Lazinho: craque no futebol, no rádio e na política

No futebol, Lazinho foi um grande meia-armador. No rádio, um senhor construtor. Na política, como Evelásio Vieira, também fez grandes jogadas.

Evelásio Vieira, LazinhoNo início dos anos 1950, acompanhei um pouco da carreira do jogador de futebol, Lazinho. Ele gostava de atuar ao lado de Bastinhos, um centro-avante que também jogava bonito. Chegaram a defender a seleção do Estado de Santa Catarina e o extinto Palestra Itália (Palmeiras) de Curitiba.

Passam os anos, ele abandona o futebol e se lança como radiodifusor. Em 1958, fundou a Rádio Tabajara de Blumenau, que logo a seguir recebeu o nome de Rádio Nereu Ramos. A troca de nome foi feita por Lazinho em homenagem póstuma ao grande político catarinense (*), o de maior projeção no cenário nacional, que morreu num acidente de avião em São José dos Pinhais, município sede do aeroporto de Curitiba, no Paraná.

Em 1963 tive o prazer de conhecer Lazinho pessoalmente e com ele trabalhar na sua Nereu Ramos, colaborando numa reformulação de programação e especialmente na reorganização da discoteca da emissora. Foram uns poucos meses de boa convivência com os profissionais integrantes daquela já importante rádio catarinense.

O empresário Evelásio Vieira – o Lazinho – era primoroso quanto ao cumprimento de obrigações trabalhistas e ao pagamento em dia dos salários acertados com o pessoal contratado. Pontualmente, toda sexta-feira, os funcionários poderiam retirar um vale referente a semana trabalhada, caracterizando–se assim como pagamento de salário semanal, obviamente para aqueles empregados que assim quisessem.

Lembro também de uma lição de Lazinho referente ao tempo, que eu achava longo demais na abertura de uma vinheta que antecedia a edição extraordinária de notícias. Um dia, ele fez questão de me levar até o barranco de um rio aonde mulheres, senhoras donas de casa, passavam a tarde lavando roupas e ouvindo o rádio bem distante, ligado na Nereu.

Ao soar a característica musical que identificava o informe extraordinário, a maioria daquelas mulheres subiu o citado barranco e se dirigiu para perto do receptor a fim de ouvir o relato do locutor-noticiarista. Esse ensinamento serviu para que eu, no futuro, ao produzir vinhetas, não economizasse muito no tempo de sua duração, mesmo que a modernidade assim exigisse.

A Nereu Ramos que até hoje mantém enorme espaço de sua programação para programas informativos e transmissões esportivas, nos anos 60/70 se destacou sobremaneira fazendo um grande rádio esportivo em Santa Catarina. Na sua equipe esportiva pontificaram nomes expressivos do rádio sulino.

A começar pelo paranaense Altair Pimpão, que lá se firmou como narrador-esportivo e depois alçou carreira como radialista eclético, conseguindo trabalhar com sucesso na Alemanha. Ele, que, hoje, ainda está na ativa em Blumenau com a sua original TV Galega, relembra um pouco da trajetória da Nereu e de seu idealizador Evelásio Vieira, o saudoso Lazinho:

“Lazinho começou pequeno e enfrentando as poderosas Emissoras Coligadas de Santa Catarina, que tinham seis rádios na região. Pois trabalhando como mineirinho, foi galgando os degraus do sucesso e conquistou a audiência blumenauense com a sua Rádio Nereu Ramos. Se Jânio Quadros não tivesse anulado as concessões dadas no apagar das luzes do Governo Juscelino Kubitscheck de Oliveira, Lazinho teria colocado no ar uma emissora de televisão em Blumenau já no início da década de 1960.”

Além dos profissionais importados dos Estados vizinhos, Rio Grande do Sul e Paraná, a Nereu revelou muitas “pratas da casa” como João Pedro Correia, conhecido como Jota Pedro, repórter-esportivo que, depois, ganhou fama em Curitiba, cresceu profissionalmente e criou asas internacionalmente, tendo voltado ao Paraná, onde deslanchou no setor de comunicação empresarial. Ele não esquece os bons tempos da rádio de Lazinho:

“Para quem, como eu, saindo da modesta Rádio Clube de Gaspar, e chegava à cidade grande (Blumenau), o grande aprendizado que tive com o Lazinho foi de que rádio pode ser um bom negócio desde que tocado profissionalmente. A sua busca permanente de profissionais para melhorar a programação da Rádio Nereu Ramos fazia dele um atento observador do que se passava no rádio brasileiro. Instigante como jornalista, criativo, ousado e persistente como diretor, Lazinho representou uma página importante na história do rádio catarinense”.

