Jorge Maciel – um figuraço

“Cara, passa no teu apartamento antes de seguir para minha casa e pega o CD de Caminito, com o cantor Jorge Maciel” (da crônica Amadeu Gonçalves, Uma Figura Fenomenal, de Agilmar Machado, no site Caros Ouvintes.
Por José Alberto de Souza

Migrando de Jaguarão – a mais meridional não o fossem Chuí e Santa Vitória do Palmar – para Porto Alegre, aqui encontrei vários conterrâneos nas minhas andanças pela Rua da Praia naqueles já remotos anos cinqüenta, constituindo assim turma de amigos com Edar Dutra Monteiro, Flávio Brum, Mário Teixeira de Mello, José Martins de Souza Neto, Jandir Dutra Belém, Nilton Monteiro, Jofre Vidal Dufau e outros mais que deixo de citar para não ocupar toda página com uma extensa lista de nomes.
Em nossas conversas na frente da antiga Indiana, volta e meia surgiam as advertências sobre as mordidas do jaguarense Jorge Maciel, a mais comentada de todas aquela da fiança que o Flávio Brum prestou-lhe nas Lojas Renner para aquisição de um terno de roupas e que teve de honrar do próprio bolso. Com o sumiço do Jorge, o Flávio andava no seu encalço para cobrar a dívida. Muitos até desistiam e se compraziam com a situação de vítimas, gozando-me por ainda permanecer invicto – “o Jorge anda te procurando, vais marchar”… Risada geral.
Vamos, pois traçar o perfil dessa figura marcante que ainda não foi registrada no anedotário da Rua da Praia. Filho mais moço de conceituado construtor, com decisivas influências no Partido Trabalhista Brasileiro de Jaguarão – Clodomar Maciel – e irmão de João e Clodomar Filho, todos eles veteranos jogadores do segundo time do glorioso Esporte Clube Cruzeiro do Sul, o Jorge costumava tomar os seus inolvidáveis frangos no arco da equipe estrelada, muitas vezes traído pelas atrasadas do zagueiro, seu mano João, enquanto isso o Clodomarzinho esmerava-se nos cruzamentos da ponta-esquerda, na esperança de que saísse algum gol olímpico.
Dizem que o Jorge costumava abrilhantar as noitadas nos cabarés locais, cantando tangos e boleros, muito apreciados pelos boêmios da época, entre eles Peixoto Primo, cuja orquestra de Rio Grande sempre tocava no Clube Harmonia.
Lá pelas tantas, munido de carta de recomendação do velho Clodomar para o deputado Domingos Spolidoro, o Jorge resolveu tentar a sorte na Capital. Pois bem, esse deputado conseguiu-lhe colocação como conferente de estiva no caís do Porto local. Pelo contrato de trabalho, tinha direito a faltar três dias/mês e ele interpretava como se fossem os dias em que havia de labutar, quer dizer, deveria folgar nos restantes. Assim, o deputado Spolidoro via-se em palpos de aranha para justificar as malandragens desse seu peixinho, mas sempre conseguia safá-lo das conseqüências de um desemprego iminente.
Nessa ocasião, o nosso amigo Peixoto Primo também tinha chegado de Rio Grande e se encontrava formando o seu conjunto melódico e procurando crooner. Dizem que teria se lembrado do Jorge Maciel, insistindo para que integrasse o grupo e, não sendo atendido, passou o bastão para Fernando Collares, consagrado cantor da época de ouro do rádio gaúcho.
Entra a outra década, morava eu na Pensão Familiar Ludwig, situada na Rua Andrade Neves, quase defronte aos fundos das Lojas Americanas, e me preparava com afinco para enfrentar os exames vestibulares na Escola de Engenharia. Então recebo a visita do Jorge com a sua conversinha mole, dizendo que eu não estava sabendo aproveitar a vida, que eu precisava botar uma mulher neste corpo, que as gurias do seu cabaré na Voluntários estavam ansiosas por me conhecer e coisas que tais.
E eu ali ouvindo pacientemente o Jorge e nervoso por estar perdendo tempo precioso de estudo, eis que fui surpreendido pela sua pedida: “Zezinho, vê só o meu azar, a Semana Santa está chegando, a polícia liberou a pensão para receber os castelhanos que costumam viajar por esses dias e eu não tenho uma caixa de papel higiênico, sem essa mercadoria não posso trabalhar. Vinte pila, Zezinho, já me resolve o problema”.
Agora, imaginem, se largasse essa grana toda para o Jorge, dinheiro contadinho que mal dava para cobrir as despesas, eu até passaria fome na certa. E ele regateando, ia baixando – dez pila, cinco pila – e dizia que me pagaria assim que los hermanos forrassem-lhe os bolsos. Resisti o mais que pude a essas cantadas, perdi uma tarde de estudos, quando então ele deu-me o bote fatal – “mas ao menos me dá a passagem do bonde”. E não é que ele conseguiu me batizar…
Ai vem Agilmar Machado seguiré tus pasos, Caminito, adiós na voz do cantor Jorge Maciel, nada a ver eu sei, mas mesmo assim é dose!

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