Jovem, desculpe-me

Olhaí, hein…? Você se formando…! Olha você fazendo parte de um grupo que, esperançosamente, aguarda um mundo melhor. No entanto, hoje, é um dia dos pais pedirem desculpas. É. Responsabilidade imensa a de apresentar desculpas, meu jovem esperançoso.
Hoje, estou aqui para isso mesmo. Não só para as minhas desculpas, mas de toda uma geração. Uma geração que deixou acontecer. Uma geração que está deixando para você, aquilo que não queria deixar.

Não somos culpados totalmente, mas somos culpados. Às vezes as coisas acontecem sem que a gente participe diretamente. Mas está aí, a culpa. Não participamos, por quê? Porque estávamos preocupados com outras coisas, como o lazer, o ganhar dinheiro e fomos deixando a corrupção tomar conta de um mundo que iríamos, como agora, deixar prá vocês. As desculpas que pedimos não se referem apenas à corrupção que campeia, às matas destruídas, os mares quase morrendo, a terra pedindo socorro, o efeito estufa, o ozônio destruído, as crianças morrendo de todas as doenças curáveis, morrendo de abandono na Somália, em Bagdá, nos hospitais sem leitos, em palafitas, embaixo das pontes, nas encostas dos morros, de bala perdida ou de chuva, ou ali na esquina da nossa principal avenida, defronte à Igreja de todos os Credos, queimados, de fome, sozinhos.

As desculpas que pedimos hoje se referem, também, ao esquecimento que tivemos de vocês. E, muitos, esquecidos de serem amados foram ser afilhados de contrabandistas, dos vendedores de drogas e, drogados, também se tornaram. Se houvéssemos nos lembrado de abraçá-los todos os dias, não deixaríamos que nada disso acontecesse. Teríamos defendido com muito mais força, com muito mais garra, o sistema democrático de governo, com o nosso voto mais consciente e, através disso, dessa atitude, teríamos , na realidade, ajudado a construir um Brasil melhor , mais humano, como muito mais árvores, mais esperança. Teríamos legado a você, o mundo ideal.

Mas nem tudo está perdido. Você é essa renovação de vida, a esperança de um mundo melhor, a recuperação total dos erros que praticamos. E que não foram poucos!

Você poderá, o entanto, contar conosco, no pouco que nos resta de entusiasmo. Normalmente é assim, como os antigos diziam:

– quando criança, o pai é herói.
– quando jovem, careta.
– quanto mais velho, ultrapassado.
– quando bem velho, saudade.  Aquela história do “meu pai tinha razão”.

Queremos que vocês reconstruam o que estiver errado, mas que não tenham receio de nos procurar. Seremos a eterna ajuda. Mesmo depois que passarmos totalmente.

Por favor, limpem o que sujamos e o que deixamos sujar. Sonhem o que deixamos de sonhar…

Do livro FOLHAS SOLTAS


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Por Donato Ramos

Radialista desde quando estreou ao microfone da Rádio Clube de Paraguaçu Paulista, na década de 1950. Trabalhou nas principais emissoras de Rádio do Paraná e Santa Catarina atuando na locução, produção e direção artística. Tem dezenas de livros publicados sobre rádio e jornalismo. Atualmente se dedica a ações filantrópicas.
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