas conquistas da primeira fase da campanha, iniciada em 2010 para celebrar o sesquicentenário do nascimento de Landell, em 22 de janeiro de 2011 – como o lançamento do selo comemorativo pelos Correios, a inclusão de seu nome no Panteão dos Heróis da Pátria, a introdução do ensino de sua história no ensino público fundamental de Porto Alegre e a criação do Prêmio Landell de Moura de Radiojornalismo na cidade de São Paulo–, a saga do inventor continua desconhecida da maioria dos brasileiros. Por isso, a partir de janeiro, Hamilton de Almeida, biógrafo do padre, apresentará semanalmente em nossas páginas documentos históricos que ajudem a divulgar a trajetória dele.

A seguir, uma entrevista em que Hamilton explica a importância de Landell:

Jornalistas&Cia – Por que você considera que 2019 vai marcar um novo grande momento para a história do rádio no Brasil?

Hamilton de Almeida – Porque será uma ocasião para lembrar de dois marcos da história do rádio no País. Em 16 de julho se completarão 120 anos da mais antiga experiência documentada de transmissão de voz humana por ondas de rádio. O padre Roberto Landell de Moura foi o protagonista dessa façanha e pouca gente sabe disso, infelizmente. Outro fato marcante será o centenário da radiodifusão. A Rádio Clube de Pernambuco foi fundada em 6 de abril de 1919 por um grupo que, na época, intitulava-se “amadores de telegrafia sem fio”.

J&Cia – Você pode dar detalhes dessa primeira transmissão da voz humana por Landell de Moura e porque ela pode ser considerada o principal marco da invenção do rádio no mundo?

Hamilton – Se estivéssemos agora na São Paulo de 1899, a mídia se resumiria a jornais e revistas, cujo noticiário do exterior chegava por meio de cabos submarinos. Para as comunicações pessoais e empresariais teríamos apenas o telefone com fio e o telégrafo sem fio. Pesquisava-se, mas nenhum cientista em qualquer lugar do mundo havia tido êxito na transmissão da voz sem fio. A chamada radiotelefonia era um sonho dourado. Mas eis que surge um brasileiro, padre, com sólidos conhecimentos de física e uma dose considerável de genialidade, que acreditou que aquele sonho poderia tornar-se realidade. Após muitos estudos e testes ele convidou diversas autoridades públicas, empresários e jornalistas, e exibiu o inovador aparelho de rádio. Isso aconteceu nas dependências do Colégio Santana, na zona norte da capital paulista. Para fazer uma transmissão wireless da voz humana, com muitas testemunhas, Padre Landell construiu o mais primitivo aparelho de rádio do mundo de que se tem registro.

J&Cia – Qual a diferença básica das experiências de Landell e de Marconi, a quem hoje, inclusive em grande parte do Brasil, se atribui a invenção desse veículo de comunicação?

Hamilton – A grande diferença é a voz; e os sons musicais. Enquanto o brasileiro mostrava que era possível fazer transmissões de rádio ponto a ponto e de radiodifusão, o italiano usava as ondas de rádio para transmitir sinais em código Morse. Portanto, quando se cogita da invenção de um veículo de comunicação como o rádio, em que escutamos vozes e músicas, quaisquer sons, não há como tirar o mérito do padre Landell. Os dois souberam empregar as ondas de rádio para enviar e receber mensagens. Foram grandes conquistas da humanidade. Mas um inventou o rádio e o outro, o telégrafo sem fio. Ambos foram pioneiros da era wireless, que tem pouco mais de um século, assim como Tesla, com o controle remoto.

J&Cia – Você citou a experiência pioneira da Rádio Clube de Pernambuco, que em abril próximo celebrará o centenário de vida, sendo, se não a primeira, uma das que deu origem ao rádio tal como conhecemos hoje. Em que ela se conecta com os projetos de Landell de Moura?

Hamilton – Apenas no pioneirismo. Embora o padre Landell tenha sido um inventor com patentes registradas no Brasil e nos Estados Unidos, ele não conseguiu comercializar as suas invenções. Não recebeu o apoio financeiro de ninguém. Os fundadores da Rádio Clube de Pernambuco foram visionários. Basta lembrar que a primeira rádio comercial do mundo, a KDKA, surgiu em novembro de 1920, nos Estados Unidos.

J&Cia – Há entre os historiadores uma polêmica sobre quem de fato foi pioneiro na implantação do rádio no Brasil. Alguns defendem essa experiência da Rádio Clube de Pernambuco como a que abriu caminho para o rádio no País. Outros são enfáticos em afirmar que essa primazia é da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada em 1923, por ter ela nascido já com programação e alguma audiência domiciliar. Quem está com a razão?

Hamilton – De fato, a rádio fundada por Roquette Pinto e outros nasceu com uma programação estruturada, em abril de 1923, enquanto a emissora pernambucana só atingiu o mesmo estágio seis meses depois, em outubro daquele ano. Há também quem diga que a primeira transmissão oficial de radiodifusão aconteceu no Rio de Janeiro, capital da República, em 7 de setembro de 1922, na inauguração da Exposição do Centenário da Independência. E se eu te disser que o padre Landell fez um experimento de radiodifusão em 16 de julho de 1899? Quem inaugurou a radiodifusão? Qual a rádio mais antiga do País?

J&Cia – O rádio no Brasil e no mundo tem motivos para celebrar tão relevantes efemérides? Ele não estaria perdendo espaços consideráveis para os outros meios, sobretudo com a chegada de novas tecnologias e múltiplas plataformas de informação?

Hamilton – Segundo a Unesco, o rádio é “o meio informativo mais universal do mundo”. Encontrou o seu espaço quando surgiu a televisão e agora soube reinventar-se diante das novas tecnologias. É a mídia de maior penetração no planeta.

J&Cia – E em relação ao jornalismo, como tem sido a evolução em sua opinião?

Hamilton – O rádio sempre foi sinônimo de informação instantânea, rápida. Ele mantém essa característica. O diferencial é que, atualmente, existem outros meios que fornecem notícias online. Na era das múltiplas plataformas de informação, o rádio continua presente. Não é pouca coisa.

J&Cia – Ao lado deste J&Cia, você foi um dos que colaborou para a realização do Prêmio Landell de Moura de Radiojornalismo, que virou lei por iniciativa do vereador Eliseu Gabriel e é organizado pela Câmara Municipal de São Paulo. Como estão os preparativos para a segunda edição do prêmio e quais suas principais características?

Hamilton – Eduardo Ribeiro, diretor do J&Cia, é o “pai” da ideia de vincular o nome do padre Landell a uma premiação anual a profissionais de radiojornalismo na cidade de São Paulo – um merecido destaque, aliás, já que não havia nenhum prêmio exclusivo para a categoria, ideia que foi abraçada pelo vereador Eliseu Gabriel e transformada em lei. Em meados de 2019 acontecerá a segunda edição, que vai distribuir troféus em quatro categorias: repórter, comentarista, âncora e programa jornalístico. As escolhas serão feitas pelo público. Os mais votados de cada categoria terão seus nomes encaminhados para um júri que irá, então, definir os ganhadores. A Câmara Municipal promoverá a cerimônia de premiação.

(Portal dos Jornalistas, 21/12/2018)

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *