Ligação da Ilha com o mundo

Há 25 anos, Florianópolis perdia um de seus maiores defensores, Beto Stodieck, colunista que com humor sagaz gostava de debochar da arrogância e do preconceito.

[ Fernanda Lago ]*

Beto Stodieck5Na primeira hora do dia seis de agosto de 1990, Beto Stodieck deu seu último suspiro. E lá se vão 25 anos de uma história bem escrita em duas décadas, entre os idos anos de 70 e 80, na imprensa de Santa Catarina.

Sérgio Roberto Leite Stodieck, nunca viu um celular – muito menos pensou o futuro próximo do mundo de hoje, dominado pela web. No entanto, como alguém à frente de seu tempo, já era um ser globalizado. Bem conectado, suas relações eram humanas, nutridas por cartas, telefonemas e às vezes telegramas.

Walmor Oliveira, que ainda garoto começou a fotografar com o incentivo do colunista, disse-me dia desses que o Beto era a nossa internet da época. Penso que ele até imaginou como seria a vida no futuro, mas não chegou a visualizar o velho PC, muito menos os atuais celulares. Mas foi ele mesmo, durante um bom tempo, a ligação da Ilha com o resto do mundo.

Sem censura, tinha boas fontes – um dos poucos com informantes em Brasília, a recém inaugurada capital do país, em plena ditadura. Seu humor driblou fácil alguns censores, mas sua verve aguçada e mente sacana foram motivos para uma demissão do jornal e algumas ameaças anônimas. Ele ficou assuntado, o clima era tenso. Passou um ano em Nova York e voltou ainda mais liberado e cosmopolita, mas permaneceu um implacável defensor da cidade.

Não se conformava com a derrubada e o abandono da arquitetura da Ilha, do estilo colonial até as primeiras modernidades de 1950/60, que sempre enaltecia, enquanto brigava quase sozinho, contra a “sanha assassinadas das imobiliárias” e o despreparo histórico de seus administradores. Em trecho de nota publicada em sua coluna, em março de 1972, no jornal O Estado, lamenta: “… podia-se dizer que a cidade tinha certas características coloniais e outras tantas art-nouveau: sensacional mistura. Agora, não temos estilo nem droga nenhuma. Imaginem que quiseram, em certo tempo, destruir a casa de Victor Meirelles, a fim de alargar a rua. E a casa onde funciona a AABB, na praça Pereira Oliveira, posta abaixo, sem ter ficado ao menos catalogada, para se saber que um dia a cidade já teve uma tremenda residência como aquela. Fora as que estão abandonadas…”.

Lá se vão 25 anos e continua assustando a atualidade de seus comentários e crônicas. Ah, as crônicas! Estas são de fazer torcer os mais puritanos e ouriçar os assanhados. Beto gostava de contar, apimentar ou mesmo inventar situações rodriguianas, só para excitar a imaginação dos leitores, já que nunca dava nomes. Como em Transando em Braille, escrita em fevereiro de 1990 na qual contava que um policial de plantão na Assembleia Legislativa ouviu sussurros e constatou que “um casal convencional, em pelo, praticava escancarado o prazeroso ato natural do sexo em exótica posição – enquanto (detalhe) um ceguinho protegido d’um certo deputado, também nu apalpava detalhes do casal, como se estivesse transando em Braille”.

Beto lançava moda e debochava da arrogância e do preconceito. Ele gostava da mescla “província com vontade de ser grande”, mass respeitava a naturalidade do ilhéu, coma elegância de quem nunca deixou de ser elite sem jamais ser careta (colo ele diria). Ao contrário. Tinha ótimo senso estético e muita cultura. Valorizou e ajudou a lançar artistas locais com uma das mais criativas galerias de arte que a Capital já teve. Ele sabia da importância de não perder a identidade própria – onde reside o charme.

Por isso nada mais justo que agora a Beira-Mar Norte ganhe uma Praça com seu nome. Mas que não inventem monumentos bregas. A praça do Beto deve ser simples, com um belo e funcional paisagismo e espaços para as pessoas desfrutarem o convívio. Com gente alegre, jovem – de todas as idades – bonita e sincera. O Beto e a cidade merecem. *[Jornalista com formação em Filosofia e Mestre em Ciências da Linguagem. Em 1999, junto com a jornalista Bea Porto, publicou o livro É Tudo Mentira. A História Segundo Beto Stodieck, com coletânea de textos do colunista publicados em SC. [Anexo 3 | Memória | DC | Sábado 8 de agosto de 2015]

15048142Quem está na foto? Em pé, da esquerda para direita: um amigo do Beto Stodieck do Rio; Maria Modesto, a musa do surfe; Beto Stodieck, jornalista e formador de opiniões, crítico e irreverente agitador dos bons costumes de Florianópolis; Morena do Rio; Paulinho Pescador, surfista, mergulhador e namorado da Claudinha Pop; Rabelo, surfista do Balneário Estreito; Dedinho, que organizava os campeonatos de surfe da Joaca e da Mole; eu, João Baptista Pereira, que com 20 anos, estudava arquitetura na UFSC e surfava. Sentados da esquerda para direita: Morena Rosa, amiga de todos; dr. Rômulo Coutinho de Azevedo, irmão do Ury, meu colega de UFSC ; o artista plástico Max, com as pandorgas, as festas do Morro do Tico-Tico, onde recebia artistas como As Frenéticas, Rita Lee e Gilberto Gil; Nuno Leal Maia, amigo do Peixoto; Toló, surfista e prefeitinho da Joaquina; o Junior, surfista, amigo e vizinho; Faquinha, surfista e hoje delegado em Floripa; e por último a figura ao lado que surgiu e ficou na festa, o Trincado. [Foto e texto de João Baptista Pereira, Arquiteto e morador de Florianópolis, publicados no DC/ Memória17/05/2013]

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *