Jorge Lacerda, 100 anos, jornalista e estadista que gostava de conversar sobre poesia

Antes de se notabilizar em Santa Catarina como político, o ex-governador Jorge Lacerda teve atuação destacada na imprensa, como incentivador da cultura, transformando-se em um intelectual de renome nacional.

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A revista editada pelo radialista Nilson Mello, circulou em novembro de 1957. O projeto morreu nessa primeira edição.

Lacerda, que completaria em 2014 100 anos de idade, será homenageado pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina na quarta-feira dia 29/10, a partir das 20 horas, com uma série de eventos, entre eles uma exposição, uma sessão especial e o lançamento de um livro e um documentário.

Ainda quando estava na faculdade de medicina, na década de 30, Lacerda escreveu seus primeiros artigos e poemas para jornais. Quando governador em Santa Catarina, sentia falta das conversas sobre poesia e artes que mantinha no Rio de Janeiro com pintores, músicos e outros artistas. Antunes Severo, radialista, jornalista e pesquisador, lembra de noites na Casa D’Agronômica com os irmãos Zigelli e o governador Lacerda, quando iam até altas horas discutindo poesia e artes.

“Mantenho agradáveis lembranças do governador Jorge Lacerda e de sua maneira cordial e simples de se comunicar com o pessoal que servia ao seu governo. Para nós, jovens da imprensa foi algo muito marcante”, conta Severo.

A amizade de Severo com Lacerda começou quando Walter e Adolfo Zigelli foram contratados para integrar a assessoria do gabinete do governador e incumbidos de apresentar um programa de divulgação das ações do governo na Rádio Diário da Manhã.

“Recém chegado em Florianópolis, conheci os irmãos Zigelli, fizemos amizade e passamos a trabalhar juntos no jornalismo da emissora. Lacerda, jornalista e experiente editor de um suplemento de Cultura e Arte no Rio de Janeiro, ressentia-se de companheiros para conversar sobre a profissão – e o que era sua maior paixão – a poesia. Não raro, por volta das 11 horas da noite, tocava o telefone na redação da rádio e vinha o aviso que o governador estava nos convidando para irmos ao seu encontro na residência oficial da Agronômica”.

Severo lembra também de sessões de gravação com Lacerda no estúdio de Zininho.  “Ele surpreendeu-nos também quando tinha que gravar mensagens para serem enviadas para emissoras do interior. Nessa época os gravadores de fita recém estavam chegando e não eram muito confiáveis. Então as gravações deveriam ser feitas na casa do Zininho que residia no Balneário do Estreito. Zininho bem que se ofereceu para levar o equipamento ao palácio, mas o governador recusou agradecido e disse que iria até ao estúdio que o Zininho montara numa espécie de edícula no fundo pátio de sua morada. Na hora de sair para a gravação, lá vinha o convite: O governador pede para vocês irem à casa do Zininho porque ele vai gravar lá.

A atuação de Lacerda na imprensa

LacerdaCulturaEm 1932, por ocasião da Revolução Constitucionalista, ele conseguiu publicar na imprensa paulista o poema “O brado de um constitucionalista”, utilizando o pseudônimo de “Greguinho”. No texto, como membro do Movimento Integralista, ele criticava o governo Getúlio Vargas.

Em 1940, trabalhava como médico em São Paulo quando foi convidado por Cassiano Ricardo para trabalhar no jornal “A Manhã”, do Rio de Janeiro. Juntamente com o exercício da medicina, Lacerda era articulista do periódico carioca, produzia o editorial do jornal três vezes por semana, realizava o copy desk de matérias de fundo e de notícias nacionais e internacionais. Também colaborava com as matérias culturais e artísticas.

Nesse período, Lacerda passou a conviver com pintores, músicos, poetas e outros intelectuais que viviam na capital federal. Em 1941, por exemplo, conheceu Vinícius de Morais. Mas Lacerda ganharia notoriedade em 1946, quando passou a editar o suplemento dominical “Letras e Artes”, no mesmo jornal.

“Esse suplemento foi considerado uma evolução no mundo das artes, um marco na literatura brasileira. Na época, a televisão ainda não existia e o jornal era o principal meio pelo qual as pessoas se informavam”, comenta o administrador Roberto Lacerda Westrupp, neto de Jorge Lacerda, que há mais de dez anos pesquisa a vida do avô.  “Ele ganhava muitos quadros de pintores também”.

No período em que esteve à frente do suplemento, o ex-governador conviveu com escritores, artistas e pensadores consagrados, como Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, Carlos Drumond de Andrade, Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Lygia Fagundes Telles, Mário Quintana, e passou a ser reconhecido nacionalmente como um intelectual. Segundo o escritor Salim Miguel, em depoimento ao documentário “Memórias de Jorge Lacerda”, o ex-governador ajudou muito os artistas catarinenses, apresentando-os aos grandes nomes das artes e da literatura nacional.

