Lembranças de Florianópolis

Valério Fabris lembra do tempo que morou na capital catarinense e como esta passagem influenciou seu trabalho na Rádio Inconfidência (MG)

[Valério Fabris*]

Robertinho-Silva

Uma cidade espalhada, a mais dispersa entre todas em que morei. Nasci em Cachoeiro de Itapemirim (ES). Depois, finquei residência em Vitória, Hornell (EUA), São Paulo, Rio, Curitiba, Brasília e, já há duas décadas, nesta Belo Horizonte, cidade-sede da Rádio Inconfidência, fundada há 78 anos.

Capa-livro-O-GIGANTE-DO-AR-page-001Citadino por inteiro, adepto sou da urbe entrelaçada, misturada. O que me fascina é quando tudo se mescla: a moradia, o trabalho, o lazer, a circulação. Por isso aprecio, deveras, Nova York e Paris. Nos sete anos de Florianópolis, senti a ausência do centro, de uma região gregária, do balé das gentes, dos sons e cores nas calçadas de uma ‘cidade ao alcance de um homem a pé’, como define o amigo Jaime Lerner. Por isso, fiz do Box 32 uma ilha dentro da grande ilha, o pequeno palco das relações humanas, no jeito ‘face a face’.

Colecionei muitas razões para ver em Beto Barreiros o maior prefeito de Florianópolis, com a vantagem de vitalício ser. Dos prefeitos com mandatos pré-estabelecidos, mantive com Sérgio Grando infindáveis conversas, e o tempo nos fez amigos para sempre. Dos governadores, apenas com Pedro Ivo Campos travei periódicas – e às vezes longas – trocas de ideias, inclusive na residência oficial da Agronômica. Havia o alinhamento dos astros, com Júpiter na casa 9.

O timoneiro da secretaria de comunicação do Palácio Cruz e Souza era o professor Antunes Severo, soma de competência e sensibilidade máximas, o homem certo no lugar certo. Gosto das políticas, mas, todavia, nutro escasso apreço pelos políticos personalistas, clientelistas, coronelistas e de precário senso ético, como os que fervilham por todos os cantos desta pátria de inarredáveis raízes ibéricas.

Assim, entre mim e os políticos em geral houve falta de assunto. As exceções foram, em Florianópolis, Pedro Ivo Campos e Sérgio Grando. Deixei a ilha logo depois de Vilson Kleinubing assumir o governo do Estado. Sabia das imensas qualidades dele. Nosso convívio, porém, acabou sendo mínimo. Eu estava de partida para Belo Horizonte, no final de 1994.

Em meio ao frenesi e ao burburinho do Box 32 achava um canto para prosear com Aldírio Simões, Jair Hamms, Valdir Alves, Oldemar Olsen, Mazinho do Trombone. Converteu-se no ponto de encontro de chegada dos amigos que vinham de fora: os jornalistas da imprensa nacional, o pessoal de Blumenau, como Horácio Braun e Edson Luiz Maba; de Joinville, como Odete Nery, Ricardo Eduarte Pereira, Orlando Maretti; de Criciúma, como Patrícia Brandão; de Chapecó, como Marcos Bedin; de Curitiba, como Jaime Lerner, Dante Mendonça, Sérgio Mercer, Nireu Teixeira, Jaime Lechinski e Leila Pugnaloni, Paulo Leminski.

Quem sabe, em um dia qualquer, Florianópolis transformará a sua região central em um vasto Box 32, com livrarias, sebos, cafés, confeitarias, bares, ateliês, galerias de arte, rendeiras, floriculturas, lojas de artesanato, comércio em geral, música e teatro de bonecos nos calçadões e na Praça XV. O sujeito mora ali, trabalha ali, diverte-se ali. Como em Nova York. Ou em Paris. Ou Copacabana. O Beto deu a pista, ao abrir, dentro do Mercado Municipal, o Box 32. Isso há trinta anos. Um gênio.

