Livros para quê?

Publicados na semana passada, os resultados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil informam que o número de livros lidos por aqui caiu de 4,7 para 4,1 ao ano de 2007 para cá. Deixando de lado o que isso pode significar em termos de retrocesso para a cultura do país, me vem à cabeça uma preocupação mais filosófica, com o perdão da pretensão que vai por trás dessa afirmativa. Afinal, por que procuramos os livros? Há quem saia atrás de aventuras, de riqueza, da felicidade, de um grande amor, de uma prosaica cervejinha no bar da esquina. No caso da leitura, desconfio que é a velha busca por conhecer, por entender o mundo, em suma, por desemburrecer.

Mas aí entra outra questão, que é a da utilidade do conhecimento, e mais, em que medida ele vai nos tornar melhores, nos libertar dos preconceitos e daquilo que nos incutiram desde a infância. Menos mal que há quem queira se livrar de tais amarras, porque a maioria segue assim mesmo, crendo no acerto inabalável de suas assertivas.

Pois bem, o que a leitura de um brilhante pensador acrescentará às nossas certezas e convicções? Ao lê-los, vamos incorporar as suas ideias, e então já não somos nós que pensamos, mas alguém a quem permitimos nos influenciar.

Num texto sobre a leitura, Arthur Shopenhauer afiançou: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental”. Ele quis dizer que o melhor é pensar, porque aí podem surgir ideias originais, uma vez que “durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios”.

E, convenhamos, o que somos a não ser o que nos fizeram, seja a partir do conteúdo da biblioteca de Alexandria, seja dos e-books que, dizem, estão encalhando nas lojas americanas? Por acaso decidimos alguma coisa por conta própria? Quando tomamos uma medida que não tenha sido plantada, seja na escola, seja no púlpito, seja na mídia, seja nos livros que tanto prezamos?

Desde sempre, a massa oscila entre um guru e outro, entre o que rei dizia e o que a igreja pregava, sob a ameaça do fogo eterno. A Revolução Francesa não nasceu propriamente no povo – antes disso houve ideais emanados de alguém que, por seu turno, resultou do caldo de outras crenças, que derivaram de outros princípios, que decorreram de outras culturas, sabe-se lá em que estágio da humanidade.

Sei que esse papo está chato e que o espaço, felizmente, chega ao fim, exigindo um basta nessas elucubrações de uma noite de domingo. Quem ler esta crônica já terá sido (mal?) influenciado, por isso paro por aqui.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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