Landell de Moura – Pioneiro na transmissão da fonia – 2

RádioDOC | Pesquisa

Em 1904 o físico inglês John A. Fleming (1849-1945) descobriu a retificação usando eletrodos em vácuo. Sua invenção se restringiu basicamente à adição de mais um eletrodo à lâmpada de filamento de Thomas Edison (1847-1931), o “mago da luz”. O filamento aquecido emite elétrons para o vácuo e, se o eletrodo adicional for polarizado positivamente em relação ao filamento, eles criarão uma corrente entre o filamento e o eletrodo. Se a polarização for invertida, não há passagem de corrente, pois o eletrodo adicional não aquece e seus elétrons ficam sem energia para escapar. Normalmente o eletrodo adicional (anodo) é em forma de placa plana ou de tubo com catodo coaxial. O catodo era o próprio filamento ou outro eletrodo aquecido pelo filamento. Embora mais confiável que os diodos de galena, o dispositivo também não amplificava sinais, exigindo transmissores potentes e curtas distâncias de recepção.

Sabendo que a condutividade elétrica das chamas de gás é afetada pelas ondas eletromagnéticas, em 1906 o físico norte-americano Lee De Forest (1873-1961) construiu um detector. Era uma ampola de gás em baixa pressão, também com filamento quente (anodo) e placa de catodo, mas com um fio isolado, enrolado do lado de fora da ampola e ligado à antena. O anodo e o catodo se ligavam a uma bateria em série com o fone de ouvido. A incidência de ondas eletromagnéticas sobre a antena causava flutuações na corrente anodo-catodo, produzindo sons no fone de ouvido.

No ano seguinte, 1907, Forest foi além e, em vez de enrolar o fio na parte externa, adicionou dentro do tubo, entre o anodo e o catodo, um terceiro eletrodo, sob a forma de um fio ondulado em ziguezague, paralelo à placa do anodo. Esse eletrodo, denominado “grade”, também era ligado externamente à antena, sem polarização externa. O físico, que chamou seu dispositivo de audion (áudio+íon), dizia que o vácuo não deveria ser perfeito, pois íons gasosos também participariam do fenômeno de condução entre eletrodos. Se o vácuo fosse total, o audion não funcionava. Dependendo da pressão residual, ele era bastante sensível. Foi o primeiro detector no qual o fone de ouvido não ficava em série com a antena, podendo o receptor ser sintonizado com maior facilidade e sensibilidade.
 
Landell de Moura obteve uma patente brasileira, em 09 de março de 1901, para um “aparelho destinado a transmissão phonetica à distância, com fio ou sem fio, através do espaço, da terra e do elemento aquoso”, e em 11 de outubro de 1904, no The United States Patent Office, em New York, obtém a patente de nº 771.917, do Transmissor de Ondas, precursor do rádio.

O grande mérito de Forest – famoso pela frase “Não sei por que funcionou, mas funcionou” – foi colocar o terceiro eletrodo ao tubo. A partir dessa descoberta, ele e outros pesquisadores deram início a uma corrida de patentes para encontrar novos detalhes que melhorassem a confiabilidade do detector. O engenheiro norte-americano de origem austríaca Fritz Lowenstein patenteou o uso do audion com polarização negativa da grade, chamando-o de triodo. Já o engenheiro e químico norte-americano Irving Langmuir (1881-1957) notou que o audion ficaria mais estável se a polarização negativa ocorresse em alto vácuo. Em 1914 o também engenheiro Edwin H. Armstrong (1890-1954), nascido em Nova York, descobriu a possibilidade de aumentar a sensibilidade dos triodos com um circuito de regeneração, tornando possível criar mais tarde circuitos amplificadores e circuitos osciladores sintonizados. A regeneração consiste em colocar na entrada do amplificador (grade) parte do sinal de saída, para aumentar o ganho do sinal de entrada.
      
Com os osciladores de triodo, foi possível substituir os transmissores de rádio que funcionavam com faiscamento dos pólos de alternadores por transmissores com osciladores de triodo, viabilizando o surgimento do rádio sintonizado com alta confiabilidade. Os triodos (também chamados de válvulas ou tubos) possibilitaram ainda o aparecimento da telefonia por cabos transcontinentais, da radiodifusão, da televisão e dos primeiros computadores.

Pode se afirmar então que a invenção do audion, 100 anos atrás, marcou o surgimento da eletrônica. Embora tenham sido substituídas por transistores, em 1948, e pelos circuitos integrados, em 1959, as válvulas anda são utilizadas em algumas aplicações especiais, como por exemplo, em transmissores de alta potência, porém não é correto afirmar que o italiano Guglielmo Marconi descobriu o rádio da forma como conhecemos hoje – um veículo de comunicação basicamente de transmissão da voz.

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