Quando não molhava a palavra no Box 32, íamos o Valdir Alves, o Jair Hamms, Sérgio Grando e eu ao bar do Hotel Castelmar, onde já nos aguarda a mesa do Acari Amorim e do Luiz Carlos Verdieri. Atravessava boas horas, também, bebericando com o médico Paulo Vianna e a psicanalista Madalena, no apartamento deles, perto da Praça Celso Ramos, na Beiramar. Amiúde, formava-se a roda dos jornalistas no bar ou numa casa de sucos: Daisi Vogel, Ubirajara Alves, Marta Bertelli, Suzete Antunes, Aluízio Amorim.

No mais, viajar a trabalho pela Santa & Bela Catarina, garimpando novos ângulos de uma terra e de um povo deslumbrantes. Dos empresários, tinha como referências os presidentes da Hering, Ivo Hering, da Eliane Revestimentos Cerâmicos, Édson Gaidzinski, e da Döhler S.A, Udo Döhler. E, entre os executivos de empresas, sobressai-se o fenomenal diretor da Hering, Ulrich Kuhn, que, naqueles remotos anos, entre 1987/1994, antecipava a visão de um futuro mundo globalizado e conectado, no qual estamos, agora, inexoravelmente enredados.

Os meus filhos Bernardo e Paula são músico e jornalista. Ele, saxofonista, professor da Universidade Federal de Ouro Preto, instrumentista que participa dos mais expressivos eventos do jazz e da MPB, na capital mineira. Ela, designer da sucursal carioca da Editora Abril, surfista desde a Joaquina e a Praia do Rosa. Ambos ‘manezinhos’ por inteiro, torcedores do Avaí, apaixonados pela ilha e por todo o chão catarinense.

Minas, por intermédio do governador Aécio Neves, em 2009 conduziu-me à presidência de sua emissora estatal, fundada em 1936, a Rádio Inconfidência.

É a primeira vez que ocupo um cargo na área pública. Em diversos momentos, Jaime Lerner me convidou para comandar uma secretaria, tanto na prefeitura de Curitiba quanto no governo do Paraná. Mas eu sentia que ainda não havia chegado o momento de abdicar da carreira de jornalista, em favor de uma função no mundo oficial.

Minha experiência em rádio resumia-se a um eventual recreio, na Diário da Manhã, em Florianópolis, comparecendo ao programa de samba, produzido e apresentado pelo singularíssimo Aldírio Simões, o ‘mané’ de todos os ‘manezinhos’. Em tais ocasiões, fazíamos dobradinha em comentários sobre Noel Rosa, Ary Barroso, Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola ou João Nogueira, cuja música emprestou o nome ao programa: Clube do Samba. Inevitavelmente, rodava-se o Rancho de Amor à Ilha, de Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho.

O que nos amarrava? Dinheiro não, mas formosura. O menos visível desse cantinho de terra, perdido no mar: o barzinho no Ribeirão da Ilha, as conversas com o Zé do Cacupé, com o Nego Ênnio (puxador de samba da Protegidos da Princesa), com o tipógrafo Cléber Teixeira (da editora Noa Noa), com Mazinho do trombone de pisto, com o som divino da saxofonista Sílvia Beraldo.

A minha pauta pessoal continua sendo, hoje, a mesma dos tempos de Santa Catarina, um Estado que tinha, pelo menos até os anos 1980 e 1990, a vocação para a esfera local, uma vez que suas cidades nasceram e cresceram, como em nenhum outro lugar do Brasil, sobre bases acentuadamente comunitárias. Santa Catarina forneceu-me, assim, régua e compasso para dar à emissora AM da Inconfidência uma personalidade ainda mais mineira. O canal AM alcança ouvintes em toda Minas Gerais e em grande parte do país, com potência de 100 quilowatts (kW).

Já o canal FM, de abrangência metropolitana, com potência de 25 kW, tem como nicho a música brasileira, com ênfase para a produção artística mineira. O livro ‘O Gigante do Ar’, com 114 páginas, é um mosaico das memórias afetivas dos quase 80 anos da Inconfidência. Tanto o livro quanto as transmissões ao vivo, dos canais AM e FM, podem ser acessados por meio do www.inconfidencia.com.br.

