Jornais do Grupo Globo no Rio unificam redações, demitem 30 jornalistas e enfatizam produção digital

O Grupo Globo, maior conglomerado de mídia do Brasil e da América Latina, anunciou, em 19 de janeiro, a unificação das redações dos seus jornais Extra e O Globo.

extra-globoComo parte do processo, os veículos demitiram mais de 30 jornalistas. Segundo o diretor de redação do jornal O Globo, Ascânio Seleme, a medida visa racionalizar custos e implementar mudanças “radicais”, que devem voltar o foco dos veículos para a produção digital.

A ideia é que uma equipe única otimize a produção do jornalismo, trabalhando em ‘macroeditorias’ para ambos os jornais. Uma Mesa Central de Produção de Conteúdos irá chefiar os trabalhos, segundo comunicado interno enviado aos funcionários.

Apesar da unificação, a estratégia desenhada pela consultoria Innovation determina que os dois veículos mantenham seus caráteres distintos, com diretores de redação e diretores executivos de fechamento diferentes. “Vamos preservar a identidade e o DNA de cada jornal”, afirmou Seleme ao Centro Knight.

Assim, o Extra segue um jornal mais popular, com linguagem simples, preço acessível e focado em prestar “serviços essenciais”, de acordo com descrição da própria empresa. Já O Globo, um dos jornais mais tradicionais e de maior circulação do país, continua voltado para as classes A e B.

Além da diferença na escolha de temas, os veículos têm identidades visuais e abordagens muito distintas, até mesmo em relação aos bairros. O Globo, por exemplo, cobre mais de perto a zona sul do Rio de Janeiro, região mais rica da cidade, enquanto o Extra costuma dar mais destaque à periferia.

Seleme afirma que as diferenças não serão um problema para a unificação, pois os repórteres estão aptos para escrever textos em qualquer estilo.

“Se o jornalista está na Baixada [região periférica do Rio], fazendo uma guerra de gangues, ele vai escrever já com o jeito do Extra. Se ele faz uma entrevista na bolsa de valores de São Paulo, ele vai fazer mais com o estilo do Globo. Claro que se o Globo também quiser publicar a guerra de gangues, nós vamos ter que mudar o texto. O repórter vai buscar atender o estilo do jornal para onde ele está escrevendo”, conta.

Segundo ele, algumas editorias, como País, que cobre política e assuntos nacionais, serão menos afetadas por essa mudança, pois vão produzir majoritariamente para um mesmo jornal.

“Os repórteres de País vão trabalhar muito mais para o Globo do que para o Extra, porque o foco e o escopo da cobertura deles atendem mais ao perfil dos leitores do Globo”, afirma.

Em casos em que o tema seja o mesmo para ambos os veículos, Seleme explica que os jornais vão manter uma abordagem diferenciada. Ele cita como exemplo uma alteração no sistema previdenciário. “O Globo vai dar a notícia como uma mudança estrutural. O Extra vai fulanizar, vai encontrar um personagem que se encaixe nesta história, e vai contar do ponto de vista do cidadão. O jornalismo do Extra é muito mais cidadão, o do Globo é mais de informação”.

Seleme afirma, no entanto, que não há linhas editoriais diferentes para os jornais. Ambos seguem, de acordo com ele, os Princípios Editoriais do Grupo Globo, que valem para todos os veículos do conglomerado, como CBN, Revista Época, TV Globo, entre outros. Assim, os valores são os mesmos, o que muda é o perfil do leitor, diz Seleme.

“Nós respeitamos os nossos clientes, o leitor do Globo não vai ficar feliz de ler a manchete ‘perdi meu anjo’, com uma família chorando ao redor do caixão de uma menina, como saiu no Extra recentemente. Lógico que a notícia da morte da menina é importante e está na nossa primeira página: ‘bala perdida mata menina em lanchonete’. Isso aí não é linha editorial, é enfoque de cobertura”, diz ele.

