Lição de casa

Nos anos de 1970, os centros e diretórios acadêmicos eram objeto de disputas acirradas entre a “esquerda” e a “direita”. Era comum haver muita conotação política e pouca preocupação acadêmica. As “ideologias” eram diferentes, mas os métodos de ação eram muito parecidos: Todos tinham um discurso “democrático”, dogmático. A maioria pertencia “geograficamente” à “turma do fundão”, só que de cantos diferentes. De um lado, os anticomunistas, pró-EUA; de outro, os antiimperialistas, pró-URSS. Eram capazes de decorar doutrinas políticas, contar a história de seus “heróis”, mas incompetentes para entender as aulas ou fazer as lições de casa.

Tinham a fórmula para resolver todos os problemas do mundo, por mais complexos que fossem; mas precisavam de “cola” para passar. Mesmo assim, desprezavam e hostilizavam quem se ocupava de algo que eles consideravam totalmente incompatível com o ambiente escolar: estudar!

As aulas, para eles, eram um contratempo, um empecilho à sua atuação política “revolucionária” ou “conservadora”; ao grande papel que atribuíam a si próprios. Afinal, havia uma “guerra” lá fora! Assim, a maioria preferia ficar no pátio, no banheiro – fumando, ou coisa pior -, na sala do centro acadêmico, ou nem ir à escola, para participar de reuniões com seus mentores. Dos dois lados, muitos aceitaram a condição de “olheiros” ou “patrulheiros”. De todos os lados, valia tudo, inclusive coação física e psicológica. Era um micro-cosmo da “Guerra Fria”!

Mas havia os que acreditavam, de fato, no que diziam. Também tinha os que queriam manter, orientados por seus grupos sociais, seu estilo de vida e, com isso, ter um futuro garantido e tranquilo, por tradição. Também havia muito rancor e dor, por perdas irreparáveis.

As “linhas” doutrinárias também tinham os que se achavam “heróis” ou simplesmente queriam “aparecer”, ou seja: a maioria. Mas, era no discurso “democrático” que residia a maior incoerência de grande parte desses grupos: Em épocas de eleição acadêmica era um festival de denúncias e pedidos de impugnação de chapas de situação e oposição. Chegavam quase ao embate físico!Lembro, uma vez, de ir ao diretório acadêmico de minha faculdade, em época de eleição estudantil, para buscar uma apostila:

Lá chegando, ouvi duas alunas da chapa da situação dizendo, indignadas, que iam fazer de tudo para eliminar a concorrência, pois eles eram a única “opção certa”!

Já farto desse tipo de maniqueísmo – e de ouvir discursos que contrariavam as práticas – falei: “Mas que raio de democracia é essa que vocês defendem? Vocês não querem nem dar chance dos alunos julgarem e escolherem por iniciativa própria!”.

Pra quê…

Começou a aparecer gente na porta que “escondia” os diretores da área de atendimento, só para me “filmar”!
A adolescência é, foi e sempre será, um solo fértil para a doutrinação: massa de manobra! E os simples estudantes tinham que suportar esse clima, e sistematicamente sofrerem as consequências periféricas dessas disputas.

A “evolução” de muitos desses “líderes” estudantis demonstra que alguns levaram essa “experiência democrática acadêmica” para sindicatos e partidos. Era assim na minha escola; foi assim por todo o Brasil e continua sendo assim em todo o mundo!

Mas, a adolescência passa e a maturidade traz – quando a deturpação não é profunda – o discernimento e a compreensão para mudar essas práticas. Entretanto, o que se vê é que, quando assumem a condição de mudá-las, a opção preferencial é por mantê-las, perpetuando ou justificando o que execravam! No final das contas, parece que o discurso ideológico, romântico e heróico, era o que menos importava. Havia, sim, o gosto e o fascínio pelo poder, ou uma compensação para o mau desempenho acadêmico ou esportivo, ou para carências afetivas!

Havia exceções, é claro. E muitos deram suas vidas – ou as tiveram, destruídas – por acreditarem piamente em causas que consideravam nobres. Outros – não se sabe por qual motivo – perderam aquela pureza e convicção democrática. Alguns dos que se indignavam ao ver filmes de Costa Gravas lembram, hoje, a música de Belchior:

“Está em casa, guardado por Deus, contando o vil metal”, de indenizações e pensões, muitas delas autoconcedidas. Entretanto, há os que permanecem fascinados e agarrados ao poder! Continuam com discursos antagônicos, inflamados e cheios de retórica, bonitos no papel e na oratória; mas comportam-se como moscas na alternância de poder…

Assim, em todos os âmbitos, existem pequenos e grandes ditadores, dissimulados ou não, cercados de pouca competência técnica e muita mediocridade oportunista, aduladora e mal-intencionada. As revoluções ideológicas, armadas ou não, que pregavam, deram lugar ao mesmo pragmatismo nefasto e, infelizmente, ainda é preciso que alguém de dentro sinta-se preterido ou traído, para que o “pano” caia e revele as verdadeiras intenções por detrás das aparências. Mas, até nisso os valores estão distorcidos, pois “demônios” subitamente são elevados à categoria de “santos” ou são convidados a desnudarem, também, e com lucro, seus corpos. Para mudar, precisamos de uma revolução, sim, mas de princípios!

É preciso aprender a dosar, por toda a vida, o ímpeto puro e avassalador da juventude com a lucidez que se espera da maturidade! É preciso saber que para representar o povo é imprescindível compreendê-lo, em vez de enganá-lo! É preciso entender que uma mentira repetida pode ser terrível, quando ilude outros; mas assume contornos trágicos, quando ilude, também, quem a concebe.

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