Jornalista / Escritor: O nascimento de um livro

Silveira Júnior
Naquele tempo a atual Rua Vidal Ramos chamava-se 28 de Setembro. Era o anão de 1938. Na Loja Maçônica Regeneração Catarinense (ainda hoje existente ao lado d entrada do CEISA Center) funcionava a Escola de Datilografia Pedro Bosco, que eu frequentava. Era seu diretor o meu dileto e fraterno amigo Antônio de Pádua Pereira, que hoje representa a Secretaria do Oeste na Capital do Estado. Aliás, quero abrir um breve parêntese para louvar as virtudes cristãs do Antônio de Pádua, tão bom e tão santo como o seu homônimo italiano. Basta dizer que conseguiu atravessar uma já mais ou menos longa existência sem um inimigo. Pois eu garanto que se ele tiver um inimigo é alguém que recebeu grandes favores dele, o que, aliás, é a única coisa que o Antônio sabe fazer: favores. Ele era maçom, desses que amansam bode em sexta-feira de chuva.

Venerável com muitas dezenas de graus. Um dia eu lhe confessei que gostaria de ser maçom e ele me disse: “Deixa isso pros outros”. E deu uma risada breve e quase inaudível, como é do seu costume.

O Antônio me disse: “Tu estás aprendendo datilografia e o Tito Carvalho tem um livro inédito por falta de quem lhe datilografe os originais. Quem sabe se eu dito e tu passas a máquina esse livro”?

No dia seguinte, fomos à casa do Tito Carvalho e lhe explicamos que pretendíamos datilografar o seu livro. O Tito então me disse: “O Antônio já conhece o livro, mas tu não conheces”. E pegou aquela maçaroca de papel escrita com a sua letra redonda e inconfundível e começou a ler quase declamando a “Luta de Touros”. Jovem que eu era, encantei-me por aquele episódio, realmente o mais belo momento do livro, e me felicito até hoje porque penso que aquela página é a coisa mais linda que já se escreveu em linguajem regional brasileira, incluindo as produções do mestre Simões Lopes Neto.

Eu já trabalhara com o Tito Carvalho no antigo Diário da Tarde, que naquele tempo era do doutor Adolfo Konder, mas o nosso relacionamento era de diretor para revisor. Nunca faláramos em nada que não fosse ligado ao nosso serviço na redação. Na verdade, eu sabia que Tito era um jornalista elegante e correto, mas ignorava que fosse um estilista da mais pura estirpe.

A experiência posterior demonstrou que o nosso plano teria que ser modificado. A minha datilografia era muito precária. Acenamos então que eu ditava e o Antônio passava para a máquina. E assim, em muitas noites, dois jovens, no silêncio da Antiga Loja Maçônica, permitiram que Tito Carvalho publicasse o seu admirável Bulha d’Arroio, quarenta anos depois, ainda é considerada um clássico da nossa anêmica literatura.

Nós nos empolgávamos tanto pelo poder descritivo de Tito Carvalho que a cada página datilografada Antônio de Pádua fazia uma pausa para ler em voz alta. Ainda hoje me lembro de frases inteiras do livro. Mas apenas não entendo porque motivo dois moços (um de vinte anos, outro de pouco mais) haveriam de dedicar muitas horas noturnas a datilografá-lo.

Eu digo que não entendo, mas entendo: nós ocupávamos o tempo nessas coisas porque não tínhamos dinheiro, nem automóvel, nenhuma televisão para distrair a nossa ociosidade. ((Publicado em A Ponte – 2ª semana de outubro de 1979 e no livro Imponderáveis do Destino lançado pela Academia Catarinense de Letras, em 2010. Pesquisa e organização de Lauro Junkes).

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