O jornalista Álvaro Correia – filho de Gaspar, assim como seu irmão Jota Pedro –, também trabalhou na Rádio Nereu Ramos por muitos anos – chegou a se eleger vereador e depois deputado estadual – acompanhou o início e o sucesso da carreira de Evelásio Vieira, o popular Lazinho, como radiodifusor e político:

“A história do rádio em Blumenau tem duas fases distintas: antes e depois de Evelásio Vieira, o Lazinho, entrar em cena. Fundou a Rádio Nereu Ramos e em pouco tempo dominou a audiência no Médio Vale do Itajaí graças a uma programação inteiramente voltada para a comunidade e apresentada por profissionais sérios e responsáveis. Se é verdade que usou muita prata da casa para formar seu elenco, sempre contou, entretanto, com radialistas de destaque, principalmente de Curitiba, os quais fizeram a diferença. Incentivando com programas especiais as tradições culturais da cidade e da região, como as bandinhas e as festas dos clubes de caça e tiro, a Nereu manteve sempre uma expressiva liderança. Sem se transformar numa rádio eminentemente política, entretanto mostrou uma força impressionante em vários pleitos eleitorais.
O próprio Lazinho foi o maior beneficiário da força da sua rádio, pois em 1967 se elegeu deputado estadual. Em 1969, prefeito de Blumenau e em seguida senador da República, derrotando o ex-governador de SC, Ivo Silveira. Teve brilhante atuação no senado de 1975 a 1982. Depois de senador, Lazinho assumiu ainda dois cargos públicos importantes: o de superintendente da SUDESUL, com sede em Porto Alegre e o de Secretário da Indústria e do Comércio de Santa Catarina, no governo Pedro Ivo”.

Outro narrador esportivo curitibano, Sylvio Ronald, fez parte da famosa equipe da Nereu Ramos, no mesmo período em que eu lá estava. Ele fala com carinho sobre seu ex-empregador, Evelásio Vieira:

“Conheci o Lazinho quando ele ainda jogava futebol pelo Palestra Itália de Curitiba. E jogava bem. Anos mais tarde voltei a encontrá-lo como homem de rádio, melhor dizendo, como dono de rádio. E foi justamente nesta área que mais se destacou. Foi um empresário ousado, beirando o visionário quando levou sua Rádio Nereu Ramos a liderança inconteste na sua região, o rico Vale do Itajai. Destacou-se também na política, sendo deputado estadual, prefeito de Blumenau e senador por Santa Catarina. Apesar de todo o sucesso pessoal sempre foi o mesmo. Simples, sonhador, dinâmico, mas acima de tudo, um grande amigo.”

Edemar Annuseck, com passagens por importantes emissoras do país (hoje é da equipe da Record, de São Paulo) começou sua carreira de narrador-esportivo na Nereu Ramos:

“Lazinho sabia como unir os funcionários e prestigiá-los. Lá por 1965 comprou um Equalizador Supersom para colocar no ar as transmissões esportivas. Com a presença de um técnico da Supersom, que veio especialmente de São Paulo, o aparelho foi inaugurado num determinado domingo. Ao lado do técnico, estava nada mais nada menos que Jeder Reinert, o nosso professor Pardal que atendia todas as rádios da região.
Nesse dia aconteceu uma jornada esportiva “sui generis”. Eu abri a transmissão em Joinville desde o estádio Ernesto Schlemn Sobrinho com Caxias e Olímpico, de Blumenau. Ao final da abertura com o slogan “O Esporte anda e a Nereu comanda”, entrou o Alfredo Otto Flatau, diretamente do estádio do Guarani, em Blumenau. E, pela ordem, Álvaro Correa, do estádio Augusto Bauer, em Brusque, Edson Luiz (Luiz Perrone Pereira), do estádio Curt Hering (SD Vasto Verde), na Velha, Moacir Galiani, do estádio Proletário do Amazonas EC, na Garcia e por último Rubens Olbrisch no Plantão Esportivo. Para a época, foi um marco na história do rádio de Santa Catarina. Não falhou nenhum posto.
Resultado: ao final da jornada esportiva, o Lazinho foi ao microfone para cumprimentar a todos, anunciando que o fato seria comemorado condignamente na segunda-feira. E na segunda-feira, à noite, ofereceu um jantar para toda a equipe na Churrascaria Adolfo, na Rua 7 de Setembro, defronte ao Colégio Sagrada Família.”

