Jornadas internacionais de jornalismo

Dois assuntos têm destaque na nossa conversa desta semana: a aldeia de Mira, em Portugal e as Jornadas Internacionais de Jornalismo. Vamos começar por Mira.
Por Nair Prata

No domingo de carnaval conheci um trecho da chamada Costa de Prata portuguesa, principalmente a aldeia de Mira, que fica pertinho de Coimbra, no centro do país. Aqui em Portugal, a nomenclatura urbana é aldeia, vila ou cidade, dependendo do tamanho. Mira ainda é uma aldeia de pescadores com pouco mais de mil habitantes, mas vale a pena o passeio. O lugarejo tem escolas para todas as crianças e adolescentes, atendimento médico e um lugar próprio para assistência aos idosos e deficientes. Além disso, possui um povo hospitaleiro e simpático. Passei o dia com a família Castelhano, almocei à mesa deles a típica comida portuguesa e depois fui conhecendo a casa de cada um dos filhos, saboreando um carinhoso café com bolo. Fiquei sabendo que os pratos principais da culinária da região são: sarrabulho, pitáu de raia, favas com quinhões, sardinha, biqueirão e carapau na brasa.

Mira é uma região costeira e, à beira da praia, há toda uma movimentação de comércio e turistas. O carnaval também estava animado na aldeia, com adultos e crianças fantasiadas dançando ao som de músicas brasileiras. Lindo é o mar de Mira. A visão do oceano Atlântico é sempre grandiosa e carregada de emoção para mim, aqui. Olho o horizonte e tento enxergar atrás daquela linha a minha terra, a minha gente, a minha mãe, o meu marido, as minhas filhas. Impossível não lembrar Gonçalves Dias, que aqui mesmo em Portugal, escreveu sonhando com o Brasil: “Não permita Deus que eu morra, em que eu volte para lá, sem que desfrute os primores que não encontro por cá, sem qu’inda aviste as palmeiras, onde canta o sabiá.”
Na semana passada eu participei de um interessante encontro e quero falar um pouco dele para você, leitor do Caros Ouvintes. A Universidade Fernando Pessoa (www.ufp.pt), que fica na cidade do Porto, aqui em Portugal, realizou, no dia 23 de fevereiro, as Jornadas Internacionais de Jornalismo. O evento foi organizado pelo professor Jorge Pedro Sousa, que propôs o tema geral Horizontes do Jornalismo.
O evento foi realizado em dois ambientes distintos da universidade. No auditório, aconteceram durante todo o dia vários painéis, que falavam do tema principal. Já no salão nobre foram feitas as comunicações de artigos sobre diversos assuntos, principalmente por estudantes de doutorado. Eu participei desta sessão e apresentei o texto Os novos signos lingüísticos na Web: um estudo dos aspectos cognitivos e midiáticos sobre as cores utilizadas pelo rádio na Internet. O objetivo do meu artigo foi sistematizar argumentos teóricos sobre os aspectos cognitivos e midiáticos da cor, esse novo signo presente no rádio a partir do surgimento da Internet.

Nas comunicações plenárias pesquisadores doutores de Portugal, Brasil e Espanha falaram sobre os horizontes do jornalismo, a partir de sete enfoques: empresas jornalísticas, jornalismo impresso, radiojornalismo, jornalismo audiovisual, webjornalismo, reinvenções do jornalismo e a pesquisa sobre jornalismo. O encontro foi encerrado com uma mesa sobre os desafios da regulamentação do jornalismo.
Na mesa que mais me interessava, a do radiojornalismo, infelizmente não tivemos a presença do professor Eduardo Meditsch, um dos maiores nomes na pesquisa nesta área no Brasil. Ele não pôde comparecer ao evento e quem comandou a apresentação foi o professor Xosé Soengas, da Universidade de Santiago de Compostela, que apresentou reflexões importantes sobre o cenário que se desenha nos novos horizontes do jornalismo radiofônico.
O professor Soengas começou explicando que o formato clássico de notícia e de programa, que parece estar em desuso nos últimos anos, introduziu novas variantes de narração radiofônica. Ele citou nove fatores que influenciam esta evolução:
1. Os novos formatos informativos;
2. As inovações nas reportagens;
3. Os debates e as entrevistas;
4. A tecnologia e os media;
5. A informação como negócio;
6. A aproximação perigosa entre os media públicos e os privados;
7. O desaparecimento dos formatos puros;
8. A mistura de informação e de opinião;
9. O ensaio arriscado de novas fórmulas para atrair a atenção de um mercado saturado.
Um trecho da fala do professor Soengas que eu gostei muito foi quando ele explicou que a tecnologia é um dos principais fatores responsáveis por esta evolução nas variantes de narração radiofônica. O professor afirmou: “a tecnologia amplia as possibilidades narrativas e permite trabalhar com elementos e com técnicas novas que antes não podiam-se incorporar e que agora contribuem no processo de elaboração do discurso radiofônico, algo que ajuda a ilustrar as informações e facilita uma melhor e mais rápida compreensão dos conteúdos.”
O professor explicou também que a tecnologia permite um tratamento mais completo das notícias com foco múltiplo, com a realização de várias conexões ao vivo de forma simultânea ou consecutiva: “a tecnologia, além de facilitar o processo de trabalho, ajuda a reforçar a sensação de atualidade dos informativos, já que o ouvinte recebe as notícias quase no mesmo momento em que elas são produzidas e, além disso, existe a possibilidade de uma atualização permanente dos acontecimentos.”


E na sua opinião, a tecnologia está mudando o rádio para melhor? Ou simplesmente vai acabar com ele, transformando-o numa nova mídia? Escreva aqui a sua opinião.

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Por Nair Prata

Jornalista formada pela UFMG, Mestre em Comunicação pela Universidade de São Marcos e Doutora em Língua Aplicada pela UFMG. Trabalhos 18 anos em rádio. É professora do Centro Universitário de Belo Horizonte onde leciona no Curso de Jornalismo. Escritora, tem vários livros publicados.
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