Locutor a força 27

O filho da liberdade!
Durante o período que convivemos em Praga, Misha nunca se preocupou em usar contraceptivos, já que um médico lhe havia dito que ela nunca teria filhos. Qual foi então a nossa surpresa ao sabermos, um mês após sair da República Tcheca, que ela estava grávida! 
Por Aguinaldo José de Souza Filho

Uma pergunta que sempre ficou entre nossas orelhas foi: será que a falta de ‘fertilidade’ dela era psicosomática? Que a alegria de viver num país livre, sem coação alguma, possa ter feito uma diferença hormonal no seu corpo? O poder da mente?

Foi confortante, até sublimar, pensar  – e até aceitar –  que nosso filho, hoje ator em Los Angeles, foi fruto da liberdade! Óbviamente que, a partir daí, o controle de natalidade passou a ser parte da nossa vida, até eu fazer vasectomia!

Ampliava-se minha participação na BBC. O sistema vigente na época permitia que os “broadcasting-journalists” contratados utilizassem um OC, “outside-contributors”, ou free-lancers, para dar variedade de vozes em seus programas culturais. Jader de Oliveira, hoje correspondente da Globo-News, e Ivan Lessa, do famoso ‘Pasquinho’ dos anos 60, eram meus clientes regulares, assim como Mariana Zappert, entre outros. Apresentei um projeto de Jazz na BBC, que entrou logo no ar.

A regularidade da minha participação nas transmissões da BBC levou a direção a quebrar um tabu e me ofereceu, pela primeira vez a um OC, o visto de residente, até então previlégio dos jornalistas sob contrato.

Na parte da manhã eu dava aulas de português para executivos ingleses prestes a serem transferidos para suas filiais no Brasil, o que
incluiu os engenheiros que construiram a ponto Rio-Niterói. Misha começou também a colaborar esporadicamente com o serviço de língua tcheca da BBC. Enfim, a Bush House, o prédio que abriga a BBC como um todo, passou a ser a nossa segunda ‘house’. Nasce nosso único filho!

O sistema inglês de assistência médica, “welfare system”, é conhecido no mundo todo como muito generoso. Europeus do sul tiravam antagem desse sistema dando luz a seus filhos em território inglês. Entre os benefícios: hospital e parto de graça, acompanhamento em casa de assistente social semanal de graça, que ensina inclusive como cuidar de bebês, como alimentar, como lavar e higienizar a roupa infantíl, e visita regular – em casa – de um pediatra. Além de uma soma em dinheiro da coroa britânica como ajuda de custo dentro de um cartão da rainha dando as boas vindas a seu novo súdito! Um exemplo a ser copiado por todas as nações que se prezam.

Hoje aquela enorme instituição médica é um hotel de luxo no centro de Londres. Não conseguindo arcar com o alto custo de um lindo apartamento na Ovington Square, ao lado do gigantesco e famoso Harrods, a proprietária rescindiu do contrato e mudamos para um
‘garden-apartment’ no norte de Londres, Kilburn Park, primeira residência de nosso filho Philip nesse planeta. O apartamento era o andar térreo de uma daquelas tradicionais casas inglesas de três andares– cujos telhados eram visitados por Mary Poppins! Fomos recebidos pelo morador do segundo andar, Mr. Ryan, um ‘bob’ (policial) londrino.

“Posso chamá-lo de Alex?” foi a resposta dele ao me apresentar. Aguinaldo era difícil para ele pronunciar. “Claro”, respondi, e meu nome daí para a frente foi ‘Alex’. O ‘garden apto’ era espaçoso, com um bom quintal nos fundos, mas faltava uma coisa essencial.

Construção antiga, ele não possuia banheiro, só uma casinha nos fundos com a privada, por isso o aluguél era baixo! Do outro lado da rua existia um banheiro público, que era usado pelos meus vizinhos de cima. Em baixo da escada para o andar de cima – as escadas entre os andares ainda existiam – notei um espaço grande o bastante para a instalação de um chuveiro ‘lorenzetti’. Pedi ao filho de um diplomata brasileiro que mandasse vir do Brasil pelo malote diplomático um destes chuveiros. Duas semanas mais tarde eu estava concluindo a instalação do chuveiro, com ladrilhos, e tudo mais.

Os ingleses mantêm uma distância considerável entre a água e eletricidade. Até o interruptor dos banheiros fica do lado de fora!  A
oferta de uma ducha ‘eletrificada’ era sempre graciosamente rejeitada pelos Ryans, temendo serem eletrocutados. Até o dia que seus nomes foram ‘tirados do chapéu’ para o ‘chá dos súditos’ com a rainha – uma tradição da coroa inglesa. Chegando tarde em casa para dar tempo de atravessar a rua e se banhar, Mr. Ryan aceitou tomar uma ducha no nosso lorenzetti. Ganhamos freguês para sempre!

A notícia da existência de um “shower” no nosso apartamento, levou o proprietário a exigir um aumento no aluguél. Afinal, a taxa baixa era para apartamento sem ducha.

Levei-o ao tribunal. Uma das melhores aulas de civilidade e justiça que jamais testemunhei. Os detalhes na semana que vem. Paz para todos.


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