Jornal de época faz nossa história

Zury Machado foi mais do que um colunista social. Foi um pioneiro do jornalismo no Estado, um historiador social que se fez história – e a cuja a memória eu saúdo, reverencio e abraço.

[ Sérgio da Costa Ramos ]

Zury e os pais, Adalgisa e Silvério

Zury e os pais, Adalgisa e Silvério

O ano de 1946 vivia a expectativa das primeiras eleições diretas para governador, depois de 1930. Aderbal Ramos da Silva foi eleito nas fraldas do recém nascido PSD de Nereu Ramos, com Adolfo Konder, Irineu Bornhausen e Aristiliano Ramos assumindo suas trincheiras na vigilante UDN.

Floripa era um remanso, uma pequena cidade mesmo entre as províncias, um presépio de 67.630 almas em 1950. Entre as aqui chegadas, em 1946, estava a de um tijucano tranquilo, que começou a vida decorando vitrines de lojas comerciais.

Comprava-se pão nas padarias de João Moritz e do Domingos Silva. Viaja-se ao Rio, que acabara de apear Getúlio depois do Estado Novo, a bordo do “Carl Hoepcke”. Navio era ainda chamado de “paquete” ou “vapor”. Publicidade era “reclame”. Bebedeira era “mona”. E a inconfundível garrafa gorduchinha de Coca Cola que era anunciada como “a melhor resposta para sua sede”.

O Plano Marshall começa a ressuscitar a Europa, mas em Florianópolis a iluminação pública era anêmica e bruxuleante, como um lampião. “De dia falta água, de noite falta luz”. O Clube Doze, fundado em 1872, já era “o veterano”. E o Lira Tênis Clube apenas uma criança, aos 20 anos de idade.

Se a leitora nasceu por essa época é bem [provável que as folhas (O Estado, A Gazeta) tenham registrado sua aparição neste mundo com uma nota em puro estilo “rococó”, cheia de adjetivos: “Em festa hoje o lar da respeitável família Souza e Silva pelo nascimento da mimosa menina Bernadete, que veio ao mundo pesando 2,200 quilos. Ao Dr. José, empresário de proa, em nossa cidade, e à Dona Emerenciana, dama de excelsas e peregrinas virtudes, os cumprimentos jubilosos desta folha”.

Foi Zury Machado o primeiro colunista social a ter seu próprio espaço e a ordenar os acontecimentos sociais nesse jornalismo romântico e familiar, numa cidade em que todos eram compadres e gostavam de acompanhar os natalícios, batizados e casamentos.

A quantos de nós o falecido Zury – cuja boa alma é hoje (28/8) reverenciada em missa às 19 horas na Capela do Menino Deus – não ungiu com os seus impressos óleos, em alguns dos tantos encontros sociais que promoveu, fosse um Baile Municipal ou um Baile Branco, marco de tantos namoros, noivados, casamentos, novos batismos – e, assim sucessivamente, durante os ciclos existenciais que plasmaram a Floripa de hoje?

Por tudo  isso, Zury Machado foi mais do que um colunista social. Foi um pioneiro do jornalismo, um historiador social que se fez história – e a cuja a memória eu saúdo, reverencio e abraço.

(Coluna publicada na edição de 28/08/2014 do Diário Catarinense)

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