Jornalismo & Publicidade: isso pode?

Primeiro foi Fátima Bernardes que virou salsicha. Agora é o estranho caso do jornalista Pedro Bial que virou corretor de vendas de carro. Fátima vendeu salsicha depois de sair do jornalismo para dançar todas as vezes em que apresenta seu programa matinal de amenidades, Encontro, divertindo as donas de casa ( ainda existem?) enquanto cuidam de outra coisa. Bial começou a vender carro depois que Fátima Bernardes teve permissão para receber R$ 5 milhões e virar notícia, ela própria, em páginas inteiras de jornais ao lado de coxas e sobrecoxas enquanto as folhas ao lado se encarregam de fazer jornalismo.

Mas o caminho de Pedro Bial é tortuoso. De correspondente internacional ele virou animador do Big Brother Brasil e nos intervalos apresenta o programa Na Moral – depois de BBB, não sabemos com qual. No meio do tempo filmou Jorge Mautner, O Filho do Holocausto, com Heitor D’Alincourt. No Fantástico de domingo (17/5) Bial voltou a Londres não como correspondente, mas como jornalista para narrar o show de Roberto Carlos gravado nos estúdios dos Beatles em Abbey Road, onde o rei deu uma palinha: “O amor está sempre em alta, quem ama quer ser amado”. Profundo. Faltou a doleira Nelma Kodama cantando “Amada Amante” sobre seu romance com o doleiro delator premiado Alberto Youssef.

Que delícia o jornalismo brasileiro. Roberto Carlos é a favor da censura aos biógrafos, mas quem foi rei será sempre majestade e coroa até uma sessão solene da CPI da corrupção do Lava Jato. Virou notícia. Bial, alguns momentos depois de vender Fiat na televisão, no mesmo canal entrevista o rei em Londres, ali onde a Globo tem sua sede europeia e onde o jornalista produziu muita matéria internacional, inclusive a surpreendente queda do muro de Berlim e o fim da URSS. Isso, antes. Mas depois do BBB já participou de entrevista de político e fez matérias como a morte do papa na Polônia e um especial sobre Lech Walesa e o Solidariedade. Isso pode?

Viva o espetáculo

Numa entrevista ao Último Segundo em 2012, quando o BBB completava 10 anos, Bial admitiu: “O Brasil é muito confuso em relação à moral”. Noutra entrevista, dizia: “No BBB esqueci o jornalista”. E também que o motivo do sucesso do reality show foi ter sido feito “com fé, vontade e honestidade”.

Como disse o filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard, diante de um reality show o espectador assiste a vida dos outros como se fosse a própria, e de zapping em zapping, para ficar na mesma. É McLuhan quem tinha razão, o meio realmente engoliu a mensagem.

Talvez vender salsicha ou vender carros com fé, vontade e honestidade torne doce a vida de jornalista. Isso pode? Mas como ter moral para voltar ao jornalismo? A concorrência com Xuxa, com a viúva de Senna, Adriane Galisteu, Ana Maria Braga e Serginho Groisman é um caminho sem volta para o jornalismo – ou deveria ser.

Misturar iê-iê-iê com notícia espetaculariza o jornalismo e ninguém sabe mais se é tudo mentira… ou tudo verdade. O jornalismo está tão desprestigiado, e a nova safra de jornalistas tão mal informada, que o caldo engrossou com o de-tudo-um-pouco. Jornalismo sério? O que é isso? E quem emprega esse jornalista sem o atrativo do espetáculo?

Estamos regredindo e perdendo o espaço que ganhamos quando, lá atrás, jornalista era recebido na cozinha e ganhava do entrevistado o dinheiro da viagem. Numa entrevista à Folha de S. Paulo (18/5/2015) o sociólogo espanhol Manuel Castells acertou quando disse que a imagem mítica do brasileiro só existe no samba. Ainda não sabemos onde vai parar a imagem mítica do jornalista brasileiro.

Por Norma Couri, Observatório da Imprensa, 20/05/2015

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