O histórico modelo catarinense de autonomia comunitária pode, perfeitamente, fornecer ao país os fundamentos para um novo projeto nacional, assentado nas relações de vizinhança, na política feita de baixo para cima, na multiplicação das ações cidadãs, no incremento dos arranjos produtivos locais, no encurtamento entre as fontes de produção e consumo, sendo este um fator decisivo para a economia de energia, com menores danos ao meio ambiente, sobretudo no transporte das mercadorias.

Se há um veículo de comunicação capaz de abraçar cada uma das múltiplas esferas locais, em uma sintonia fina com as respectivas particularidades, é o rádio. Foi em suas ondas sonoras que, nos últimos cinco anos, me banhei. Ao longo desse tempo todo, pensei em uma emissora no Canto da Lagoa, em Timbó, em Treze Tílias ou Urussanga. A Inconfidência AM, o ‘Gigante do Ar’, penetra nas mínimas frestas de Minas.

A Inconfidência FM, a ‘Brasileiríssima’, é a plataforma de sustentação e ampliação do grande polo cultural de Belo Horizonte e região. Recordo-me da emissora de minha cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim. A ZYL-9, Rádio Cachoeiro, serviu de palco para que jovens artistas se lançassem nacionalmente, como Roberto Carlos, Raul Sampaio (autor, por exemplo, de ‘Quem eu quero não me quer’ e, também, de ‘Lembranças’) e Sérgio Sampaio (‘Eu quero é botar meu bloco na rua’).

A rádio fomentou um ambiente propício às artes, fazendo com que a cidade se transformasse em um celeiro de artistas, entre os quais cito Jesse Valadão, Darlene Glória, Carlos Imperial, Joelma.

Em que outra profissão, abre-se o trabalho com uma saudação tão simpática, como ‘olá, minhas amigas, meus amigos, caros ouvintes’? Certa vez, eu disse ao governador Aécio Neves: ‘jamais ganhei tão pouco, e nunca fui tão feliz’.

Ele deu uma gargalhada.

*Por VALÉRIO FABRIS

Jornalista, 65 anos. Presidente da Rádio Inconfidência (2009/2015), sócio-diretor Margem 3 Comunicação (2002/2009), diretor da sucursal Gazeta Mercantil/MG (1995/2002), diretor da sucursal Gazeta Mercantil/SC (1987/1994), integrante da bancada de entrevistadores do programa Primeira Página, TV Nacional/DF (1985/87), secretário de redação e editor na Gazeta Mercantil/DF (1985/87), repórter Revista Veja/Sucursal Paraná (1985), correspondente Gazeta Mercantil/Paraná (1979/85), repórter especial Gazeta Mercantil/Rio (1976/79),repórter A Tribuna/ES (1976),redator A Gazeta/ES (1975), redator O Momento/Cachoeiro de Itapemirim, ES (1967)

Ouça vinhetas clássicas da Rádio Inconfidência:

2 respostas
  1. sergio garschagen says:

    Valério é o verdadeiro cidadão do mundo, mo conceito mais dinâmico do termo; Ele não curte apenas cidades, mas principalmente as suas gentes, os detalhes culturais e observa com perspicácia as nuances urbanísticas, sem nunca remar contra quando alguma coisa é muito diferente do que ele conheceu. Substituir Valério em um trabalho é fácil e, ao mesmo tempo, muito difícil. Fácil porque onde a gente chega sente-se a boa vontade das pessoas, o que já facilita o contato. Dificil porque as amizades dele esperam do substituto a mesma verve, a mesma facilidade de conversar desembaraçadamente sobre qualquer tema, sem ser professoral. Tudo isso encontrei nessa conversa.

  2. Luiz Carlos Verdieri says:

    Parabéns pela brilhante narrativa meu querido amigo Valerio Fabris. Obrigado por incluir o meu nome no rol dos teus amigos. Você é daquelas pessoas que nunca passam, que sempre permanecem na memória dos bons momentos e no coração, pela bondade e reconhecimento. Nós, Florianópolis e Santa Catarina temos o maior orgulho de termos compartilhado uma parte de sua bela história. Um forte abraço.

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