Livros, uma sedução

Minha boa amiga me pergunta o que deve fazer para que seus filhos se interessem pelos livros e pela leitura. Pensando numa resposta, me veio à lembrança uma passagem do ótimo filme “O Silêncio dos Inocentes”. É aquela em que Hanibal Lector, o genial vilão, querendo dar uma pista sobre o assassino serial, diz: “Só cobiçamos o que podemos ver”.

Minha resposta à amiga foi: exponha ao máximo os livros em casa. Deixe que seus filhos os tenham sempre diante dos olhos, possam tocá-los, cheirá-los, até mordê-los, se forem crianças pequenas.
Em minha casa temos um hábito que não aconselho aos que gostam de ter tudo sempre arrumadinho, intocado, inacessível, sobretudo às crianças. Os livros pululam, e a gente os encontra nos lugares os mais improváveis.
Nas estantes, ordenados, enfileirados, catalogados, os livros impressionam, mas parecem inibir a todos os que não convivem com eles. Parecem sentinelas de uma cultura erudita. Parecem igualmente apenas instrumentos de pesquisa, que estão ali prontos para entrar em ação em prol do trabalho, da obrigação, de tarefas acadêmicas ou coisas que o valham.

Ora, livros não foram feitos apenas para servir a esse propósito. Além dessa finalidade, sem dúvida nobre, porém formal, livros devem conduzir ao prazer. E prazer e formalidade nunca se dão bem.
Livros devem seduzir. Do contrário, não cumprirão sua verdadeira missão, que é a de humanizar, em todos os sentidos: instruindo, informando, divertindo.

Livros precisam ser cobiçados. Para isso, têm não apenas de ser vistos, como disse o personagem do filme; é necessário também que estejam absolutamente acessíveis.
Tenho aqui um Machado, em volume de obras completas, que fica sempre na mesinha de centro da sala. Por isso, muitas vezes, a ironia do bruxo do Cosme Velho já alimentou muitas conversas com amigos que nos visitam.
Na cabeceira da cama, dócil, meiga, sonhadora, Cecília faz morada. E me socorre, generosa como em vida, quando a insônia bate forte.

Pesquisas inúteis nos dão conta de que passamos uma boa parte da vida no banheiro. Pois aí está um bom lugar para se ter uma boa pilha de livros. Quem sabe se assim, adolescentes onanistas não trocarão a necessária mas fugaz Playboy por alguma leitura igualmente erótica porém mais duradoura e densa?
Sherlock Holmes anda agora em nossa mesa da cozinha, por onde aliás passaram recentemente Aghata Christie e Dashiell Hammett. Que crimes andarão eles investigando entre café, leite, pães, manteiga e uma perigosa faca afiada?
Um dia desses, descobri que Guimarães Rosa andava, talvez perdido, nas veredas do corredor!

Há algum tempo, observei uma artimanha de Platão: estava bem ao lado da TV, em cima do controle remoto. Na certa, tentava substituir pelas profundas indagações socráticas as baboseiras generalizadas que a televisão tenta nos impingir.
Fernando Pessoa no lavabo; Paulo Mendes Campos na entrada do apartamento, sobre o aparador, montando guarda, com sua genialidade de cronista; Dickens e Tolstoi estavam outro dia, lado a lado, sobre o parapeito da janela. Nelson Rodrigues – imaginem – eu pilhei num lugar bem adequado: num banquinho, na entrada… do quarto de empregada!

Tempos atrás, Melville, em seu “Moby Dick”, foi parar sobre a pia da cozinha. Bem, talvez faça sentido, baleia, água, mar…
Penso que livros devem ser conservados, para que durem e cumpram seu destino: servir ao máximo possível de leitores. Possuí-los egoisticamente não me parece condizente com isso. Assim, uma vez lidos, e se não são imprescindíveis para um trabalho continuado, devem ser passados adiante. Deste modo, transformam-se em novos para quem for lê-los; abrirão caminhos para outras pessoas; iluminarão vidas.

Conservá-los não impede, por exemplo, que se lhes escreva nas margens, um exercício de parceria que certamente agrada a qualquer autor.
Livro é, para mim, sacrossanto por seu conteúdo, sua magia, sua insubstituível finalidade. Mas não é um ícone sagrado. Numa espécie de humildade superior, um livro se presta até a tarefas prosaicas. Agora mesmo, Euclides da Cunha, com seu “Os Sertões”, de linguagem arrevesada e conteúdo tão fundamental para se entender o Brasil, está aqui, servindo de suporte ao laptop em que escrevo esta crônica. E nem por isto perdeu sua sedução!

Não sei se nossa experiência aqui de casa com os livros servirá à minha amiga e a outras pessoas. Muitos são essencialmente refratários a eles, e só lerão pela vida afora o estritamente necessário. O que sei é que livros devem se converter numa sedução necessária, o que me parece mais verdadeiro ainda quando se trata de crianças. Quanto mais cedo se é seduzido, mais tempo se tem, ao longo da vida, para vivenciar o mundo maravilhoso da leitura.

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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