Locutor a força 26

Inglaterra, Lá vamos nós… de novo!
O romance com a produtora da rádio Praga estava pegando fogo! Depois de quase um ano na Tchecoslováquia e de ver o sonho de estudar cinema na FAMU ir por água abaixo com a invasão soviética, voltar para Londres e trabalhar na BBC parecia a melhor opção.
Por Aguinaldo José de Souza Filho

Tinha duas boas ofertas de emprego – então porque não? Michala e eu
resolvemos juntar os trapinhos. Uma vez regularizados os nossos
documentos – para uma cidadã tcheca, naquela época, casar com um
estrangeiro era complicado – e não existia casamento em igreja, para
um país comunista.

A cerimônia civil foi na prefeitura de Praga, um lindo prédio de priscas eras, com um relógio renascentista que, ao dar a hora certa, bonecos saem de uma porta a esquerda, passam em frente ao relógio e desaparecem no lado direito, tudo ao som de carrilhões.

Todas as pessoas na praça param para assistir. Se sair também uma
noiva de véu e grinalda do prédio, a festa está completa! Depois de
uma semana de lua de mel pelo interior do país, eu parti para Londres,
enquanto Michala esperava pelo seu cobiçado visto de saída. Várias
vezes foi chamada ao setor de passaportes, mas sempre alegavam que
faltava isso ou aquilo!

As semanas foram passando e eu começava a ficar preocupado. Se deram permissão para ela casar com um estrangeiro, porque estavam agora segurando seu passaporte? Liguei para o meu amigo conselheiro na embaixada do Brasil, Ronald Small. Expliquei a situação. Ronald
cuidava da papelada de comércio entre o Brasil e a Tchecoslováquia.

Na visita do representante de comércio tcheco, Ronald colocou na mesa a seguinte cartada: “Vocês permitiram que essa mulher casasse com um cidadão brasileiro, e agora estão segurando o passaporte dela,
porquê?” e Ronald desafiou: “quando vocês liberarem o passaporte da Michala, eu darei andamento nesse seu pedido de compras de matéria prima brasileira!” Foi uma decisão ousada do conterrâneo, mas funcionou, porque essa era a língua que entendiam.

No dia seguinte Michala foi chamada às pressas ao setor de passaportes e seu documento lhe foi entregue entre dentes rangendo! Ela correu para casa, pegou sua mala, foi para o aeroporto para pegar o primeiro avião que saísse dali. O aeroporto entrou em quarentena! Um caso de cólera com um passageiro que chegara da África, e a Tchecoslováquia estava sem vacinas! Michala acampou por três dias no aeroporto esperando que a vacina chegasse da Suiça. Ela achava que se saísse do aeroporto, nunca mais a deixariam partir! Ronald Small,  além de lhe ter conseguido o visto de saída do país,  passou aqueles três dias levando alimentos e cigarros para minha esposa no aeroporto. O primeiro avião a ser autorizado a levantar  vôo de Praga, trazia Michala a bordo. A espera no aeroporto em Londres foi angustiante. Ouvir meu nome no serviço de alto-falantes do Heathrow acelerou meu coração.

Precisavam da minha presença para traduzir. Seu ódio pelos soviéticos era tamanho que ela se recusava a falar russo com o oficial da alfândega,  já que ela não falava inglês. Russo era a segunda língua obrigatória na Tchecoslováquia. “All’s well that end’s well”, a frase que cabe aqui para descrever o desfecho desse drama. A alegria durou uma eternidade, principalmente para a jovem tcheca, que pisava solo livre pela primeira vez na vida! Aí  iniciamos um processo de adaptação um ao outro dentro de uma cultura que Michala desconhecia, por exemplo, uma vez tivemos uma grande briga devido justamente ao ‘estilo’ de
liberdade que praticamos no ocidente. Tentando dar-lhe alento para a vida ‘fora da cortina de ferro’, eu havia dito a Misha que  eu conheço bem o ‘meu mundo’, que tudo daria certo, que ela teria que ser um pouco agressiva para conseguir as coisas. Ela ficou mais de uma semana sem falar comigo! O problema? para os tchecos, a palavra ‘agressivo’ só era aplicada para loucos, dementes internados em hospícios! O conhecimento de idiomas facilita a comunicação entre os povos, mas às vezes pode complicar também! Psicologicamente, a ida para Londres também foi para mim, um período de ‘re-adaptação’ interessante.

Depois de um ano num país sem publicidade propriamente dita, de certa forma, entre outras coisas, liberou a mente da pressão feita pela propaganda ocidental para comprar isso ou aquilo. Deu espaço para poder pensar, sem estresse. Isso ficou patente ao sair do ‘tube’, o metro londrino, na estação Picadilly Circus. Quem já foi a Londres sabe do que estou falando. A quantidade de anúncios luminosos existentes naquela ‘praça’ é impressionante. ‘Consuma’, ‘beba coke’, ‘compre jeans’, ‘faça isso, faça aquilo’. É um bombardeio constante de consumismo. Não é à toa que devemos tanto aos cartões de créditos! Semana que vem falamos mais.

Paz!


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