Legado e lições de Salim Miguel

Dezembro de 1979 se aproximava e a noite já fatigava a redação de O ESTADO, quando o telex anunciava o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, o poeta grego Odysséas Elýtis, de quem eu e o restante da redação nunca ouvimos falar.

 

Liguei para a casa de Salim Miguel que bastou ouvir o nome Elýtis para referenciar quatro de suas obras e alguns detalhes de sua vida. O ESTADO foi o único jornal do país a publicar, no dia seguinte, uma matéria diferenciada sobre o poeta grego, graças ao que denominávamos de “enciclopédia Salim Miguel”.

Salim foi além da consagração de um dos melhores escritores brasileiros. A sua contribuição à cultura catarinense singularizou o trabalho que ele desenvolveu já a partir da década de 40, quando liderou o Grupo Sul, que se transformou no movimento com a repercussão e efeito de uma agitação artístico-literária sem precedente no Sul do Brasil, culminando com excelentes publicações e a produção do primeiro longa-metragem, O Preço da Ilusão. Santa Catarina despertava-se para uma cultura rica, com valores excepcionais. O Grupo Sul projetou nomes que até então viviam submersos em um estado desligado da vida cultural dos grandes centros brasileiros.

Em 1981, ainda perseguido e ameaçado de ser expulso do serviço público federal pela ditadura militar, Salim Miguel chorou ao ser informado de que o reitor Ernani Bayer e os pró-reitor Silvio Coelho dos Santos, Hamiltom Savi e Álvaro Reinaldo de Souza avalizaram a sua transferência da Agência Nacional para a UFSC. O sôfrego escritor e jornalista agitava a Universidade com ideias e propostas. Modernizou a Editora UFSC construindo um prédio de três andares, além de valorizar a produção cultural e científica, e promoveu eventos que transformaram o campus em um ambiente de cultura, onde desfilaram grandes escritores, como Afonso Romano Sant’Ana, Paulo Leminski, Mário Quintana, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Gilberto Mendonça Teles, Antonio Calado, Domício Proença, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Sabino, Joel Silveira e outros, todos seus amigos.

O turco irriquieto multiplicava-se em tão pouco tempo com uma vasta produção. Além de livros, produzia resenhas e críticas literárias; consumia mais de dois livros por semana e brilhava com ideias sempre inovadoras. A comemoração dos 150 anos da imprensa catarinense movimentou a UFSC em uma semana, com Mino Carta, Barbosa Lima Sobrinho, Cícero Sandroni, Alberto Dines, Villas Bôas Correia, Carlos Heitor Cony e tantos outros. Na gestão do prefeito Sérgio Grandem, Miguel assumiu a Fundação Franklin Cascaes e deu vida à cultura da Ilha.

Salim Miguel, nascido no Líbano e criado em São Miguel (Biguaçu) e em Florianópolis, deixa-nos um legado imensurável. E a sua grande lição foi a de ser um humilde ser inteligente, sempre disposto a ouvir, aprender e a ensinar.

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