Jornalismo e política podem andar juntos, um exemplo

Há 78 anos nascia em Joaçaba/SC, o radialista e jornalista Adolfo Zigelli, primeiro Secretário de Estado para Assuntos de Imprensa, do Brasil.

secretarioimprensa1975Mais do que uma curiosidade, o fato de ter aberto mão de uma carreira profissional respeitada e enaltecida durante 20 anos, por cargo político, repercutiu pelas características profissionais que eram a marca de Adolfo Zigelli: diretor de radiojornalismo da Rádio Diário da Manhã de Florianópolis, apresentador de um programa de entrevistas semanais na TV Coligadas de Blumenau, com repercussão no mundo político nacional e articulista de jornais da Capital e de cidades como Blumenau e Joinville.

Adolfo Zigelli teve participação relevante no “período que marcou o fim do jornalismo partidário e o início da crescente profissionalização”, registra Moacir Pereira em seu livro Adolfo Zigelli – Jornalismo de Vanguarda (Editora Insular, 2000).

Mesmo fazendo jornalismo político, Zigelli manteve erguida a bandeira da lisura e da honestidade. Em pronunciamento crítico à sua própria profissão, disse: “Os jornalistas não foram eleitos pelo povo. Logicamente não devem se atribuir uma missão e sim contar e comentar o que se passa. Essa tese se baseia na convicção de que no fundo, numa sociedade, a ignorância dos fatos é sempre prejudicial”.

Reverenciando a memória de Adolfo Zigelli, neste 12 de março de 2014, reproduzimos a seguir as palavras do então governador de Santa Catarina, Antônio Carlos Konder Reis, na cerimônia de sepultamento do jornalista morto em desastre aéreo em agosto de 1975.

Dois amigos, a última despedida. Adolfo Zigelli, Secretário de Estado dos Negócios da Imprensa, primeiro Secretário de Imprensa em nosso Estado e no Brasil. Como governador de Santa Catrina, Adolfo Zigelli, eu te trago, nesta hora de imensa dor, o reconhecimento, a gratidão, e já a saudade do nosso povo.

Como governador de Santa Catarina, Adolfo Zigelli, eu consigno, a hora em que te trazemos à morada derradeira, o apreço, a admiração do meu Governo.

Jornalista por vocação, mas que tiveste a preocupação de preparar-te intelectual e moralmente para o exercício de atividade tão nobre, galvanizaste, não raro, a opinião pública de Santa Catarina na defesa das causas mais justas e que mais de perto tocavam o coração e os sentimentos da nossa gente.

Pelos microfones, na televisão e na coluna dos jornais, defendeste com bravura, nobreza e altivez tudo aquilo que julgaste certo, necessário e indispensável à promoção do bem comum da terra catarinense. E não recuaste e nunca transigiste e nunca faltaste ao teu dever.

Confesso-te hoje, Adolfo Zigelli, que em meu espírito se fortalecem as qualificações para aceitar esse pesadíssimo encargo de Governador de todos os catarinense, ao ler e ouvir a tua palavra de apoio e estímulo, confiança e de fé. Tanto te admirava, nas virtudes de lealdade, coragem e fidelidade.

Num governo novo, por isso mesmo difícil e agredido no que sonhei fazer e do que hei de fazer em Santa Catrina, havia um lugar para ti, o de Secretário Extraordinário para os Assuntos da Imprensa. Ele não foi um gesto de amizade do governador. Nem outorga de um privilégio que se concede a alguém extraordinariamente dotado de inteligência e capacidade humana. Muito menos um favor ou um obséquio de natureza política.

Eras – todos sabem – independente. O cargo de Secretário de Estado da Imprensa tu o conquistaste. Pelo teu valor, pelo teu exemplo, pela tua coragem. E hoje estou aqui, Adolfo Zigelli, para agradecer-te pelo que fizeste por mim, pelo meu Governo e por Santa Catarina.

Este governo difícil, Adolfo Zigelli, que em menos de dois meses perde dois secretários de Estado. Difícil por essas perdas e por muito mais que um dia o povo catarinense vai julgar. Neste governo difícil para nós, governador do Estado, Vice-governador, secretários; governo difícil, Adolfo Zigelli, que, pelo teu exemplo, pelo teu sacrifício, há de dar dias bons de verdade, sinceridade, segurança e paz ao povo catarinense. Governo difícil que, certamente, foi o móvel do trágico desastre que te vitimou.

Quinta-feira à tarde, ao fim de nosso despacho, eu te perguntava: Zigelli, vamos ao Alto Vale do Itajaí? Vamos ao Planalto? Nossa viagem de fim de semana inclui Curitibanos, Rio do Sul e Rodeio. E tu me respondeste: “não, eu vou a Joaçaba levar a minuta do contrato para elaboração do projeto final de engenharia do acesso Joaçaba-BR 282, no traçado que atende também ao aeroporto naquela cidade. Vou com o Ivan, dar esta notícia ao povo da minha terra, fazê-lo feliz porque estou feliz”.

E assim nos despedimos…

No dia seguinte, parti para os roteiros de fim de semana, que vão continuar, Adolfo Zigelli, apesar de tua falta que será sempre sentida. E tu, esperando teu irmão, teu companheiro f=de sempre! Eram tão amigos que pareciam gêmeos. Nunca me lembrei de ti, sem me lembrar do Walter. E tu te preparaste para, com ele, cumprir o teu dever e o dever do meu Governo, no Vale do Rio do Peixe.

Mas, para nos provar mais uma vez, para experimentar a nossa coragem, o nosso poder de decisão, a nossa firmeza, o nosso caráter, aquilo que procurávamos conquistar a cada cinco minutos – pois não é mercadoria que se estoque ou que se possa guardar – Deus quis que tu partisses, que não continuasses.

E porque, Senhor, nos tiraste em hora tão decisiva para a nossa ação, Adolfo Zigelli, a sua autoridade, a sua inteligência, o seu coração, a sua lealdade, a sua generosidade, tudo que ele era, o amigo, companheiro, o porta voz legítimo de um Governo que quer ser em todos os momentos autêntico e legítimo, portanto.

Por que nos tiraste? Certamente para nos provar. Para exigir de nós mais sacrifícios. Para medir a nossa capacidade de suportar a dor. Para saber se somos capazes de resistir à tudo, para poder cumpri o nosso dever. Para experimentar se valemos pela nossa capacidade de renúncia, pelo desejo de nos aperfeiçoar dia a dia. Certamente, só por isso, Adolfo Zigelli, Deus nos tirou a ti, numa hora alta para tua vida profissional, doce e boa para tua vida íntima, para vida da tua família e para aqueles que te eram mais caros e amados.

Adolfo Zigelli, nós vamos prosseguir. Se Deus nos tem experimentado tanto nestes poucos meses de Governo, nós confiamos que Ele no dê todas as forças para seguir o teu exemplo. Lembrando sempre a tua figura exemplar, tomando como lição aquilo que exemplarmente escreveste, nós vamos prosseguir. E a tua lembrança, a tua memória, o teu exemplo e a nossa saudade conosco prosseguirão.

Adolfo Zigelli, morreste no Vale do Rio do Peixe, bem perto da terra que te viu nascer. E baixaste à sepultura, na Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, terra e cidade que tanto amaste.

Como Governador do Estado de Santa Catarina, como teu amigo, Adolfo Zigelli, eu te digo, comovido e triste, eu te digo, de alma e coração: ADEUS.

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