Locutor a força – 25

Praga de Dubcek e a FAMU
Para os que não acompanharam a “Primavera de Praga”, sob a batuta do então presidente Alexander Dubcek, em 1968 a Tchecoslováquia tentou ‘morder as rédeas’ de seu destino, uma liberdade que durou seis meses.
Por Aguinaldo José de Souza Filho

Preocupados com a ‘inveja’ dos outros países do bloco comunista, os soviéticos invadiram o país e tiraram Dubcek do poder. Tentando ridicularizá-lo ao extremo, os invasores o colocaram nas ruas de Bratislava, capital da Eslováquia, vendendo tomates, na época considerada a pior humilhação. O povo comprava todo seu estoque de tomates para ajudá-lo, mas nada mais podiam fazer pelo ex-presidente que continuava sendo adorado!

Não demorou para minha vida na rádio Praga virar rotina. De tempos em tempos entrevistavamos um estudante ou um militante brasileiro que havia sido torturado pelo regime militar e conseguira escapar.

Praga era um bom abrigo para os exilados brasileiros, como por exemplo Luis Carlos Prestes e seus companheiros. Prestes havia fugido para a União Soviética, mas para evitar confrontos internacionais, os soviéticos o mandaram para Praga. Eu o conheci numa tarde de churrasco em sua casa.

As histórias de tortura que contavam nos faziam arrepiar os cabelos da nuca por tanta indignação e horror.

Entre os estudantes brasileiros em Praga na ocasião estava Germano Blum, hoje um cenógrafo famoso no Brasil e um dos últimos a estudar com Jiri Trnka, o grande mestre tcheco da animação de puppets, que
faleceu logo em seguida, em 1969. Na foto que acompanha essa matéria podem ver-me com Germano  numa visita que fizemos ao balneário tcheco, Karlovy Vary. Ele é o mais baixo! As tentativas de fazer uma programação de rádio mais descontraida eram recebidas com “não queremos idéias capitalistas”! Essas “idéias capitalistas” eram o retrato perfeito da famosa frase “sim, somos todos iguais, mas alguns
de nós são mais iguais que outros”, do livro Animal Farm, de George Orwell. Explico: Passeando por um subúrbio de Praga, me deparei com a construção de um lindo prédio de apartamentos de luxo. Perguntei a um dos operários para quem eram esses apartamentos tão grandes, e ele respondeu que eram para membros do partido comunista! Enquanto isso o resto do povo se expremia em ‘apertamentos’ conjugados!

O sistema socializado existente no país tinha seus méritos, afinal todos tinham emprego garantido – tinham de aceitar o que lhe dessem, vejam o exemplo do ex-presidente tcheco – um cobertura médica gratuita, e um lugar para morar. Isso me lembra a dentista que precisei consultar um dia. Uma mulher enorme que nem se deu ao trabalho de dizer que ia furar meu dente sem anestesia – inexistente em seu consultório.

Imagino que os dentistas dos que eram “mais iguais que outros” não sofriam do mesmo mal! Nos jornais e no rádio estranhei a falta de notícias sobre crimes.

Disseram que assim evitava que os fracos imitassem os bandidos. Meu fusquinha, com placa de estrangeiro, era visado pela polícia nas madrugadas de fim de semana. Como em Praga se bebe muito– afinal é onde fabricam uma das melhores cervejas do mundo –  tinham certeza que se conseguissem me pegar,  o’bafômetro’ iria acusar alcool no meu sistema. Só que os “Volgas” russos eram feitos de aço, pesadérrimos e não eram páreo para meu fusquinha envenenado. Imaginem só!

O teste para a Universidade de Cinema foi mais severo que eu imaginara. Além de longas dissertações sobre meus motivos para querer estudar cinema na Tchecoslovaquia, a comissão de admissão, composta de luminares do cinema tcheco da época, me fez suar com perguntas sobre compositores e músicas clássicas, identificação de móveis e roupas de diferentes épocas, hábitos e costumes de vários séculos. Fazia sentido – um país milenar, com longa tradição e magnífica história. Nunca suei tanto durante o inverno!

Levaram duas semanas para dizer que eu havia passado nos exames, mas que não obtivera nota boa o suficiente para me qualificar a uma bolsa de estudo do estado. Poderia assistir aulas, mas teria que pagar em divisas. Não aceitariam coroas,  dinheiro tcheco. Como o primeiro ano consistia mais em aulas teóricas, precisando de mais dólares para cobrir as despesas de produção dos anos seguintes, eu fiquei numa boa.

Toda oportunidade que se apresentava ia passar uns dias em Londres para fazer umas gravações na BBC e dar aulas de português para os engenheiros ingleses que construiram a ponte Rio-Niteroi.  Assim eu
financiava a escola. E foi aí que os soviéticos entraram em cena! As aulas, que até então eram interessantes, começaram a ficar chatas.

Os professores eram obrigados a ensinar a versão marxista da arte. Os estudantes desafiavam o corpo docente trazendo vassouras para as aulas e ameaçando a retaguarda dos professores com os cabos daqueles instrumentos de limpeza. Os movimentos estudantís – similar aos movimentos de jovens em qualquer outra nação – deixavam os novos dirigentes embaraçados junto a Moscou, que foi obrigada a abrandar o aperto. O então conselheiro da embaixada brasileira em Praga, Ronald Small, que periodicamente ia a Viena buscar o malote diplomático brasileiro, e que sempre me dava uma carona, me convenceu que eu estava perdendo meu tempo alí, que a primavera de Praga terminara. A esta altura eu estava seriamente envolvido com a produtora do serviço brasileiro da rádio Praga, Michala Pokorny Vrba. A escola em Londres me havia perguntado se eu queria dar aulas em base regular. A BBC também estava interessada numa maior participação minha no serviço brasileiro. Tinha que tomar uma decisão, e logo!  Falamos mais na semana que vem.


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