O último dos depoimentos é de Evelásio Paulo Vieira, primogênito de Evelásio Vieira, que ao lado de outros dois filhos de seus filhos, Edélcio e Edelci, dirige o grupo a Força do Rádio, de Blumenau:

“Evelásio Vieira era um autêntico empreendedor. Sempre foi movido pela crença da vitória. Corajoso e visionário. Assim, investia em profissionais de grandes centros. Além do elemento novidade na programação da Rádio Nereu, esses profissionais transferiam uma experiência valiosa para a equipe. A busca por uma rádio mais forte, potente, de grande cobertura, também foi uma constante de Evelásio Vieira. Foi por esta determinação que hoje a Nereu é a emissora AM mais potente de Santa Catarina, com 25.000 watts. O envolvimento comunitário da Rádio Nereu sempre foi muito intenso, Lazinho liderava pelo microfone muitas campanhas: ensino superior no interior de SC (FURB Blumenau), BR 101, criação de Escolas Técnicas etc. Mais tarde projetou-se como líder político, foi deputado estadual, prefeito de Blumenau, senador da República e secretário de Estado. Os princípios de uma rádio democrática, independente e comunitária foram deixados por Evelásio Vieira. E esta visão, nós, seus filhos, mantemos sempre viva em nosso dia a dia”.

O grupo Vieira, A Força do Rádio, é formado pela Nereu Ramos, AM 760 (51 anos de existência em 2009), 90FM, fundada em 1988 e desde 2002 conta também com a mais antiga emissora de AM (1.330) do Estado catarinense (77 anos no ar), a tradicional Rádio Clube (PRC-4), primeira a surgir no Estado de Santa Catarina em 1932 (77 anos no ar) e a quarta emissora do interior do Brasil.

(*) Nereu Ramos – Presidente do Brasil de 11/11/1955 a 31/1/1956
Nasceu em 3/9/1888 – Lajes, Santa Catarina. Morreu em 16 de junho de 1958, em desastre aéreo. O avião, um Convair da Cruzeiro do Sul, procedente de Florianópolis, acidentou-se em São José dos Pinhais, durante a manobra para o pouso.

FINAL, DOIS PONTOS:
1. A tenacidade e vida exemplar foram legados por Evelásio Vieira, o grande Lazinho, que seus filhos estão seguindo e
2. Para radiodifusores e radialistas a certeza que o “rádio é um bom negócio desde que tocado profissionalmente”.

craque no futebol e radiodifusor de sucesso

Lazinho: craque no futebol e radiodifusor de sucesso

PS – Recomendo: os caros ouvintes leitores de Blumenau ou aqueles amigos que eventualmente estiverem de passagem por aquela simpática cidade, podem assistir à exposição “A força do rádio: a história do rádio em Blumenau”, promovida pelas emissoras que integram o grupo Vieira. Local: pavimento térreo do Shopping Neumarkt (Av. Sete de Setembro, 1213).Vai até o dia 10 deste mês de maio.

2 respostas
  1. Edélcio José Vieira says:

    Caro Jair, A paixão pelo Rádio foi um dos grandes legado que Lazinho nos deixou.
    Sabemos da grande contribuição que o Rádio deu para o desenvolvimento do País e da contribuição que a Nereu deu para o desenvolvimento de Santa catarina.
    Em nome da família agradeço as palavras generosas escritas por você em reconhecimento do trabalho de Lazinho.
    Tudo o que foi escrito é parte da vida de nosso pai.
    Obrigado

    Edélcio Vieira

  2. viviane says:

    olá, Edélcio. Estou fazendo uma matéria sobre a imprensa catarinense e gostaria de entrevistá-lo sobre a rádio. Qual o seu email ou telefone?
    Obrigada,

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