O político e a cultura

Posse de Lacerda (e) em 1956, como governador, ao lado de Braz Joaquim Alves. FOTO: W Anacletto Arquivo

Posse de Lacerda (e) em 1956, como governador, ao lado de Braz Joaquim Alves. FOTO: W Anacletto Arquivo

Jorge Lacerda foi eleito pela primeira vez como deputado federal de Santa Catarina em 1950. A atuação na Câmara dos Deputados não o afastou do meio cultural. Na condição de parlamentar, ele apresentou o projeto de lei que destinou 10 milhões de cruzeiros para o início da construção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM). A iniciativa contou com apoio da classe artística nacional.

O neto de Lacerda lembra que o avô foi, também, o segundo maior doador de quadros para o Museu de Artes de Santa Catarina. Entre as 28 obras repassadas ao acervo do estado, está uma pintura feita por Cândido Portinari. Lacerda, já como governador, foi responsável pela regulamentação, em 1957, do Museu de Arte Moderna da Cidade de Florianópolis.

Pela destacada atuação na área cultural e pelo reconhecimento obtido nacionalmente, Lacerda se transformou, na opinião do jornalista e escritor Moacir Pereira, autor do livro “Jorge Lacerda: jornalista, humanista e estadista”, “no político que mais prestigiou a literatura e o jornalista catarinense que mais contribuiu para o enriquecimento literário e artístico brasileiro em seu tempo”.

Sessão Comemorativa na ALESC com lançamento de livro, exposição e documentário

Casal Kyrana e Jorge Lacerda. Foto álbum de familia

Casal Kyrana e Jorge Lacerda. Foto álbum de familia

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina realiza nesta quarta-feira (29), a partir das 20 horas, a sessão especial em homenagem ao ex-governador e ex-deputado federal Jorge Lacerda. A solenidade será no Plenário Deputado Osni Régis e faz parte das comemorações do centenário de nascimento de Lacerda.

Após a sessão, será inaugurada na Galeria Ernesto Meyer Filho, no Hall do Palácio Barriga Verde, uma exposição, com curadoria do museólogo Max José Muller, que traz resumida a trajetória de Jorge, contada através de fotos, citações, dados históricos e na exposição de objetos e lembranças pessoais cedidas pelos familiares.

Juntamente com a abertura da exposição, o jornalista e escritor Moacir Pereira lançará o livro “Jorge Lacerda: jornalista, humanista e estadista”. A obra tem uma longa introdução do autor sobre a vida em Florianópolis nas décadas de 40 e 50, os principais discursos e as manifestações das maiores autoridades, intelectuais e artistas que viveram com o homenageado.

Além da exposição e do lançamento do livro, será lançado o longa metragem “Centenário de Jorge Lacerda”, de autoria de Roberto Lacerda Westrupp, neto do ex-governador. Readaptação de um documentário do mesmo autor, conta a trajetória de Jorge em filmes, imagens e áudios da época. Ainda integra o trabalho depoimentos inéditos de autoridades, amigos, colaboradores e admiradores de Jorge. Roberto vem realizando esse trabalho de resgate da memória de seu avô há mais de dez anos.

Estas novas obras sobre Lacerda enriquecem o acervo disponível sobre o ex-governador.

Quem foi

Jorge Lacerda vendo a maquete do Instituto Estadual de Educação

Jorge Lacerda vendo a maquete do Instituto Estadual de Educação

Jorge Lacerda nasceu em 20 de outubro de 1914, em Paranaguá (PR). Filho de um casal de imigrantes gregos, mudou-se com a família para Florianópolis para iniciar os estudos. Formou-se em medicina em Curitiba e depois foi para o Rio, onde iniciou a carreira de jornalista, no jornal A Manhã. Na capital fluminense, além de se formar em direito, destacou-se pelo envolvimento com as artes e a literatura.

Lacerda foi deputado federal catarinense entre 1950 e 1955. Governou Santa Catarina de janeiro de 1956 — após uma das eleições catarinenses mais disputadas — até 16 de junho de 1958, quando faleceu, aos 43 anos, em um desastre aéreo nas proximidades de Curitiba, com ampla cobertura da mídia nacional.

No mesmo acidente, morreram o ex-presidente da República e ex-senador catarinense Nereu Ramos e o então deputado federal catarinense Leoberto Leal. Entre as várias ações à frente do Executivo, destacam-se a construção da primeira rodovia asfaltada feita com recursos estaduais ligando Itajaí a Blumenau, além da constituição da Sociedade Termo-Elétrica de Capivari, que posteriormente seria incorporada à Eletrosul, entre outras obras, praças, escolas e pontes que eternizam o nome de Jorge Lacerda.

(Com informações e fotos da Agência ALESC – exceto imagem da Revista Rádio Catarinente, do acervo do Instituto Caros Ouvintes)

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