Mudanças “radicais”

De acordo com Seleme, a reestruturação tem o objetivo de enfatizar o digital. “O jornal vai continuar importante como sempre foi, mas 80% da energia da redação vai estar dedicada à produção de conteúdo digital”, afirma.

Para seguir o novo perfil, a consultoria recomendou que a redação funcionasse por ciclos, não no ritmo do papel, mas de acordo com “prime times” da notícia na internet. Com isso, a redação adotaria uma orientação digital desde a concepção da matéria até a publicação.

O diretor conta que O Globo já tinha feito uma adequação para o digital. “Nós tínhamos transferido todos os editores para a manhã, e quem fechava o papel eram os editores adjuntos. Agora nós vamos ser ainda mais radicais. Os editores vão entrar às 7h. Vamos ter uma cobertura do ciclo digital 24 horas”, disse. A unificação também será física: as redações de ambos os jornais passarão para um prédio recém-construído no Centro do Rio de Janeiro.

Segundo os repórteres ouvidos pelo Centro Knight, as mudanças causaram uma confusão inicial na redação. As demissões abalaram a equipe em um dia de notícias quentes, como a morte de um dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Demissões e crise

A reestruturação, segundo Seleme, permitiu “racionalizar os custos”. “Nós tínhamos duas equipes de fotografia, duas de vídeo, duas de diagramadores, duas de arte e assim vai. Então reunindo isso [as equipes], nós conseguimos concentrar nossos esforços no jornalismo de qualidade, abdicando de redundâncias”, disse.

De acordo com ele, a equipe final vai ter 32 pessoas a menos. Isso incluindo as contratações que estão previstas, porque, segundo o diretor, foi preciso chamar profissionais que atendessem à nova filosofia digital. Alguns dos profissionais demitidos estavam na empresa há mais de uma década e entraram ainda como estagiários, segundo o site Comunique-se.

Seleme afirma que a reestruturação foi necessária para “manter viva uma estrutura grande de jornalismo de qualidade”. O diretor explica que a empresa precisa tornar seus produtos digitais rentáveis para poder sobreviver à crise.

Assim como O Globo, os jornais brasileiros têm sofrido não apenas com a recessão no país, mas com problemas estruturais do negócio, que atingem veículos de todo o mundo. As empresas assistem a uma queda na publicidade e de vendas do impresso – e o aumento da receita com a circulação digital paga ainda não é suficiente para compensar as perdas. Isso porque, entre outros motivos, os anúncios são muito mais baratos na internet do que no papel, o que representa uma diminuição da receita para as empresas de mídia.

De 2015 para 2016, a média de exemplares vendidos de jornais impressos brasileiros caiu 18%, enquanto as assinaturas digitais cresceram 10%, de acordo com o Instituto Verificador de Comunicação (IVC). Com o orçamento no vermelho, muitas empresas de mídia buscaram cortar gastos e reduziram suas redações. Em 2016, segundo levantamento do site Comunique-se, mais de 500 profissionais da imprensa brasileira foram demitidos.

No caso do Globo, o jornal vendeu em média 193.079 exemplares de papel em 2015, número que foi reduzido para 169.673 em 2016 – uma queda de cerca de 12%. Já as assinaturas digitais passaram de 118.143 para 132.552, um aumento de pouco mais de 12%.

“A entrada de recursos através de assinatura digital não vem ocorrendo na força e na velocidade que precisamos. Nós perdemos mais do impresso do que ganhamos no digital”, afirma Seleme. Ele comenta que, no entanto, a audiência online tem sido muito alta. Segundo o diretor, recentemente, uma matéria da colunista Patricia Kogut teve 4 milhões de page views em um dia.

“É uma audiência astronômica, mas não temos a rentabilização [equivalente]. Precisamos de mais assinantes pagos”, diz ele. Por isso, o diretor defende a produção de conteúdo digital com qualidade superior, velocidade e profundidade. “Temos que fazer com que o leitor se sinta obrigado a comprar”.

(Journalism in the American, 26/01/2017)

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